Entenda a atual conjuntura econômica do Brasil – Jovem Pan News
- Na Mídia
- 27/05/2026
- Tendências
Em entrevista à Jovem Pan News, Silvio Campos Neto, sócio e economista da Tendências Consultoria, analisa a atual conjuntura econômica do Brasil e comenta os principais desafios e perspectivas para a economia brasileira
Apesar da economia e do mercado de trabalho aquecidos, vemos um endividamento das famílias cada vez maior.
Campos Neto diz que, no fundo, há uma série de dados que aparentemente apontam para um cenário positivo, mas, quando você observa alguns outros indicadores, fica claro o porquê as pessoas estão com uma percepção adversa sobre a atual conjuntura econômica do Brasil.
A realidade é que o poder de compra realmente está muito afetado e não só pela questão dos preços ainda em patamares altos, mas, como foi dito acima, as famílias estão endividadas.
A Tendências realizou um cálculo para avaliar essa renda disponível das pessoas depois de honrar todos os compromissos financeiros, impostos e aquelas despesas que são mais obrigatórias e esse indicador está no menor patamar em cerca de 12 ou 13 anos. Ou seja, de fato, há uma razão para as pessoas estarem com essa percepção adversa.
E, quando olhamos para frente, é difícil vermos alguma reversão de quadro a curto prazo.
Claro que podemos eventualmente ter algum alívio caso a guerra no Oriente Médio seja superada. A tendência é que o preço do petróleo, nesse sentido, volte a aliviar um pouco os preços dos combustíveis, por exemplo. Mas não é nada que mude substancialmente esse quadro, que tem outras origens mais importantes e que vêm de todo um período de estímulo ao consumo. As pessoas se endividaram e enfrentam, agora, um cenário de juros muito altos, que vão além simplesmente de um aperto monetário, explica Campos Neto.
Ele diz que vemos toda a estrutura de juros muito pressionada, inclusive as taxas longas. E esse é um sinal muito claro de que temos fundamentos fora do lugar. É isso que precisamos atacar, só que não é uma questão que será superada no curto prazo.
Redução da Selic
Campos Neto explica que é importante separar um pouco a discussão do que é o instrumento de política monetária e do que realmente acontece em termos do custo do capital no país.
Considerando as hipóteses que são plausíveis, de uma superação do conflito e efetivamente um dólar bem comportado no mundo – o que a Tendências também acredita que siga dessa forma –, Campos Neto explica que o Banco Central tem margem para alguma redução residual, mas também é difícil dizer até quanto.
Hoje, a Tendências espera até 13% neste ano, mas ainda vê um risco de o Banco Central efetivamente parar um pouco antes. Agora, para uma queda um pouco mais substancial acontecer no ano que vem, Campos Neto diz que é muito difícil que isso aconteça sem medidas efetivas e concretas de ajuste.
Isso acontece porque o Banco Central tem muita dificuldade também de fazer uma redução substancial com uma curva de juros muito pressionada, expectativas de inflação desancoradas que também remetem à questão fiscal e todo o risco de que uma redução mais tempestiva acabe se traduzindo numa piora desse ambiente.
Ou seja, com mais desancoragem e com inclinação maior da curva, Campos Neto diz que efetivamente, terá um risco cambial maior.
Campos Neto iria além desses dois pontos da guerra no Oriente Médio e do dólar, colocando também a necessidade de um rearranjo dessas regras fiscais – o que não vai acontecer neste ano, naturalmente, mas no ano que vem –, porque efetivamente elas não se conversam. Ele explica que, hoje, nós temos regras que indexam a despesa e que não são compatíveis com o arcabouço fiscal.
Então, algum tipo de medida – ou de medidas – terá de ser tomada, mas Campos Neto diz que, infelizmente, neste momento ninguém sabe exatamente qual será. E o resultado é o que temos atualmente e que foi dito acima: curva de juros muito pressionada e expectativas desancoradas.
Orçamento
Campos Neto explica que já vimos vários exemplos no passado, onde chegamos num ponto limite em que o governo da vez teve que tomar algumas medidas amargas. E estamos de novo diante desse cenário.
Não será agora, mas na virada pós-eleições essas medidas terão que ser tomadas, seja por qual for o vencedor. Ainda não sabemos a ambição desse ajuste, mas o fato é que o custo de não fazer vai ser muito alto, explica Campos Neto.
Existe também um risco que é a possibilidade de você ter um cenário não necessariamente de shutdown, como nos Estados Unidos, mas de um estrangulamento do Orçamento, porque hoje, como sabemos, cerca de 95% dele já está comprometido com despesas obrigatórias e as regras atuais continuam alimentando o crescimento desse gasto. Vai faltar dinheiro em algum momento.
Então o fato, de acordo com Campos Neto, é: o ajuste, por bem ou por mal, tem que vir.
Ele pontua um complicador dessa história: depende muito, claro, de quem vencer e qual foi o discurso usado durante a campanha. Se o governo, num cenário de reeleição, se compromete com a manutenção de todas essas políticas, por exemplo, da valorização do salário mínimo, como que um mês, dois meses depois ele muda isso?
É um risco por esse canal, que é mais ou menos o que nós vimos lá de 2014 para 2015, onde Dilma se reelegeu com todo um cenário de promessa de que tudo continuaria igual e no day after mudou toda a equipe, colocou Levy para fazer o ajuste e a coisa degringolou, porque politicamente a situação esfarelou, relembra Campos Neto.
Crise fiscal
A “vacina” para a crise fiscal potencial é ter uma equipe econômica muito sólida e que tem a condição política de implementar as coisas, não só no Congresso, mas internamente, porque a gente sabemos que o próprio partido muitas vezes é contra. Sem isso, a negociação para viabilizar politicamente certas medidas acaba sendo complicada.
