Impactos do acordo EUA-Irã no dólar, mas clima segue incerto – BandNews TV
- Na Mídia
- 22/04/2026
- Tendências
Confira a participação de Rafael Cortez, sócio e cientista político da Tendências, na edição de 16 de abril de 2026 do programa Economia Pra Você, com Juliana Rosa, da BandNews TV
O alívio recente com o acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã pode ser visto nos preços. O dólar no Brasil caiu abaixo de R$ 5, o menor valor em mais de 2 anos. A Bolsa de Valores tem renovado recordes e o petróleo tem se mantido abaixo dos US$ 100. Entretanto, o clima ainda é de muita incerteza, à espera de nova rodada de negociações.
Estados Unidos e o Irã estão mais propensos a entrarem em um acordo. Ao ser questionado sobre qual a chance desse acordo sair logo, a partir de uma visão de que Trump, principalmente, parece querer acelerar esse processo, Cortez responde que é menor do que está sendo embutido nos preços nesse momento.
Ele explica que Trump e outros líderes têm uma retórica da proximidade desse acordo, mas ele só deve se concretizar se os Estados Unidos aceitarem perder no curto prazo. Quando olhamos o começo desse conflito e quais eram os objetivos que levaram os Estados Unidos e, em alguma medida, Israel a fazer esse confronto direto com o Irã, vimos que esses objetivos não se consolidaram, seja a queda do regime iraniano, seja alguma mudança muito diferente em relação ao programa nuclear.
Cortez reforça que os Estados Unidos precisam aceitar uma derrota no curto prazo para evitar um prejuízo no futuro, principalmente do ponto de vista eleitoral, lembrando que Trump e o Partido Republicano disputam maioria nas eleições legislativas no final deste ano.
Se eventualmente os republicanos perderem essa maioria, a situação política dele pode se complicar. Então, de acordo com Cortez, ele aceitaria um pouco esse acordo para evitar um mal maior do ponto de vista econômico. Mas ainda assim é uma engenharia política muito complexa, porque, na verdade, é um conflito que não é de agora, mas, sim, talvez um dos mais seculares e dos mais importantes na radiografia política do Oriente Médio.
Por que é difícil o fim do conflito?
Para Cortez, essa relação entre Estados Unidos e Israel é talvez a chave para entendermos o tempo que esse eventual acordo vai ser construído e quais as bases dele. Porque se estivermos assumindo alguma simplificação, esse conflito parece ser mais um conflito israelense do que americano, porque está no bojo do ataque que o Hamas faz em 2023. Isso dá uma percepção de insegurança grande em Israel. E aí a resposta é cada vez mais forte do ponto de vista militar. Então, para Israel, ainda dá para entender o que está em jogo.
Cortez explica que os Estados Unidos entraram um pouco nesse conflito imaginando que poderiam repetir a estratégia que fizeram na Venezuela de uma mudança de regime. Então, talvez eles tenham menosprezado a complexidade política não só do Irã, mas de toda a região.
O fato é que esse acordo vai acontecer de alguma maneira, mas em bases muito fracas. Cortez acredita que até faz sentido, também, do ponto de vista iraniano, que tem desafios de reconstrução econômica que já eram grandes. O Irã passa por dificuldades econômicas cada vez maiores. Em alguma medida, vai ficando muito custoso, explica Cortez. O acordo faz sentido também pro próprio Estados Unidos, mas se ele sair, as bases ainda vão ser muito frágeis. Então, ainda há alguma zona de incerteza para esse futuro próximo, mesmo que aconteça o acordo.
Cortez diz que, de todo modo, haverá a tendência de uma certa euforia, pois os mercados estão bastante preocupados com esse efeito. E, pensando no Brasil, esse conflito basicamente gerou um debate sobre a possibilidade de não dar para diminuir tanto os juros como se esperava. Então temos que pensar uma economia brasileira com um patamar de juros provavelmente maior do que teríamos antes do conflito.
Sobre a importância do fechamento e da reabertura do Estreito de Ormuz, que é o canal para gerar consequências econômicas pro restante do mundo, Cortez explica que, como o Irã tem muita desconfiança em relação aos comportamentos de Israel e dos Estados Unidos, eles não irão abrir mão fácil desse controle, inclusive até para ajudar na reconstrução econômica.
