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Pressão para o BC – O Globo

Desenrola reforça crédito menos sensível à Selic, que ganha espaço

Com juros abaixo do mercado e garantia do governo, o novo Desenrola Brasil, que permite renegociação de dívidas bancárias, deve aumentar o volume de crédito menos sensível à ação da política monetária do Banco Central (BC). O programa tem potencial de refinanciar R$ 100 bilhões em dívidas cobertas pelo Fundo de Garantia de Operações (FGO) para eventuais calotes.

O programa se assemelha ao conceito de “crédito direcionado”, com regras e finalidades específicas definidas pelo governo. O grupo cresce em ritmo superior ao do crédito livre, no qual os bancos determinam suas taxas e é afetado pela variação da taxa básica de juros. 

Alvo de recorrente preocupação do BC, o crédito direcionado cresceu 12,3% nos 12 meses encerrados em março, contra 7,7% do segmento livre. Há um ano, o ritmo dos dois grupos estava mais próximo: 11,7% contra 8,3%.

No grupo de operações reguladas pelo Estado, que chegou a R$ 3,1 trilhões, estão financiamentos imobiliários com recursos da poupança, o Minha Casa, Minha Vida (MCMV), crédito do BNDES e boa parte do financiamento rural.

Uma combinação de fatores foi fazendo aumentar a distância na trajetória dos dois grupos no último ano: o tarifaço dos EUA, que levou ao programa Brasil Soberano; mudanças nas regras para elevar o crédito habitacional; o maior interesse por investimentos isentos de imposto, entre outros aspectos.

Remédio de juro mais alto

O movimento de aceleração do crédito direcionado ocorre em um período de Selic mais alta e isso não é coincidência. Com juros elevados, o ímpeto do governo em tentar mitigar parte dos efeitos acaba incrementando a parcela de crédito direcionado, o que, por sua vez, deixa o BC mais pressionado.

Além do Desenrola, em 2026 novas linhas com juro insensível ao BC têm sido lançadas, como o Move Brasil (reforço de R$ 20 bilhões para compra de caminhões e ônibus), compra de bens de capital de alta tecnologia (mais R$ 10 bilhões) e o reforço do Fundo Social para o MCMV (de R$ 20 bilhões).

No segmento livre, com saldo de R$ 4,1 trilhões, a alta da Selic foi crucial para o freio no ritmo de expansão. Mas pesa a concorrência com o mercado de capitais, com a atratividade de títulos incentivados.

Em seus comunicados, o BC tem alertado que o aumento do crédito direcionado pode elevar o chamado juro neutro – que não acelera nem trava a economia. Ao não variarem conforme a política de juros, em tese se reduz a capacidade de a Selic afetar o ritmo da economia de baixar a inflação. Ou seja, quando o direcionado é demais, o BC precisa fixar a Selic em nível mais elevado para ter o mesmo efeito caso todo e crédito sofresse seu impacto.

A questão, porém, tem nuances, apontam economistas do governo e do setor privado Uma delas é o fato de que, hoje, boa parte dos empréstimos é feita a taxas de mercado. Em março, cerca de 40% das concessões foram nesse modelo. Uma década atrás, após um ciclo de hiper expansão do BNDES, sequer existia a Taxa de Longo Prazo (TLP), que segue juros dos títulos de cinco anos do Tesouro e representa boa parte das operações do banco. 

A maior presença de bancos privados em financiamentos com regras definidas pelo governo é evidência de que direcionamento não é mais sinônimo de total “entupimento” de canais de atuação da política de juros do BC. Instituições financeiras privadas cresceram mais rapidamente (11,8%) que os bancos públicos (7,9%) – considerando todo tipo de operação de empréstimo nos 12 meses até março.

A própria autoridade monetária é em parte responsável pela alta no crédito regulado, ainda que em abordagem de mercado e estrutural. O BC flexibilizou a regra de recolhimento compulsório nas captações da caderneta de poupança para permitir crédito imobiliário a taxas de mercado. Com isso, o crescimento nesse grupo foi de 42,9% nos últimos 12 meses.

– Nem todo crédito público é direcionado e nem todo crédito direcionado é subsidiado. O crédito do BNDES via TLP não é subsidiado, é igual à taxa de mercado do Tesouro. Segunda coisa, a maior parte do crédito direcionado no Brasil hoje é habitacional, ligado à poupança, e rural – diz o diretor de Planejamento do BNDES e ex-ministro da Fazenda, Nelson Barbosa.

Ele ressalta que medidas de crédito adotadas mais recentemente têm foco em enfrentar problema conjuntural (como a reconstrução do Rio Grande do Sul, o tarifaço de Trump, crise no setor de caminhões). Ou têm horizonte mais longo, com foco em infraestrutura ambiental, como no caso do Fundo do Clima, e infraestrutura social, no Fundo de Investimento de Infraestrutura Social. 

