Maílson da Nóbrega e seu novo livro – Estadão
- Na Mídia
- 03/04/2026
- Tendências
Tudo é muito bem arrumado e explicado. Serviria também aos candidatos à Presidência da República, se quisessem entender melhor a economia brasileira
O livro tem uma pergunta como título: O Brasil ainda pode ser um país rico? O desafio da produtividade, para a qual o autor tem resposta afirmativa, mas com uma série de condicionantes ou coisas por fazer. Com 311 páginas e 11 capítulos, volta à antiguidade e passa também pela China e outros países procurando identificar fontes do crescimento econômico que ele vê como o desafio da produtividade, inclusive na capa. Essa parte introdutória lhe toma a maior parte do livro, mas o ajuda a formar sua visão sobre o Brasil.
Para o Brasil, o autor vê ventos contra e ventos a favor. É uma análise interessante e completa. Se eu voltasse a lecionar Economia Brasileira, adotaria a obra como o livro-texto do curso.
Maílson é economista, foi ministro da Fazenda entre 1988 e 1990, é sócio da Tendências Consultoria, uma das maiores empresas do ramo no País, tem seis livros publicados e é membro de conselhos de administração de várias empresas brasileiras. Portanto, está muito bem qualificado para escrever um livro como esse.
Ele entende que “o Brasil tem um encontro marcado com uma grande crise fiscal nos próximos dois ou três anos, que pode se desdobrar em crise financeira e gerar impactos negativos consideráveis sobre a economia. (…) A crise financeira tende a decorrer de um colapso fiscal. Suas origens estão na cultura de irresponsabilidade fiscal da classe política, que costuma desprezar a restrição orçamentária. (…) Aqui se diz que gastar depende apenas de vontade política. (…) Na realidade, o Brasil nunca levou a sério o Orçamento público, embora ele seja a lei mais importante de um país. (…) Pior, a Constituição de 1988 inaugurou a marcha da insensatez fiscal que se prolonga até hoje. Movidos pela missão utópica de eliminar desigualdades sociais e a pobreza (objetivos que tinham os seus méritos), os constituintes lançaram as bases de uma generosa Previdência Social e de amplos programas sociais.”
Aqui tenho uma pequena diferença com Maílson, pois, inclusive na capa do livro, ele ressalta que a saída está no aumento da produtividade, enquanto eu tenho ressaltado que a saída está no aumento do investimento, em particular do investimento público, pois é ele que leva ao aumento da produtividade, mas este é um termo mais difícil de ser compreendido pelo público em geral. O investimento caiu fortemente no setor público após a Constituição de 1988. Noutro trecho do livro, o próprio autor reconhece que o conceito de produtividade “(…) é ignorado por grande parte da sociedade e da classe política.”
Nos dois capítulos finais, Maílson aborda os ventos contra e a favor de um maior crescimento econômico. Passando aos primeiros, ele aponta dez causas da redução da capacidade de elevação do potencial de crescimento econômico. São elas: “1) As reduzidas taxas de poupança e de investimento como % do Produto Interno Bruto (PIB); 2) um ambiente de negócios prejudicado por insegurança fiscal; 3) o elevado protecionismo de uma economia fechada; 4) as excessivas regras de conteúdo local, que reduzem a eficiência produtiva da indústria; 5) a má qualidade da educação; 6) um partido, o PT, o único grande partido de esquerda que não modernizou suas ideias econômicas, ainda ancoradas em visões que já eram arcaicas quando de sua fundação, em 1980; 7) uma classe política pouco familiarizada com o papel da economia de mercado no desenvolvimento, desconfiada das ações e da independência do Banco Central, favorável ao caráter ‘estratégico’ de empresas estatais e que interpreta como sua missão básica carrear recursos para Estados e municípios via emendas parlamentares ao Orçamento; 8) a ausência de aplicação sistemática de avaliação permanente de políticas públicas (ainda que estabelecidas na legislação e de alguma forma já praticadas); 9) o protecionismo que inibe a exposição da indústria à competição internacional, gera desincentivos à inovação, acarreta má alocação de recursos e reduz a produtividade; e 10) os privilégios dos supersalários de juízes e procuradores, engordados por penduricalhos de toda a natureza.”
Quanto aos ventos a favor, o autor enumera quatro áreas: 1) o Banco Central e a solidez do sistema financeiro, destacando as reformas de 1986-1988, o relacionamento com o Bank for International Settlements (BIS), a redução dos bancos estaduais e os prêmios internacionais recebidos pela direção do Banco Central, entre outros itens; 2) o agronegócio: protagonismo global e competitividade e a transformação histórica do setor; 3) indústria extrativa – petróleo, minério de ferro e minerais críticos; e 4) infraestrutura logística, inclusive as Parcerias Público-Privadas.
Acho que Maílson poderia ter incluído o livro dele na lista…
É isso aí. Um livro completo, bem organizado, que não abusa do economês. Tudo é muito bem arrumado e explicado. Serviria também aos candidatos à Presidência da República, se quisessem entender melhor a economia brasileira.
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