Perspectivas 2022: entenda qual o cenário político e econômico em 2022

Apesar do avanço da vacinação, a pandemia ainda impactou significativamente a economia em 2021. Após dois anos lidando com a Covid-19, houve sequelas que terão ramificações ao longo do ano. 

A fim de compreender qual o futuro da economia brasileira, nós da Tendências realizamos nosso tradicional evento de fim de ano, o “2022 em Perspectiva”, no dia 15 de dezembro de 2021, para apresentar o cenário político e econômico esperado para 2022. 

O evento contou com a participação dos sócios da consultoria: Gustavo Loyola, Maílson da Nóbrega, Denise de Pasqual, Rafael Cortez e Alessandra Ribeiro. Neste artigo, reunimos as principais informações e projeções apresentadas ao longo do evento. 

 

Cenário político

O cenário político de 2022 será marcado pelas campanhas eleitorais que levam até as eleições para presidente em outubro. A clara rejeição ao governo Bolsonaro, que está acima de 50%, e a candidatura do ex-presidente Lula abrem caminho para uma forte polarização política, deixando pouco espaço para uma terceira via. 

Apesar do descontentamento e do desejo de mudança expressos nas pesquisas eleitorais, nem todos os candidatos da terceira via estão no mesmo patamar de avaliação. Por isso, o eleitor tem dificuldade de conceder o seu voto para um candidato que não aparece tanto, ou tão bem, nas pesquisas. 

Desse modo, a polarização se intensifica e a única chance de tornar viável uma terceira via partiria de uma deterioração adicional na avaliação de ótimo/bom do governo, do patamar um pouco superior a 20% para cerca de 15%.    

Sendo assim, ao longo dos próximos três meses, pré-candidatos como Sérgio Moro, João Dória e Ciro Gomes precisarão se esforçar para crescer no patamar de avaliação, para que a terceira via se torne uma possibilidade. 

Para o próximo mandato, será essencial maior habilidade política do presidente, para conduzir o País em meio a um balanço de riscos bem negativo. 

Entre os principais riscos para o cenário político, destacam-se (a) um ambiente internacional mais adverso, não só pela conjuntura macroeconômica, mas também levando em conta o peso do isolamento e do desgaste da política externa brasileira – sobretudo com relação à questão ambiental, que já trouxe algum prejuízo a setores competitivos como o do agronegócio –, (b) a crise institucional, dada a importância de um bom marco institucional para o crescimento econômico, e, por fim, (c) o frágil quadro fiscal que será o maior desafio para a economia brasileira.

 

Cenário eleitoral

Do ponto de vista da campanha de reeleição do presidente Bolsonaro, as pesquisas, tanto de intenção de voto quanto de avaliação de governo, apontam um grande desafio pela frente. Os atuais níveis de avaliação de governo mostram elevada rejeição e, portanto, sugerem alternância de poder a partir das eleições.

Nesse contexto, dois grupos ganham importância para o capital político do presidente e, consequentemente, para o desenho do cenário eleitoral: os eleitores de baixa renda e os evangélicos.

Apesar da rejeição ainda elevada, no primeiro grupo, que corresponde a cerca de 40% do total de eleitores, os dados mais recentes mostram um certo controle de danos quanto à imagem do governo, o que está associado, principalmente, aos programas implementados de transferência de renda voltados a essa população mais vulnerável.

Contudo, não é possível se ter certeza de que esses programas serão suficientes para proteger esse mercado eleitoral da entrada de um candidato de terceira via. É importante ressaltar que, para que qualquer candidato da terceira via tenha uma chance de chegar ao segundo turno, é preciso ganhar espaço nesse grupo de eleitores. 

Já o grupo dos evangélicos representa cerca de um terço do mercado eleitoral, desse modo, a campanha de reeleição deve focar nos valores tradicionais e conservadores a fim de ganhar o voto desse grupo. 

A questão religiosa ganhou ainda mais importância a partir da eleição de Bolsonaro, tendo em vista que dentre os grupos evangélicos, segundo as pesquisas, a rejeição do governo é menor. Portanto, esse grupo representa também uma proteção para a entrada de uma terceira via. 

Apesar da força de Bolsonaro em meio aos evangélicos, a parcela de eleitores com desejo de mudança é grande, o que torna a campanha de reeleição desafiadora.  Da mesma forma, do ponto de vista da política econômica, não há incentivos para que candidatos de oposição apontem na direção da continuidade das políticas atuais, principalmente no que diz respeito ao teto de gastos públicos.

