Rafael Cortez analisa como crise institucional pode impactar eleições e economia – BandNews
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- 26/09/2026
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Em entrevista ao Jornal da Band – Economia Pra Você, Rafael Cortez, sócio e economista da Tendências Consultoria, analisa como uma possível crise institucional pode impactar as eleições e a economia brasileira
Há poucos dias das eleições, no lugar de propostas para que o Brasil cresça mais e de forma sustentada, reduza a enorme desigualdade e melhore a renda média mensal de pouco mais de R$ 2.000, a sociedade acompanha o agravamento de denúncias e a crise institucional.
Ambiente político hoje no Brasil
Cortez diz que não tem como menosprezar essa leitura de que nós vivemos um momento tenso e delicado do ponto de vista institucional e que seria natural recorrermos e retomarmos o que a Constituição de 88 nos deixou.
Ele explica que a Constituição de 88 basicamente fez o seguinte movimento: fortaleceu o Poder Executivo. Naquela conjuntura, havia uma leitura de que precisávamos reforçar os poderes de governabilidade do presidente. Além disso, o Judiciário também se fortaleceu. Então, o Supremo Tribunal Federal da Constituição de 88 é muito forte.
Cortez diz que quem relativamente perdeu naquele momento foi o Poder Legislativo. Em boa medida, o presidencialismo de coalizão é esse sistema: o protagonista é o chefe do Executivo e há uma forte organização que controla a constitucionalidade, que é o Supremo.
Aos poucos, esse equilíbrio foi se alterando e, talvez, se tivéssemos que começar a apontar a origem disso, seria o segundo mandato da Dilma. Paulatinamente, houve um desgaste institucional. E, assim, chegamos a 2026 com uma combinação de Executivo muito fraco, Supremo Tribunal Federal em cenário de quase uma divisão interna, quase uma guerra civil entre os ministros, e um Legislativo muito forte, porém pouco responsivo.
Isso aparece, por exemplo, na questão orçamentária das emendas individuais, daquilo que ficou conhecido como o orçamento secreto.
O Legislativo foi atrás do seu espaço no orçamento público, mas é muito difícil controlar, porque o Poder Legislativo não é esse poder. Ele é muito mais representante de toda essa diversidade do que um poder com a capacidade de coordenar políticas públicas, incluindo a coordenação do orçamento público, explica Cortez.
O resultado desse desenho institucional e das escolhas políticas — e aí tem muito a ver com polarização, tem a ver com essa economia política do gasto público — é que não conseguimos produzir um orçamento público no azul. Então, as contas públicas estão sofrendo a partir dessa conjunção entre regras do jogo e escolhas políticas.
Com a Lava Jato, tivemos o Poder Judiciário, não só o Supremo Tribunal Federal, com um poder exacerbado, com uma disposição exacerbada de ser o corretivo do mundo da política.
A ideia é que as instituições judiciais teriam essa capacidade de corrigir, de recuperar um sistema representativo falido. Isso é muito ambicioso, não é pouca coisa.
E o que vamos vendo é que, em geral, essas entradas do Poder Judiciário com essa tarefa, digamos, de reorganizar a política, acabam gerando, na verdade, o efeito contrário daquilo que se espera.
Cortez diz que não é por acaso que tivemos lá atrás a Lava Jato, neste início desse processo de deterioração institucional, e agora a gente temos o caso Master. Temos também uma perda de legitimidade do Supremo Tribunal Federal, que se achou o poder moderador da nação, ou seja, uma organização que vai pairar acima dos conflitos.
Só que temos aprendido cada vez mais que uma boa parte dos ministros está, de alguma maneira, envolvida em práticas pelo menos antiéticas. E aí, a credibilidade vai lá embaixo, deixando o problema institucional não só entre Executivo e Legislativo, como tradicionalmente pensávamos, mas trazendo o Supremo Tribunal Federal e o sistema de Justiça como um todo para esse dilema institucional que vai bater à porta do próximo presidente.
Então, Quem é essa figura que controla o controlador?
Cortez explica que é uma manobra muito delicada, porque tem uma relação de poderes formais e informais que dificulta esse efetivo controle entre os Três Poderes. Para ele, o desafio é fazer, de fato, uma revisão, uma mudança institucional para que o Supremo tenha mecanismos de se autocontrolar, porque o que estamos vendo, no fundo, é que os ministros do Supremo Tribunal Federal não conseguiram construir procedimentos sobre o que acontece quando alguém precisa ser investigado.
Cortez diz que precisamos tratar de uma reforma mais ampla do Judiciário para trazer um pouco mais de prestação de contas dos ministros, que ganharam um protagonismo muito grande. Não seria só um código de ética, mas uma reforma institucional mais ampla.
Para Cortez, é pouco provável, no curtíssimo prazo — entendendo curtíssimo prazo como até o final do ano —, que tenhamos um destravamento dessa situação. Seria mesmo uma tarefa para o próximo mandato.
Cortez diz que não podemos ter uma certa inocência, quase de imaginar que o processo eleitoral é o espaço, digamos assim, para a política racional ou para uma discussão acadêmica.
