Petróleo acima de US$ 100 tem potencial de adicionar 1 ponto no IPCA e reduzir o corte nos juros – Estadão
- Na Mídia
- 10/03/2026
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Preço da commodity chegou a bater US$ 120, mas recuou para abaixo de US$ 90; especialistas temem contaminação da inflação e da decisão do BC sobre a taxa Selic
Apesar da queda do preço do petróleo no fim desta tarde, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dizer que a guerra com o Irã está “praticamente concluída”, economistas temem os efeitos da volatilidade da commodity nas projeções de inflação do Brasil. A cotação chegou a bater US$ 120 nesta segunda-feira, 9, mas recuou para abaixo de US$ 90 o barril.
Nesse patamar, a disparada do preço tem potencial para acrescentar quase um ponto porcentual no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), projetado pelo último Boletim Focus do Banco Central (BC) em 3,91%.
Também levanta dúvidas se o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC irá começar a cortar os juros a partir da próxima reunião, marcada para o dia 18 de março, conforme sinalização em comunicado do último encontro do colegiado.
Por enquanto, a maioria dos economistas ouvidos pelo Estadão considera que o cenário mais provável é que Copom seja mais cauteloso no tamanho do corte, em meio ao quadro de conflito no Oriente Médio. Isto é, no lugar de iniciar o ciclo de redução de juros básicos, hoje em 15% ao ano, com um corte de 0,50 porcentual, projetado por boa parte do mercado até então, o BC opte por uma redução mais modesta, de 0,25 ponto porcentual.
No entanto, há especialistas que não descartam a possibilidade de um adiamento do início do ciclo de corte da taxa de juros, caso o conflito se acirre e seja prolongado.
Por outro lado, o bom comportamento da taxa de câmbio em meio ao conflito e a política moderada de reajuste de preços dos combustíveis por parte da Petrobras podem atenuar o impacto potencial da alta do petróleo nos preços dos combustíveis e na inflação em geral, projetado inicialmente em quase um ponto porcentual.
“O barril de petróleo rompendo o patamar de US$ 100, deverá ser um limitador para o corte dos juros, mas não acredito que o Banco Central deixe de cortar”, afirma a economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, Marcela Kawauti, fazendo menção à reunião do Copom da próxima semana.
Segundo a economista, o colegiado deve começar com uma redução de 0,25 ponto porcentual. No entanto, por conta do ritmo mais lento no ciclo de corte, ela acredita que os juros não irão chegar ao fim do ano no nível projetado pelo mercado de 12%, segundo o Boletim Focus do BC.
Se a guerra continuar, a inflação pode ir a 4,5%, a 5% neste ano, diz a economista, o que limita de forma importante o corte de juros, mesmo que a alta de preço do petróleo ocorra por causa de um choque temporário na oferta.
Claudia Moreno, economista do C6 Bank, observa que os preços futuros do petróleo estão em queda, apesar de a cotação do barril ter explodido com o conflito. “No (mercado) spot o petróleo está a US$ 100, mas esse preço cai rapidamente até o final do ano”, diz ela.
Esse é um indicativo de que o preço do petróleo não irá permanecer nesse patamar por muito tempo. “Isso é relevante porque provavelmente não haverá esse repasse total do petróleo a US$ 100.”
De toda forma, nas suas contas, o estrago matematicamente calculado do barril a US$ 100 na inflação – sem considerar a trajetória de queda dos preços futuros – seria de 0,80 ponto porcentual.
Além dos preços futuros do petróleo em queda, ela acrescenta a política moderada de repasse da Petrobras que pode atenuar o impacto na inflação.
Na semana passada a presidente da empresa, Magda Chambriard, disse que há muita volatilidade nos preços. Por ora, a economista do C6 acredita que o Copom opte por iniciar o ciclo de corte de juros com uma redução de 0,25 ponto porcentual.
“Cresceram as chances de o BC ser mais cauteloso nesse início de corte, começando com uma redução de 0,25 ponto porcentual na taxa de juros”, afirma o economista e sócio da Consultoria Tendências, Silvio Campos Neto.