Em termos gerais, a polarização está consolidada e é provável um segundo turno entre Bolsonaro e Lula, sendo que o candidato do PT tem maiores chances de eleição, segundo as pesquisas. 

 

Cenário econômico  

O cenário econômico para 2022 é desafiador. A economia deve ter encerrado 2021 com expansão ao redor de 4,5%, depois de uma queda de 4,1% em 2020, devido ao forte impacto da pandemia. Com os fortes estímulos fiscais e monetários, a economia mostrou rápida recuperação. Desde o primeiro trimestre de 2021, no entanto, a economia perdeu tração, tendência que deve se manter, levando a um crescimento bem modesto em 2022, de 0,3%.

Essa projeção de forte desaceleração, tem por base (a) a elevada inflação, que requer elevação mais significativa da taxa de juros básica pelo Banco Central, o que resulta no esfriamento econômico, (b) a deterioração do arcabouço fiscal, mantendo as incertezas elevadas, e ainda, (d) o ambiente de incerteza política relacionado às eleições, limitando, em especial, decisões de investimentos. 

 

PIB

Observando a abertura do PIB por oferta e demanda, é possível perceber que, apesar da desaceleração esperada, deve haver suporte de alguns setores à atividade econômica em 2022. 

Com relação à oferta, por exemplo, o setor agropecuário, deve registrar crescimento de 2,7%, sustentado não só pela produção agrícola em si, mas também pela pecuária, devido à recuperação no abate de bovinos. 

Além disso, a continuidade do avanço da vacinação e da normalização das atividades presenciais deve favorecer o setor de serviços, que sustenta a expectativa de um ligeiro crescimento neste ano. É fato que a nova onda da pandemia relacionada à variante ômicron limita o processo de normalização em especial neste primeiro período do ano.

Contudo, ainda há alguns destaques negativos, como o PIB industrial, que deve apresentar queda de 1,2%. Essa projeção, porém, contempla uma heterogeneidade importante entre os desempenhos setoriais. O PIB da construção civil, por exemplo, deve crescer neste ano, ainda que de forma mais modesta, ajudada pela boa performance do setor imobiliário. 

Pelo lado da demanda, é preciso destacar a desaceleração do consumo das famílias, cuja projeção de crescimento passou de 3,6% em 2021 para 0,7% neste ano. Essa pequena taxa de crescimento está apoiada em um mercado de trabalho mais lento, taxas de juros mais altas, menor ritmo de crescimento da concessão de crédito e confiança do consumidor ainda abalada. 

Outro destaque é a formação bruta de capital fixo, ou seja, os investimentos, que devem mostrar expansão expressiva, acima de 15%, em 2021 e contração de 2,5% neste ano, devido, principalmente, à desaceleração da construção e à redução do consumo aparente de máquinas e equipamentos. 

 

Produção industrial em 2022

Alguns destaques positivos entre os setores industriais neste ano são a indústria extrativa, que deve crescer, puxada pelo desempenho positivo da mineração, devido ao aumento na produção em plantas do Norte e retomada de operações em Minas Gerais, e da produção de petróleo, dados o ramp up de plataformas e a inauguração de novas unidades.

Outro destaque é a produção de veículos automotores, que deve crescer neste ano, à medida que ocorra normalização da oferta mundial de insumos. Essa recuperação da cadeia global de insumos, porém, deve ser parcial, e mais concentrada no segundo semestre do ano, o que limita a retomada completa da produção automotiva. 

Por outro lado, o desempenho negativo do segmento de bens de capital e a desaceleração da construção, resultados de taxas de juros elevadas e pressão de alta nos custos, devem reduzir a demanda por metais básicos.

 

Mercado de trabalho:

O cenário de menor crescimento em 2022 se traduz em ritmo lento de recuperação do mercado de trabalho, mas a expectativa é de se atingir os níveis de ocupação do período pré-pandemia neste ano. 

O crescimento continuará modesto e alimentado pela volta dos serviços presenciais, sejam eles públicos ou privados, que ajudam na geração de empregos. 

