Os efeitos da cena política e econômica paulista para o âmbito nacional

Os efeitos da cena política e econômica paulista para o âmbito nacional

Por Alessandra Ribeiro e Rafael Cortez*

A cena política paulista é provavelmente a variável mais importante para definir os rumos políticos do país no médio e longo prazo. A conexão entre os desdobramentos das eleições no maior colégio eleitoral do país é histórica e data da construção da polarização política, seja na versão PT versus PSDB ou na disputa entre lulismo e bolsonarismo. Essa corrida eleitoral já começa com a disputa para a prefeitura de São Paulo em 2024 diante da evidente nacionalização da campanha levada a cabo pelo PT, via apoio à candidatura de Guilherme Boulos, seja nos movimentos da direita, expresso na disputa de quem herdaria a força política do grupo do ex-presidente Bolsonaro. A reeleição do prefeito Ricardo Nunes recebeu apoio de nomes importantes do bolsonarismo. 

A importância da cena paulista nos desdobramentos para o país aparece na discussão de quem será a alternativa à provável reeleição do presidente Lula. Os desdobramentos políticos envolvendo o ex-presidente Bolsonaro deixaram um vácuo na direita, que precisa encontrar um nome para liderar a candidatura alternativa. As disputas mais recentes apontam para um elemento geográfico no jogo político nacional. Não por um acaso, os governadores dos estados do centro-sul formaram um consórcio para dar voz aos interesses da região. Esse fórum sinaliza espaço para a competição entre os candidatos a rivalizar com o PT em 2026.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é um dos nomes mais cotados para assumir esse posto. O desempenho de Tarcísio será percebido como laboratório não apenas de nome, mas de projeto político a ser apresentado como oposição ao petismo.

A tendência é que o projeto econômico em São Paulo seja construído com forte diálogo com o setor privado, especialmente diante da oposição crescente de alguns setores à política econômica do presidente Lula. A tendência é que a contraposição entre movimento mais ancorado na ação do setor público e movimento voltado à cooperação com o setor privado ganhe relevância. A disposição do governador em seguir com a privatização da Sabesp deve dar destaque a essa discussão.

Aqui, a cena econômica entra em campo. Qualquer ambição eleitoral dos nomes de oposição para a competição nacional precisa de um desempenho positivo na economia e no mercado de trabalho.

A economia paulista, segundo nossas estimativas, deve ter registrado crescimento de 2,1% em 2023 ante 2,9% da economia nacional, sentindo os efeitos, em especial sobre a indústria e construção civil, de ambiente de juros elevados e queda de investimentos. A agropecuária teve contribuição favorável ao crescimento, com expansão na casa de 8%, ainda que não tão forte quanto no âmbito nacional, dado o menor peso de culturas como soja e milho no estado, diferentemente de outras regiões do país.

Para 2024 e 2025, a expectativa é de um comportamento mais favorável para esses segmentos que acabaram limitando a performance da economia paulista em 2023. O ambiente de queda de juros com a expectativa de maior reativação do mercado de crédito, com redução gradual da inadimplência das pessoas jurídicas, estabelece condições mais virtuosas para a expansão da indústria, com destaque para veículos e metalurgia e construção civil. A produção industrial do estado deve mostrar expansão de 2,4% em 2024 e 2,5% em 2025, após retração estimada de 1,6% em 2023.

O cenário para construção civil também deve ser positivamente afetado pelo andamento do programa de infraestrutura no âmbito nacional e estadual, possibilitando reação dos investimentos, após a queda em 2023. Nesse sentido, o andamento da agenda de privatização no estado, com destaque para a Sabesp, deve ter efeitos favoráveis para os investimentos no estado ao longo dos próximos anos, dadas as metas ambiciosas de universalização de saneamento básico. 

Em suma, a economia paulista deve fornecer fundamentos para potencial competição acirrada no âmbito nacional.

*Alessandra Ribeiro é mestre em Economia e Finanças pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e graduada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atualmente, é Diretora da área de Macroeconomia e Análise Setorial na Tendências Consultoria. Rafael Cortez é sócio e cientista político da Tendências, é Doutor e Mestre em Ciência Política pela USP. Responsável pela análise de risco político. É professor do Mestrado em Direito, Justiça e Desenvolvimento do IDP-SP e professor da Escola de Administração de Empresas da FGV (EAESP).

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