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Tensão em Ormuz eleva preço do petróleo – Times Brasil

Em entrevista ao Jornal Times Brasil, Silvio Campos Neto, sócio e economista da Tendências Consultoria, analisa como a tensão em Ormuz impacta o mercado internacional e contribui para a elevação do preço do petróleo, destacando riscos, cenários e reflexos para a economia global e brasileira

Sobre os aumentos das tensões no Estreito de Ormuz e se isso pode preceder uma pressão para se chegar a uma solução no curto prazo, Campos Neto acredita que é um tema muito difícil, mas o que dá para dizer é que realmente os custos desse evento estão cada vez maiores, não afetando apenas os lados envolvidos diretamente – Estados Unidos e Irã –,mas todo o restante do mundo.

Isso naturalmente cria um incentivo para que essas partes avancem em uma negociação, mas não é fácil, uma vez que os envolvidos são muito delicados, como a questão do programa nuclear iraniano, por exemplo.

Olhando do lado norte-americano, Campos Neto explica que o governo Trump está sob muita pressão de perda de popularidade, com todos os impactos internos que têm sido registrados – a alta da gasolina em particular. E tudo isso em um ano importante por lá, com as eleições de meio de mandato.

O que se imagina, de acordo com Campos Neto, é que esse contexto de impactos bastante severos dessa guerra favoreça um acordo, mas não é algo que se espere para um curtíssimo prazo.

Inflação no Brasil

Campos Neto explica que as expectativas da inflação já vêm incorporando esse cenário de petróleo pressionado por um período um pouco mais prolongado do que se imaginava. É claro que ainda há uma perspectiva de alguma volta, mesmo que parcial, desses preços, porque antes do conflito este era um mercado, em termos de fundamentos, que era sobreofertado, ou seja, a realidade é que estava sobrando petróleo no mundo, por isso que os preços estavam baixos.

Então, o que se imagina, de acordo com Campos Neto, é que, com a superação desse conflito ao longo dos próximos meses, isso traga os preços para patamares, se não os mesmos que tínhamos antes, para níveis mais baixos do que temos atualmente.

Claro que, enquanto isso não acontece, as expectativas de inflação vão subindo e os índices de preços que vão sendo divulgados apontam um quadro preocupante. O resultado disso é que os Bancos Centrais fazem alertas muito importantes de risco de aumento de juros. E aqui, como estamos numa ponta contrária com a redução da Selic, o risco, obviamente, é que o Banco Central tenha que afrouxar mais devagar, como já estamos vendo, e eventualmente parar um pouco antes, pelo menos até que essa situação fique mais clara.

Dólar

Campos Neto diz que a perspectiva de curto prazo é que ele fique rondando em patamares na casa dos R$ 5, porque há fatores que justificam esse comportamento. Apesar do conflito, temos um cenário ainda de um dólar relativamente fragilizado no mundo todo, muito em virtude também das incertezas e dos ruídos gerados pelo governo Trump.

Temos também um diferencial de juros ainda muito alto, que estimula o ingresso de capitais, as commodities valorizadas e o petróleo como principal destaque. O Brasil acabou, pelo menos por esse canal, se beneficiando, pois é, hoje, um exportador líquido. E tem todo um movimento de investidores globais buscando diversificação de carteiras. O Brasil tem sido visto como uma alternativa para parte desses recursos.

Campos Neto aponta que, conforme o segundo semestre for avançando e temas internos voltarem ao foco juntamente com o cenário eleitoral, há sem dúvida o risco de alguma volatilidade. E, a depender do desfecho desse processo e das sinalizações do governo eleito, principalmente na parte fiscal – se não indicar algumas medidas prioritárias de ajuste das contas públicas, por exemplo – nós podemos ter, na parte final do ano, um período de alguma pressão novamente na taxa de câmbio.

Crescimento global

Muito se fala também do impacto de tudo isso no crescimento global. Campos Neto diz que o ano não está comprometido. Apesar de tudo, as economias têm demonstrado alguma resiliência. Agora, é fato que é um ambiente que gera muita incerteza, postergação de decisões de investimentos, em particular. Os juros de mercado no mundo todo já estão mais altos. Vimos, por exemplo, as taxas dos treasuries norte-americanos alcançando novamente patamares cada vez mais elevados.

Tudo isso corrobora um cenário de um certo esfriamento da atividade global, mas Campos Neto diz que é prematuro falar sobre um quadro recessivo, porque vai depender muito da duração desse conflito e também, consequentemente, do tempo no qual veremos esse petróleo acima de US$ 100. As economias estão, sim, em risco, mas por hora ainda demonstrando alguns sinais de resiliência.

Ibovespa

Sobre os 200.000 pontos do Ibovespa no mês de maio, que pareciam estar tão próximos, Campos Neto diz que depende mais uma vez de um grande fluxo de ingresso de capitais estrangeiros, algo que nós vimos na primeira quinzena de abril.

Campos Neto acredita que seja um movimento bem natural de realização de lucros, depois de um período muito forte de alta, de valorização mais do que se imaginava naturalmente. Até dá para se antever alguma recuperação ao longo das próximas semanas. Agora, o alcance dos 200.000 ou não no curtíssimo prazo é um ponto de dúvida, porque dependeria mais uma vez de um grande influxo de capitais externos, o que nesse momento parece que, pelo menos por hora, seja um ponto ainda de incerteza.

Confira a entrevista na íntegra no vídeo abaixo!