IPCA-15 desacelera e fica em 0,06% e surpreende mercado – BandNews
- Na Mídia
- 29/07/2026
- Tendências
Em entrevista à BandNews, Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de Macroeconomia da Tendências Consultoria, comenta a desaceleração do IPCA-15, que registrou alta de 0,06% em julho, resultado abaixo das expectativas do mercado
A prévia da inflação, o IPCA-15, ficou abaixo do esperado pelo mercado, com alta de 0,6% em julho, puxada pelo aumento do custo da energia elétrica, que subiu 3,03%, segundo o IBGE. O grupo Habitação registrou avanço de 0,97% no mês. Já Saúde e Cuidados Pessoais cresceram 0,28% e Transportes subiu 0,11%, impactado pelo aumento de 11,70% nos preços das passagens aéreas.
O grupo de Alimentação e Bebidas, que foi um dos principais motores de alta do IPCA-15 no mês passado, registrou queda de 0,66% em julho. Entre os destaques estão a redução do preço do tomate, da batata inglesa e do café moído. Por outro lado, entre as altas, o destaque fica com a cebola e o pão francês.
Ao ser questionada sobre essa variação e se estava dentro das previsões da Tendências, Alessandra explica que essa variação, na verdade, ficou menor do que as estimativas deles e também em relação ao que o mercado projetava.
A Tendências projetava uma inflação de 0,21% para esse IPCA-15 de julho, então ele veio bem mais baixo e as surpresas ficaram principalmente concentradas na parte de alimentação, como dito acima.
Entretanto, ela reforça que isso é um resultado pontual. É uma notícia positiva, mas há elementos que ainda exigem cautela, principalmente do ponto de vista do Banco Central brasileiro.
Se olharmos a inflação de Serviços, por exemplo, ela ainda permanece elevada. Tivemos uma pressão especificamente em passagem aérea, mas o fato é que, mesmo excluindo passagem aérea, é visto um nível de inflação de Serviços ainda bastante alto.
Confiança do consumidor
Alessandra diz que é difícil dizer ainda se esse novo IPCA-15 trouxe algo de novo sobre a confiança do consumidor, porque foi um resultado mais pontual. Tem esse peso muito grande de alimentos, que de fato faz diferença na cesta do consumidor, então ajuda, mas a questão é que, mesmo que possa momentaneamente afetar a confiança do consumidor.
A Tendências está olhando um pouco a dinâmica para frente e ainda existem alguns elementos de risco, Inclusive em relação aos próprios alimentos: questão de oferta, a materialização do El Niño, que tem a probabilidade de ser um bem mais forte, afetando já preços de alimentos no quarto trimestre deste ano de maneira mais expressiva.
Existe também a própria questão dos combustíveis. Vimos preços de transportes de forma geral mais contidos, captando a queda do petróleo de algumas semanas atrás, mas também vemos o conflito no Oriente Médio voltando a ganhar força e preço do petróleo indo para cima, o que impõe risco para combustíveis também.
Então, ainda que o IPCA-15 possa ter algum efeito pontual na confiança do consumidor, a questão é que existem elementos aqui que preocupam e não permitem a gente avaliar que vem uma melhora mais consistente da confiança do consumidor.
Impactos do conflito no Oriente Médio
Alessandra pontua que tivemos alguns sinais de diplomacia, mas agora já voltamos a ver ataques do Irã a pontos estratégicos norte-americanos, inclusive na Jordânia. A tensão continua e o problema é que, quanto mais ela continuar, o mercado de petróleo ficará muito suscetível a solavancos expressivos, porque, no começo do conflito, tínhamos estoques de petróleo e refinados altos que ajudavam a conter a alta dos preços, mas esses estoques estão caindo. Então, quanto mais dura o conflito, maior o risco de alta expressiva para preços de combustíveis.
Juntando a questão geopolítica, preço de combustíveis – aqui especificamente para alimentos, a questão do El Niño, que tem uma probabilidade de ocorrência de maneira importante –, vemos pressões ganhando força ao longo dos próximos meses, especialmente no final do ano.
A estratégia do governo é a de tentar aumentar a mistura de etanol na gasolina e aumentar a mistura de biodiesel no diesel tradicional, o que pode reduzir o custo do agronegócio. Aumentando o etanol na gasolina quer dizer aumentar a produção de etanol, o que pode também mexer no preço do açúcar.
Ao ser questionada como o mercado vê essa estratégia, Alessandra explica que esse é um tipo de sinalização, de alteração pensando nos combustíveis, que faz todo sentido, porque o Brasil tem uma produção importante de etanol e de biocombustíveis.
Claro que o mercado se regula. Então, de um lado, se tem uma alocação maior para combustível, podemos ter um efeito para açúcar, por exemplo. Esse tipo de movimentação acontece, mas Alessandra acredita que o Brasil tem mostrado ganhos de produtividade muito importantes nesses segmentos;
Alessandra explica que é muito difícil falarmos que, por causa dessa mistura, podemos ter uma pressão muito mais significativa em açúcar – pensando no setor de Alimentos –, justamente porque do outro lado existe tecnologia e investimentos importantes que acabam melhorando a produtividade e suavizando esse tipo de efeito. Essa direção, para a economia brasileira, faz todo sentido.
Efeitos do El Niño
Alessandra explica que, de acordo com as estatísticas e tudo o que vem sendo publicado pelos institutos especializados, existe uma probabilidade de uma ocorrência forte do El Niño pegando a economia principalmente a partir do final deste ano, além de, pensando em toda a parte agro, com efeitos também para 2027.
De forma geral, Alessandra diz que um caminho seria o governo ajudar os produtores a ter principalmente condições de financiamento mais favoráveis para lidar com essa situação, porque, no fundo, isso afeta a produção de maneira negativa e esses produtores, principalmente em 2027, devem sentir um efeito mais pronunciado em termos de redução de produção.
Alessandra pontua que, mesmo com todos os preparos, é uma questão muito climática, então é difícil também os produtores se anteverem aos impactos do El Niño. Para ela, é muito mais sobre lidar com a questão financeira e como passar por essa fase de uma maneira um pouco mais suave.
FGTS
O Conselho Curador do FGTS autorizou o pagamento de R$ 13 bilhões do lucro do FGTS na conta dos trabalhadores, com cerca de 138 milhões de pessoas recebendo uma parte do lucro do FGTS, algo que dar um fôlego também na economia.
Para Alessandra, essas medidas, que vêm sendo anunciadas desde meados do ano passado e intensificadas neste ano, têm muito desse propósito de ajudar a sustentar a demanda, o consumo das famílias e afetar a popularidade do presidente.
E esse pagamento de recursos tendo origem no FGTS certamente tem efeito para consumo. A questão, de acordo com Alessandra, é o que tem se observado – inclusive nos últimos meses, com outros programas: nem tudo tem se revertido em consumo. Vemos que a economia está desacelerando. Isso ajuda a segurar essa desaceleração, mas não evita.
E por que nem tudo está sendo revertido em consumo? Porque as famílias, do outro lado, estão muito endividadas, com comprometimento de renda muito grande com o pagamento do crédito. Então, uma parte desses recursos pode ser utilizada para fazer frente a essas dívidas, mas não é que tudo é revertido em consumo, por causa dessa situação que já observamos há um bom tempo. Não é à toa que o governo discute muito a questão do Desenrola Brasil – até prorrogando um pouco o prazo do programa.
Confira a entrevista na íntegra no vídeo abaixo!