 O ex-secretário do Tesouro e chefe de Macroeconomia do ASA, Jeferson Bittencourt, diz que para a ação do BC o ideal seria a maior par- cela possível de crédito livre:

– Uma coisa mais complicada é o crédito subsidiado, prejudica mais a potência da política monetária porque isola pedaço significativo do mercado do efeito da alta dos juros. E, naturalmente, o BC tem que promover taxas mais altas sobre aquele mercado que consegue afetar.

Mas pondera que parte do direcionado é feita a taxas de mercado e cresce pela expansão de produtos financeiros isentos, como letras de crédito imobiliária e do agronegócio (LCIs e LCAs). Nesse caso, diz, a política monetária é menos afetada porque os juros, ainda que mais baixos, sofrem influência da Selic:

– O que o BC quer é um crédito direcionado mais saudável, embora também sofra distorções em função do sistema tributário. 

Capacidade de produção

Mesmo tendo influência da Selic, o crédito direcionado com taxas de mercado tende a sentir menos o efeito da restrição de oferta que ela causa quando está em alta. Isso porque a oferta de operações está mais sujeita à intenção do governo e menos ao apetite dos bancos. Por outro lado, o fato de o custo subir com o juro básico acaba por diminuir a demanda, sobretudo de empresas, como fica claro no desempenho do crédito do BNDES vinculado à TLP. Essa taxa nos últimos anos subiu muito e fez o banco ter alta nos desembolsos menor do que projetava no início do governo.

O secretário executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, defende que a discussão sobre o direcionado leve em conta a destinação dos recursos e o nível dos juros. Para ele, se o recurso for voltado para investimento e ampliação da capacidade de gerar renda, baratear o crédito é estratégia que pode ajudar o BC em um horizonte mais longo, ao ampliar a capacidade de produção da economia, tirando pressão inflacionária:

– Uma coisa é o crédito para o consumo, outra coisa é o crédito para o investimento. Isso a gente precisa preservar e tentar baratear, porque amplia a oferta e ajuda a inflação.

Outro efeito destacado por ele é o estímulo à formação de patrimônio das famílias:

– Ao se forçar a pagar aquela prestação, ele acaba acumulando um patrimônio que não ocorreria sem aquele crédito habitacional – disse.

Crédito do BNDES com taxa menor aumenta 82% de 2023 a 2025

O BNDES quase dobrou o montante de crédito “incentivado”, com juros abaixo das taxas de mercado, nos três anos da gestão Aloizio Mercadante, iniciada em 2023.

Os empréstimos mais vantajosos passaram de 19% do total desembolsado naquele ano para 34,5% em 2025, num montante de R$ 58 bilhões – o aumento da participação foi de 82%. Estão incluídas aí linhas tradicionais, como o Plano Safra, e iniciativas da atual gestão, como o BNDES Mais Inovação Pelo menos mais R$ 50 bilhões podem estar a caminho, com medidas como a reedição do Brasil Soberano, de socorro a empresas atingidas pelo tarifaço dos EUA, e o Move Brasil, para investimentos em caminhões, o que deverá manter a tendência de alta neste quarto ano do terceiro governo Lula. 

Tradicionalmente, o crédito do banco era todo com juros abaixo dos de mercado, para viabilizar o financiamento a investimentos numa economia instável. Após excessos do gigantismo do banco nos governos anteriores do PT, a mudança na taxa de referência, a partir de 2018, praticamente acabou com incentivos.

Parte da alta do crédito incentivado de 2023 para cá tem a ver com a gestão Mercadante, que busca aumentar o peso do BNDES na economia. E parte tem a ver com o fato de que o banco opera duas medidas emergenciais lançadas pelo governo.

Uma foi o financiamento para a reconstrução de empresas após enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, com recursos do Fundo Social do pré-sal. A segunda é o Brasil Soberano, lançado em setembro de 2025. Sem as duas linhas, a fatia do crédito incentivado nos desembolsos do BNDES teria subido de 19%, em 2023, para 23%, em 2025, e não os 34,5% informados pelo banco.

Daqui para a frente, o potencial de alta do crédito incentivado supera R$ 50 bilhões: R$ 15 bilhões para a 2ª edição do Brasil Soberano, contemplando também empresas afetadas pela guerra no Oriente Médio; R$ 10 bilhões de orçamento do BNDES Mais Inovação; de R$ 7,5 bilhões a R$ 10 bilhões para o socorro de empresas aéreas; e R$ 21,2 bilhões do Move Brasil.

O avanço no crédito incentivado acende o alerta de economistas que cobram maior equilíbrio nas contas públicas e maior coordenação entre as políticas de gastos do governo e a de juros, a cargo do Banco Central.

– O problema são os sinais. Não há sintonia entre as políticas – disse Alessandra Ribeiro, diretora de Macroeconomia da Tendências Consultoria.

O resultado acaba sendo um aperto maior na política de juros para segurar a inflação.

– Tem sido crescente a busca de atalhos para ampliar os estímulos e manter a economia aquecida, principalmente pelo canal de crédito – disse Gabriel Leal de Barros, economista-chefe da gestora ARX Investimentos.