Tendências Consultoria Econômica

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Aperto antes da dívida – O Globo

Gastos essenciais superam inflação desde a pandemia

Desde a pandemia, que golpeou a economia e foi seguida de uma alta de preços, a principal despesa das famílias brasileiras, a alimentação, subiu 83,1%. O aluguel aumentou 51,1%, e os remédios e serviços de saúde, inclusive os planos, ficaram 55% mais caros. Num movimento superior à média dos preços da economia, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, de 41,8%, despesas básicas dos domicílios não deram trégua desde 2020, aponta um levantamento da Tendências Consultoria.

Com itens básicos tomando mais do orçamento, sobra menos para lazer, consumo e poupança. Qualquer dificuldade de fechar as contas fixas do mês vira a porta de entrada para o endividamento, que compromete 30% da renda das famílias, nível recorde que o governo tenta baixar com o Novo Desenrola, lançado na semana passada. Mas não é só a dívida que pesa no bolso, mesmo com alta da renda e baixo desemprego. Além de itens básicos mais caros, há mais despesas com serviços que vão aumentando as faturas de cartão de crédito (cujo rotativo tem juros anuais acima dos 400%), como aplicativos de transporte, de entregas e streaming.

Aluguel e alimentação são os principais gastos de Marcelo Cunha, técnico do Corpo de Bombeiros do Rio, de 47 anos. Viúvo, ele mora com o filho Brennor, de 8 anos, com espectro autista nível 2. A renda de R$ 2.100 mensais é praticamente toda destinada a essas duas despesas. O restante vai para a saúde do filho. Cunha chegou a dar entrada numa casa, mas não conseguiu arcar com as parcelas e perdeu o imóvel. Nos últimos meses, teve de se mudar duas vezes por causa do aumento do aluguel.

— O dinheiro nunca dá até o fim do mês. Recebo em uma mão e sai na outra. Nunca sobra um real para a gente usufruir. Infelizmente, eu já cheguei a precisar usar o cartão de crédito para pagar contas e está bloqueado por falta de pagamento — desabafa Cunha.

‘Danoninho’ fora da lista

Nos últimos meses, quando a alimentação no domicílio subiu com mais força — 70% dos alimentos tiveram alta no IPCA de março —, Cunha tirou itens do carrinho. E ainda vem contraindo dívidas para custear o tratamento do filho.

— No mercado, reduzi bastante mesmo: biscoitos, doces, danoninho do meu filho. Essas coisas que não são necessidades, tive de cortar. A única coisa que não abro mão é pagar a internet de casa. Meu filho fica muito agitado sem ver desenhos na internet. É a única coisa que o distrai em casa, não tem como abrir mão — afirma. — Dívida é o que mais a gente tem, não consigo fazer as terapias do meu filho pelo SUS.

Serviços de saúde aumentaram 55,1% de 2020 até março deste ano, segundo a Tendências. Ressonância magnética, tomografia, ultrassonografia, densitometria óssea, raios-X, exames de sangue e urina, fisioterapia, pilates, acupuntura, sandálias para alinhar os pés, cintas para coluna, remédios de dor e de pressão e consultas com ortopedista, cardiologista, psicólogos, neurocirurgião: são gastos com saúde que pesaram nos últimos anos no bolso da aposentada Haydeé de Oliveira, de 78 anos.

— Em 2022, quando operei a coluna, foi o primeiro ciclo de gastos. Foram mais de R$ 1 mil só de exames em 15 dias. Consegui fazer a cirurgia em um hospital público, no Rio, mas moro em São Gonçalo, e o preço do transporte era absurdo. Eu não conseguia andar para pegar um ônibus. É muito gasto, e o meu dinheiro realmente não dá para isso tudo — conta Haydeé, que ganha um salário mínimo e precisou recorrer a cartões de crédito de amigos e à ajuda do filho para bancar as despesas com saúde.

Agora, a aposentada aguarda o hospital chamá-la para saber se precisará de nova cirurgia. Se for confirmada, terá de refazer o ciclo de despesas.

— Mesmo que meu filho me ajude, não é só com saúde que a gente gasta. Tem comida, contas de luz, de água, e todo o restante — preocupa-se.

Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências, observa que, apesar da boa dinâmica atual do mercado de trabalho, a população vê os itens essenciais pressionando o orçamento, comprometendo uma parte maior dos ganhos. Estudo recente da consultoria mostrou que a parcela da renda disponível para gastos extras caiu para 21%, o menor nível desde 2011, puxado por dívidas:

— Adiciona o crédito nessa equação e, apesar do crescimento da economia e do mercado de trabalho, a sensação de bem-estar com o que sobra para recreação, lazer, é menor.