Cortez diz que é em torno dos seguintes temas que deve sair um potencial acordo que estão tentando negociar. a relação entre Israel e Estados Unidos, que é super importante; como será tratada a questão nuclear e se vai ter algum acordo que no fundo retoma o que foi lá atrás; e a reabertura ou não do Estreito de Ormuz.
Importância do Estreito de Ormuz
O mundo funcionando normalmente sem o Estreito de Ormuz não é algo que dá para imaginar. Ele é uma peça central, até porque algumas economias dependem muito da região para fornecimento energético, seja o gás natural, seja o petróleo: China, Japão, Coreia do Sul… É mais a Ásia do que os Estados Unidos. E a Europa também com alguma dependência. Então o custo logístico tem sido enorme. E é nesse sentido que o Irã adotou uma estratégia que se mostrou muito eficiente, aponta Cortez.
O país acabou quebrando um pouco a lógica de um certo equilíbrio que existia na região, na relação dos Estados Unidos com os demais países do Golfo. A grosso modo, eles dariam segurança em troca de acordos rentáveis em relação à exploração de petróleo.
Essa política é quebrada pelo Irã, porque todo mundo se mostra vulnerável. O país construiu uma estratégia que vulnerabiliza os demais países da região e, do ponto de vista econômico, conseguiu jogar esse custo para todo mundo. Além disso, também tem toda a questão política.
Todo mundo sabe que, com os preços aumentando e a inflação alta, as chances de bom desempenho Republicano nas eleições do final do ano diminuem, complicando um pouco mais essa política.
Seja como for, tanto no curtíssimo prazo quanto pensando no horizonte mais longo, Cortez diz que podemos sair desse conflito no Oriente Médio diferente do que entramos, com uma outra configuração que vai impactar de uma outra maneira os ativos ao redor do mundo e a posição do Brasil vis-à-vis a outros emergentes. E, de toda essa complicação, começa uma leitura de que o Brasil pode ter muito a ganhar nesse cenário de turbulência lá fora.
Efeitos pós guerra no Oriente Médio
Cortez vê os Estados Unidos com uma posição de menor influência no mundo. O maior poderio militar não é sinônimo de vitória em conflitos, então seria uma liderança bastante desgastada.
É muito difícil, de acordo com Cortez, imaginar a comunidade internacional confiando nos Estados Unidos, sobretudo com o Trump no poder. Então, esse poder de influência que eles tinham tende a diminuir e, do ponto de vista econômico, essa movimentação de enfraquecimento do dólar, sobretudo dos países emergentes, tende a continuar.
Cortez olha, estruturalmente, uma dimensão dos Estados Unidos mais fraca nessa influência e diz que podemos ter uma alteração mais ampla nessa ordem internacional promovida por quem a criou.
Essa é uma ordem criada fundamentalmente pelos Estados Unidos no pós-Segunda Guerra. Uma espécie de Pax Americana, explica Cortez. E foram eles, sobretudo no governo republicano, que inverteram essa lógica. Ele diz que deve mudar bastante a maneira como temos essa relação do mundo com a economia brasileira. E, portanto, os ganhos potenciais para o Brasil também não são só conjunturais. Tem uma chance de sairmos em uma posição muito melhor do que se imaginava para lidar com esse ambiente em transição.
Impactos no Brasil
Temos a entrada recorde de investimento estrangeiro aqui no Brasil. A Bolsa de Valores já recebeu este ano mais do que em todo o ano de 2025. Temos também um dólar abaixo de R$ 5. O juro alto é um fator que contribui para atrair estrangeiros para o país. Parece que há um otimismo, mas temos um desafio para manter esse grau de confiança que temos hoje no Brasil.
Cortez diz que, entre os países emergentes, o Brasil tem uma questão energética muito favorável, tem um distanciamento geográfico importante que também nos protege desses conflitos mais complicados, o que já é bastante positivo.
Também existe a diversidade de parceiros comerciais como poucas economias emergentes têm. A pauta de exportação e importação brasileira é razoavelmente dividida entre Estados Unidos, União Europeia, Mercosul e China.