Por enquanto, ele considera essa possibilidade, mas não alterou o cenário traçado pela consultoria de que o ciclo de corte começaria com uma redução de 0,50 ponto porcentual. Mas se o petróleo ficar acima de US$ 100 o barril, é bem provável que a consultoria reduza a projeção de corte para 0,25, diz.
Câmbio
Além da política de repasses a ser adotada pela Petrobras – de quanto e quando irá transferir a alta do petróleo para os preços dos combustíveis –, um ponto que pode ajudar o Banco Central a decidir qual será o tamanho do corte na taxa básica de juros, na opinião de Campos Neto, é a taxa de câmbio.
“Até que o câmbio está se comportando bem nesse contexto, talvez porque o Brasil hoje seja um grande produtor e exportador de petróleo”, diz. De toda forma, o economista ressalta que o atual patamar do barril de petróleo traz um efeito inflacionário importante.
Flávio Serrano, economista-chefe do Bmg, também aponta o câmbio como um fator de moderação da inflação no momento atual. O câmbio favorável contribui na dinâmica dos preços dos alimentos, dos bens industriais e até mesmo de alguns reajustes de preços administrados, como a energia elétrica. “O câmbio bem-comportado serve como um contraponto (ao preço do petróleo).”
Diferencial da gasolina e do diesel
O economista-chefe do Bmg observa que o diferencial de preços da gasolina e do diesel no mercado externo em relação ao interno é gigantesco. Varia entre 45% e 50% no caso da gasolina e entre 80% e 85%, no caso do diesel.
Se um reajuste dessa magnitude for repassado sem atenuantes, o impacto potencial na inflação seria de quase um ponto porcentual, calcula Serrano.
Mas o economista pondera que, a depender dos efeitos do câmbio, de como a Petrobras fará o repasse e da duração do conflito, o estrago na inflação pode ser menor, 0,40 ponto porcentual. Com isso a inflação, projetada pelo mercado para este ano em 3,91%, subiria para 4,31%.
Serrano diz que o BC não está preocupado no momento se o impacto da alta do petróleo será de 0,40 ou um ponto porcentual no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), mas com impulso que pode provocar na inflação de serviços e de outros bens.
Mesmo com toda a volatilidade do cenário, Serrano acredita que o BC vá iniciar o ciclo de alívio nos juros, porém com um corte menor, de 0,25 ponto porcentual. “Havia elementos fortes o suficiente para que o BC cortasse 0,50 ponto porcentual os juros, mas isso, de alguma maneira, se dissipou parcialmente”, diz o economista. Por enquanto, ele prefere manter a projeção de redução de 0,50.
Adiamento do corte dos juros
“Aumentou bastante a chance de a Selic se manter em 15% na semana que vem”, afirma o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. Ele diz que a tendência é de o preço do petróleo seguir pressionado por mais tempo.
Por isso, o quadro atual é muito difícil para que o Banco Central opte pelo corte nos juros, na avaliação de Vale. “A melhor estratégia para o BC seria esperar para ver, o que significa não diminuir a taxa por enquanto.”
André Braz, coordenador de índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), também acredita que a volatilidade dos preços deve durar mais tempo, o que pode levar a um adiamento do início do ciclo de corte da taxa de juros, inicialmente sinalizado para este mês.
“Sempre que existe uma guerra entre potências desse naipe, com grande capacidade destrutiva e sem um acordo à vista, é provável que demore um pouco mais de tempo e gradualmente vá contaminando cadeias globais de produção.”
Com isso, a alta da inflação pode ficar mais persistente. Braz observa que o número de itens derivados do petróleo nos índices de preços não é pequeno, envolve adubos, defensivos, fertilizantes, produtos da indústria petroquímica, toda a cadeia de plásticos em geral, mais os combustíveis, o diesel, a gasolina, querosene para aviação e gás de cozinha (GLP).
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