Maria Andreia Parente, pesquisadora do Ipea que estuda a inflação por faixa de renda, constata que, se na média sobram 21% da renda para gastos não essenciais, nas famílias de baixa renda, o orçamento é ainda mais apertado, já que os recursos disponíveis são quase totalmente consumidos com o básico, como a alimentação:

— Quando se observa as classes de renda mais baixa, após os gastos básicos não deve sobrar praticamente nada.

A alta dos alimentos de 83,1% desde 2020, mais que o dobro da inflação média, fez o peso dessa cesta aumentar de 25,8% para 28,6% no orçamento dos lares com renda de até R$ 2.299,82, ela aponta:

— Quando há um período em que os preços dos alimentos crescem muito, a renda disponível das famílias mais pobres fica ainda menor.

Novas despesas

O rendimento médio subiu 12% acima da inflação desde 2020, mas isso não significa necessariamente aumento do poder de compra, explica Francisco Pessoa Faria, pesquisador do Ibre/FGV e economista da Logos Economia. Isso porque as famílias passaram a ter novas despesas. Gastos antes considerados supérfluos, como internet, streaming, aplicativos de transporte e delivery passaram a ocupar o orçamento recorrente, principalmente nos lares de classe média. Além disso, o IPCA atual é calculado de acordo com a última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), de 2017 e 2018, e não reflete algumas mudanças de hábitos, ressalta Faria:

— Estamos calculando a inflação como se fosse um consumidor de 2018. Olha quantas coisas mudaram, quantos gastos começamos a ter e outros que deixamos de ter.

Maria Andreia lembra que hoje praticamente todas as famílias têm algum plano de internet. É necessário para trabalhar, estudar e até conseguir um posto melhor no mercado de trabalho, diz a pesquisadora do Ipea. As novas tendências de consumo no Brasil têm sido acompanhadas por juros altos, que encarecem e dificultam o acesso ao crédito, observa o economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social:

— Por um lado, mudou a cesta de consumo que as pessoas desejam. E de outro, a forma de financiamento desses desejos está particularmente cara. Tem uma elite que aproveita essa Selic (taxa básica de juros, atualmente em 14,5% ao ano) e investe, enquanto o andar de baixo está se endividando a altas taxas, como essas do cartão de crédito, do rotativo, do cheque especial. Não há orçamento que dê conta.

Neri também chama a atenção para a mudança na composição dos lares, com mais pessoas morando sozinhas e em centros urbanos, o que aumenta o peso do aluguel. O envelhecimento da população eleva despesas com planos de saúde e medicamentos.

Fim do alívio na energia

A conta de luz é outra despesa que as famílias não podem abrir mão e que vêm tomando mais espaço nas despesas. Levantamento da Abrace Energia, que reúne grandes consumidores de energia, mostra que a conta de luz aumentou 401,4% de 2000 até 2024, bem acima dos 340% da inflação média do período. Nos últimos anos, essa pressão vem diminuindo. A alta foi inferior à da inflação de 2020 até este ano, mas o alívio não é permanente. Houve descontos nos reajustes da energia com a devolução de impostos cobrados a mais na conta de luz, que estão para terminar, alerta Victor iOcca, diretor de Energia Elétrica da Abrace:

— O que ajudou a segurar o aumento das tarifas, a partir de 2020 e 2021, foi essa devolução importante de quase R$ 70 bilhões. Conforme essas devoluções vão acabando, a tarifa dá um salto. No Norte e no Nordeste, não fosse o recurso, os reajustes recentes seriam de dois dígitos.

Para ele, “fica evidente” no estudo que o “custo de energia sempre cresce acima da inflação”. Outras despesas como água e gás de botijão e encanado tiveram saltos maiores em pouco mais de duas décadas: 621% e mais de 700%, respectivamente. Juliana Inhasz, professora do Insper, avalia que essas altas em itens tão essenciais diminuem a sensação de bem-estar que seria esperada na população com desemprego baixo e salário subindo:

— Gastos essenciais, alimentação, energia, aluguel e transporte, quando ficam mais caros que o resto, mesmo que a renda suba, obrigarão a uma restrição de consumo. Parece que tudo está aparentemente bem, mas há perda de bem-estar.

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