A democracia é o governo da maioria, não é o governo dos melhores, o governo tecnocrata. Não é, também, uma competição entre quem apresenta as melhores propostas, mas, para Cortez, a conjuntura de 2026 é tão particular que, na verdade, não conseguimos nem ter espaço para uma espécie de políticas voluntaristas. Cortez diz que vemos um vazio de políticas, mesmo aquelas voluntaristas, como promessas de campanha irrealizável. Nem isso está acontecendo.
O que preocupa Cortez, do ponto de vista do legado da eleição para o próximo mandato, para além de quem vai ganhar ou não, é que essa falta de uma discussão minimamente mais concreta vai afetar o próximo mandato.
Porque, se tivéssemos pelo menos algo como “Olha, a gente precisa ver as contas públicas. Como é que nós vamos resolver o problema das contas públicas?”, isso fica muito menor diante do volume de agenda negativa que vem do Supremo, que vem do caso Master, que vem dessa comparação das biografias de Lula e Flávio Bolsonaro, entre outros nomes.
Isso vai deixando um vácuo muito grande e talvez afete a própria agenda do próximo presidente e que ele não tenha, digamos assim, bons sinais daquilo que vai ser fundamental.
E o que Cortez acredita ser mais particular, olhando para a economia, é que temos um dilema macroeconômico a ser resolvido, mas também temos um quadro de endividamento das famílias muito complicado, num cenário em que a economia brasileira até demonstra bons indicadores.
O mercado de trabalho vai muito bem, por exemplo. Agora, imagina uma hora em que o mercado de trabalho piore e a taxa de juros vai ficando mais alta. Aí você tem esse acúmulo de dívidas passadas, que pode efetivamente trazer complicações para o bem-estar das pessoas e, obviamente, para o sistema econômico como um todo.
Ambiente empresarial
Para Cortez, o ambiente empresarial tem sido bastante afetado por essa insegurança em relação a 2027, porque, de alguma maneira, essa leitura de que o Supremo também não é confiável — e o Supremo, em tese, é o guardião da Constituição, ele evita voluntarismos — traz preocupação. A leitura é que o Supremo foi longe demais.
O receio de Cortez é que saiamos dessa eleição imaginando que esse papel de controle do Supremo é desnecessário. E, na verdade, o que vemos nessa literatura sobre quais regras do jogo ajudam ao crescimento sustentável é que uma delas é o controle do poder político. É o que evita voluntarismos.
De todo modo, o que Cortez acredita é que, se olhamos a conjuntura econômica, não é mais ela que vai definir o cenário eleitoral. O cenário eleitoral passa pela habilidade política de conseguir um diálogo com esse eleitor desgostoso, que quer mudanças. A maioria dos brasileiros diz que o Brasil está na direção errada, mas parece ainda não confiar na oposição.
Agora, para o próximo mandato, Cortez pontua que a agenda econômica precisa ganhar protagonismo novamente, porque os dilemas não serão fáceis.
Cortez diz, também, que o eleitor indeciso precisa ter alguma pista de onde ele pode se sentir mais seguro. Nós estamos falando de uma parcela pequena, na verdade, porque o grosso do eleitorado está muito polarizado, então esses campos já estão mais escolhidos, mas essa parcela, que é pequena do ponto de vista quantitativo, pode ser chave para definir quem vai ganhar ou não.
E, mais do que isso, não só pensando no curto prazo: o próximo mandato chegará com uma tarefa muito espinhosa.
Cortez explica que esses programas de crédito, se a gente imaginar assim, estão ficando cada vez mais complicados, as soluções cada vez mais heterodoxas, porque o problema é: O Desenrola foi muito suave e não tem problema nenhum que vá resolver o custo alto da dívida. Se essa taxa de juros continuar muito elevada, as pessoas irão se enrolar de novo. É uma questão de tempo.
Para Cortez, o que mostra como é delicado esse cenário é que as candidaturas estão sinalizando programas que ainda vamos precisar entender melhor, porque eles podem ser voluntaristas.
Por ora, o debate eleitoral não fez bem para a agenda econômica. A eleição de 2026 ficou mais marcada por problemas político-institucionais do que pela agenda econômica distributiva.
Polarização nas eleições
Para Cortez, essa talvez seja uma questão-chave que une o debate sobre os dilemas da democracia contemporânea e os dilemas do crescimento.
É importante chamar a atenção para a necessidade de ter um mínimo de consenso. Se não é um consenso, é pelo menos uma divergência dentro de um campo percebido como razoável, em que as forças políticas mais relevantes concordem sobre as regras básicas e concordem, ao menos, com a direção de uma agenda de reformas.
A polarização dificulta muito isso, porque ela é construída com base na exclusão do outro e isso vai dificultando que as coalizões durem um pouco mais de tempo.
Seja quem vencer, é um ambiente difícil para tocar as agendas, porque são agendas duras. Será preciso discutir, por exemplo, todo esse ajuste fiscal, obviamente, que passa pelas emendas, pelos supersalários, mas também tocar em pontos delicados, como mexer na regra de reajuste de benefícios.