O Brasil não é o México, que basicamente tinha toda uma relação com os Estados Unidos. Então, Cortez diz que o investidor olha isso e faz, de fato, uma aposta.
Agora, como toda aposta, como todo movimento de alguma euforia, tem algo que está oculto. E esse algo oculto é o tratamento da questão fiscal, de acordo com Cortez.
A economia brasileira opera em uma taxa de juros muito alta. E uma parte dessa explicação tem a ver com a questão fiscal. E essa questão vira quase sinônimo de política, porque é por acordos políticos que vamos dar determinado destino dela. Por hora, está encoberto, mas a tendência é que isso vá aparecendo no radar dos agentes, explica Cortez.
Cenário doméstico futuro
Há muita dúvida ainda sobre o que vai ser entregue a partir de 2027, seja com o governo atual, seja com outro candidato que consiga ser eleito.
Cortez explica que não devemos esperar de uma eleição um otimismo de que da lógica eleitoral vai sair um programa claro de como tratar o problema fiscal – gostemos ou não de qual venha a ser esse programa. Cortez imagina alguma coisa parecida com 2022, talvez menos turbulento, porque aquela conjuntura misturava dilemas econômicos com a questão democrática.
Lá atrás, em 2022, havia uma expectativa: qual seria a nova regra fiscal que viria a ser criada, dado que a emenda do teto de gastos já havia sido furada. Já havia uma ideia de que não iria “parar de pé e de que viria outra”. E aí virou uma expectativa sobre essa outra regra, que depois iríamos conhecer como o novo marco fiscal.
Cortez explica, de forma simplificada, que o novo marco fiscal era um compromisso de ter credibilidade com uma ideia de controle no gasto, com o argumento de que, por ser mais flexível em relação à emenda do teto, duraria mais no tempo. Então era uma ideia de trocar rigidez por uma duração maior no tempo. E havia também um compromisso de recuperação de carga tributária para fazer caber a nova regra.
Para 2026, Cortez acredita que não é mais uma questão de haver uma nova regra ou não. Pensando no próximo mandato, ele diz que é mais “o que nós vamos fazer com as despesas obrigatórias? Que tipo de escolha política vai ser feita pensando na dinâmica do gasto obrigatório? Vai mexer na isenção tributária? Vai mexer em alguma questão social? Vai mudar a regra do salário mínimo? Vai mudar a regra de benefício de assistência social?”
Cortez acredita que essa será a primeira tarefa de quem quer que assuma o mandato de 2027.
Se olhamos os números da economia, não iríamos imaginar que a desaprovação do governo seria alta. Ainda que haja uma tendência de esfriamento, em comparação com outros países, é um desempenho bastante positivo, sobretudo nas métricas tradicionais: mercado de trabalho e renda real. Olhando tudo isso, daria para dizer que o governo Lula deveria estar melhor, sim.
Mas por que não está? Cortez diz que existem duas questões: uma mais política, com a perna econômica parecendo ser que esse ganho de renda, que veio por várias políticas, não está se transformando numa percepção de bem-estar ou de segurança econômica.
Quando olhamos as pesquisas, as pessoas respondem em sua maioria que percebem a economia indo mal. Essa é um pouco a sensação. Tem um diagnóstico de que tem alguma coisa a ver com o endividamento. E Cortez acredita que, muito possivelmente, o governo vai tomar mais uma ação legislativa nessa direção.
A segunda questão é que vivemos em uma sociedade muito polarizada e o presidente Lula tem uma rejeição muito alta, difícil de derrubar.
Seja como for, mesmo em ano eleitoral, Cortez diz que teremos uma atividade legislativa ainda, pelo menos no primeiro semestre, muito impactante para a economia. Podem vir medidas para combater os efeitos da guerra, podem vir medidas relativas a crédito e eventualmente ao fim da escala 6×1, que também é um tema que está ganhando força no Congresso.
A gente pode ter uma economia brasileira em 2027 condicionada por algumas mudanças bem importantes mas que, por hora, o mercado não está olhando para isso porque está muito eufórico e enxergando problemas no mundo piores do que os nossos problemas locais.
Confira a entrevista na íntegra no vídeo abaixo!