É importante destacar que a recuperação da ocupação está baseada, em grande medida, na reinserção do trabalhador informal, ou seja, de trabalhadores menos qualificados, com um salário médio menor. Adicionalmente, o mercado de trabalho ainda apresenta muita ociosidade, o que dá baixo poder de barganha aos trabalhadores para a negociação salarial, não sendo possível recompor todo o efeito da inflação. Assim, tem-se um efeito negativo importante no rendimento médio habitual, cuja queda esperada deve ser menor neste ano.

Com relação à taxa de desemprego, estima-se que ficará em 13,3% em 2021 e cairá um pouco mais em 2022, devido à geração de emprego, principalmente na área de serviços, junto com uma desaceleração do crescimento da PEA (menor ritmo de retorno de pessoas que haviam saído do mercado de trabalho), ficando em 11,8%, uma taxa ainda expressiva. 

 

IPCA

A projeção para o IPCA de 2022, de 4,6%, está apoiada no efeito da política monetária mais dura do Banco Central e na acomodação em preços de commodities. Em 2021 a inflação acima de 10% decorreu dos choques relacionados à pandemia, como os observados em preços de commodities e em insumos/bens intermediários resultantes de problemas nas cadeias globais de suprimentos e logísticos, além de problemas climáticos.

O problema no Brasil foi potencializado pela taxa de câmbio bastante depreciada, decorrente da percepção de risco elevada, por causa do ambiente político e incertezas em relação arcabouço fiscal. Assim, houve um efeito mais disseminado entre diversas categorias de produtos.

 

Taxa de juros

A inflação corrente e a desancoragem das expectativas devem levar o Copom a elevar a Selic em 150 bps em fevereiro e em 75 bps em março deste ano. A taxa básica de juros deve alcançar 11,50% no final do ciclo.

Levando em consideração uma provável mudança de governo, espera-se que aconteça um movimento de redução da Selic a partir de 2023. 

Os patamares mais baixos dos próximos anos consideram um nível de taxa de equilíbrio mais elevada devido à deterioração do arcabouço fiscal em relação ao que se projetava anteriormente, com efeitos adversos para a atividade econômica ao longo do tempo.

 

Taxa de câmbio 

O real continua desvalorizado em relação aos fundamentos, indicando o peso de questões internas do país. As projeções mensais para o câmbio refletem as incertezas políticas elevadas ao longo deste ano em um ambiente eleitoral polarizado. 

Assim, projetamos que o câmbio chegue perto de R$ 6,00/US$ mais próximo do período eleitoral. Já no fim do ano há uma acomodação em R$ 5,70/US$, devido à premissa de que o candidato que assumir o governo em 2023 terá incentivos para adotar uma postura pragmática e minimamente responsável com relação à política econômica. 

É importante destacar que a taxa de câmbio está muito fora do que diriam os fundamentos dos modelos de câmbio, o que sinaliza que há uma precificação expressiva de risco doméstico. 

 

PIB Regional em 2022

Enquanto o país, na média, deve crescer 0,5% neste ano, há diferenças regionais importantes:

  • Norte: Crescimento de 1,9%, sendo que a expansão está ligada à recuperação da indústria extrativa (após desempenho modesto em 2021). 
  • Centro-Oeste: Crescimento de 0,8% devido ao aumento da produção e recuperação da agropecuária (especialmente milho), considerando normalização do regime de chuvas, e melhor desempenho do abate de bovinos. 
  • Nordeste: Crescimento de 0,7%. Devido ao avanço da vacinação, há uma perspectiva positiva ao setor de serviços (turismo) e uma projeção de recuperação parcial da indústria, após queda forte em 2021. 
  • Sudeste /Sul: Crescimento de 0,4% e -0,1%, respectivamente. Espera-se um desempenho modesto dessas regiões em 2022, sendo a indústria afetada negativamente por restrições de oferta de insumos. 

Conclusão

No geral, os efeitos favoráveis do avanço da vacinação e da normalização da atividade presencial ainda devem ser sentidos em 2022. Em meio a um ambiente desafiador, com a polarização política e a crise econômica, a heterogeneidade no desempenho setorial torna-se ainda mais importante, com destaque positivo para extrativa e agropecuária. 

Além disso, com a elevada inflação e a contaminação das expectativas para 2022 e 2023, o Copom deve elevar a Selic a 11,50% e manter a taxa neste patamar até o final do ano. O maior risco continua sendo de descontrole das contas públicas, dada a fragilidade do arcabouço fiscal.

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