Cortez reforça que será muito delicado, porque um presidente eleito deve ser eleito com uma margem muito estreita de votos, num cenário de baixo capital político, com uma imagem que já chega desgastada, porque nós estamos falando, no fundo, de uma repetição do mesmo grupo político, do mesmo duelo político entre o lulismo e o bolsonarismo, que remonta a 2018.
É por isso que são candidaturas que já chegam cansadas nesse sentido, porque têm uma rejeição acumulada do histórico. Lula tem uma imagem muito consolidada, a mesma coisa o bolsonarismo.
Num governo em que você vai precisar vender uma imagem de que essas decisões são duras, mas precisam ser tomadas, não é dos melhores caminhos começar com um capital político tão limitado e uma sociedade muito polarizada. É muito difícil “vender” a necessidade das reformas. Como é que você vai pedir para a sociedade rever a regra do salário mínimo, rever benefícios de assistência social, se você não tem essa percepção de legitimidade moral, se você não conseguiu enfrentar o problema dos supersalários, se você não conseguiu enfrentar o problema das renúncias tributárias, que representam uma parcela importante do PIB brasileiro, com taxa de retorno no mínimo questionável?
Então, não é uma agenda fácil. Cortez diz que corremos o risco de “os mais fracos pagarem a conta”, usando uma expressão informal.
Para ele, esperamos que o próximo presidente tenha um pouco mais de ambição para conseguir construir uma coalizão para além da sua coalizão eleitoral.
Interferência externa dos EUA
Cortez vê isso com muita preocupação, porque é um mundo em mudança. A ordem internacional é uma ordem diferente. Nós estamos falando de possíveis rupturas entre os Estados Unidos e a Europa. Aquela ordem que se construiu no pós-Segunda Guerra Mundial, que, bem ou mal, ajudou a gente a organizar as relações internacionais e evitou conflitos mundiais, é uma ordem que está sendo questionada, e o efeito para o Brasil é importante.
Temos um governo norte-americano, na figura de Donald Trump, que olha para a região das Américas de uma maneira que remonta ao período da Guerra Fria, como uma área de influência natural nas Américas, por conta da contraposição à China.
E Trump tem esse estilo de fazer relações internacionais que é questionável na legitimidade e na sua eficiência. E estamos falando de uma parcela da elite política que, na verdade, quer essa intervenção, essa entrada, essa influência. Então, é a polarização chegando às relações internacionais.
Tem uma ideia de que a política externa tem que ser uma política de Estado, estar olhando com outra lógica, uma lógica de duração, uma lógica de interesse nacional. Para Cortez, a nossa política externa está virando política ordinária, nesse sentido de que ela pode ser alterada ao sabor da conjuntura. Isso é uma questão complicada e já seria em condições normais.
Se pensamos nesse xadrez mundial sendo alterado da maneira como está sendo, não dá para menosprezar a questão internacional como um desses elementos para o ambiente de negócios, para a percepção de risco, para a agenda econômica… Cada vez mais, política externa e política corriqueira estão se confundindo, não necessariamente de uma maneira positiva, dada a gravidade dos temas que estão na mesa, explica Cortez.
Como melhorar esse ambiente atual
Para Cortez, o principal desafio é fazer com que não seja o governo de uma minoria que fala. Precisamos que todo mundo participe, porque a democracia, essa ideia de maioria, só existe se houver participação. E hoje, temos ferramentas para fazer essa pressão.
Quanto mais a sociedade conseguir se canalizar nesses diversos canais, não só nas mídias tradicionais, sobretudo, pelas redes sociais e conseguir, de alguma maneira, se movimentar e trazer esse constrangimento para esse tomador de decisão, tanto melhor.
Do ponto de vista individual, sempre fica aquela sensação: “Eu não vou fazer diferença sozinho”. Mas, se todo mundo pensa assim, ganha quem é um grupo de interesse formado.
Às vezes, a democracia não vira o governo da maioria, ela vira o governo da minoria que fala mais. E isso acaba distorcendo, por exemplo, a questão dos benefícios tributários.
O setor que está ganhando sabe que ganha, então ele tem todo o incentivo para mobilizar. Quem está pagando a conta, que é a sociedade como um todo, tem dificuldade de sentir os efeitos disso.
É importante que tenhamos a concepção de que talvez individualmente não faça diferença, mas, se houver participação coletiva, ela acaba tentando, pelo menos, ajudar a evitar distorções de sistemas econômicos poderosos, influenciando a política pública, porque a ideia é que a democracia traga justamente isso: o governo da maioria, para que as políticas espelhem essas vontades.
Cortez reforça que a democracia não pode ser só a seleção de governo. A elite política toma muitas decisões que interferem na nossa vida cotidiana. O Estado moderno é um Estado que interfere na gente do nascimento ao falecimento. Tem Estado para tudo quanto é lado.
Imaginar que seja simplesmente na hora do voto que a gente vai conseguir ter essas preferências parece, para Cortez, muito limitado para os deveres que a gente precisa ter com o jogo democrático. Democracia é um direito, mas é quase que também um dever, se queremos que ela se transforme em melhores políticas públicas.
Confira a entrevista completa no vídeo abaixo!