Claro que, nesse sentido,vemos muitas críticas – com razão – ao comportamento do Congresso às vezes, mas também é importante lembrar que esse mesmo Congresso foi o mesmo que aprovou a Reforma da Previdência, o Teto de Gastos e outras tantas medidas importantes ao longo dos últimos 10 anos, diz Campos Neto.
Ele explica que, quando há uma vontade política vinda do governo, que realmente conduza com liderança esse processo e com uma equipe econômica qualificada e que transmita essa imagem positiva técnica para população, é mais fácil convencer o Congresso. Campos Neto acredita que parte sempre das visões econômicas do Executivo de acreditar ou não naquilo que ele está propondo.
Se o governo realmente acredita que o caminho é o do ajuste, que medidas amargas terão que ser tomadas e vai expor isso para a população de uma forma direta e transparente, é “mais fácil” viabilizar isso no Congresso. Agora, se é um ajuste muito pontual, meio envergonhado e tentando se distanciar do problema, aí obviamente vai ficar muito mais difícil, diz Campos Neto.
O candidato não pode vender aquela ideia de que vai promover todo um ajuste se não tiver propostas concretas e tecnicamente definidas.
O conjunto de regras que temos atualmente mostra claramente que nós não existe uma dinâmica fiscal sustentável e nós sabemos as medidas que têm que ser tomadas. Esse é o lado bom. O lado ruim é que são medidas difíceis, diz Campos Neto.
É preciso tirar fatores de incerteza em relação ao cenário doméstico e deixar que o setor privado tenha espaço para trabalhar melhor. Campos Neto diz que é claro que são muitos hoje os fatores de incerteza, principalmente aqueles que pegam no custo do capital.
Ele diz que por isso é importantíssimo que você encaminhe essa questão para que se tenha um destravamento nesse sentido, reduzindo a percepção de risco, reduzindo juros de mercado…
E para 2027 em particular, claro que temos uma preocupação grande em relação ao ambiente de dívidas privadas. E aqui cabe destacar que nós passamos vários anos sempre focando na preocupação com o endividamento público, mas, neste momento, temos também uma preocupação grande com a situação das famílias e das empresas, diz Campos Neto.
Ele diz que, com a situação atual, olhando até o final do ano e sem a perspectiva de ajuste, a tendência é que efetivamente não melhore ainda em 2026. Então, entraremos em 2027 com uma necessidade de um ajuste importante de balanço também de famílias e, claro, não de forma geral empresas, mas algumas delas em particular.
Campos Neto explica que isso também corrobora um cenário de um crescimento no ano que vem que tende a ser modesto, mas, se fizermos efetivamente uma agenda coerente, correta do ponto de vista do ajuste, a tendência é que se reduza a percepção de risco, juros de mercado e expectativas de inflação. E não só a Selic, mas toda essa estrutura de termo caindo também já traz um cenário mais promissor a partir de 2028.
De fato, chegamos em um ponto preocupante, mesmo que o governo tenha esse interesse em garantir um alívio no endividamento das famílias com finalidade eleitoral.
Campos Neto diz que os números oficiais estão um pouco poluídos por uma mudança regulatória que houve no início do ano passado, o fato é que, mesmo com o Desenrola 2.0, os níveis de inadimplência estariam mais altos do que o padrão dos últimos anos.
Ele explica que isso aconteceu, porque as pessoas “foram levadas” a um maior consumo e ao aumento de endividamento. Em paralelo a isso, o governo ampliou gastos, flexibilizou regras, os juros subiram… uma “tempestade perfeita” com famílias e empresas mais endividadas – e com dívidas mais altas e mais caras.
Campos Neto diz que nenhum governo quer iniciar um mandato sob crise, então esse também é um estímulo importante para que se faça algo, se tomem medidas que não são fáceis politicamente, mas realmente nessa questão do crédito X inadimplência temos um problema a ser resolvido.
Impactos da guerra no Oriente Médio
O governo tem essa proposta no Congresso para usar o excedente de receita proveniente do petróleo exatamente para dar a subvenção e a própria presidente da Petrobras já falou que aí permitiria um aumento no atacado do preço da gasolina;
Campos Neto diz que, dando benefício da dúvida, podemos dizer que faz algum sentido numa situação de choque, eventualmente temporário, em que você está se beneficiando do lado das receitas, usar parte disso para amenizar o impacto pro consumidor final.
Claro que tem também um outro lado no sentido de que o preço para cima é um sinalizador também pro consumidor de que ele precisa ser mais parcimonioso no consumo. É importante também deixar que o preço reflita um pouco mais as condições de mercado, explica Campos Neto. Mas, para ele, algum tipo de amortecedor está dentro do contexto.
A questão é que sabemos que há um casuísmo nessa história pelo ano que estamos e isso não pode ir muito longe, até porque a Petrobras está pagando essa conta, uma empresa aberta e que também deve explicações para os mercados e investidores.
Campos Neto reforça que acredita que essa é uma situação que pontualmente pode até ser justificável, mas que não dá para sustentar por muito tempo.
Recado final
Campos Neto diz que sabemos que, nessa batalha eleitoral, muitas vezes se deixa realmente o problema para resolver depois. A questão é que o depois chega e muitas vezes chega com um cenário bastante difícil, como já vimos em outras vezes no passado.
Mais uma vez estamos nos aproximando de um momento onde algumas decisões que costumamos evitar terão que ser tomadas.
Claro que também não podemos esquecer de pontos positivos da economia brasileira. O Brasil tem conseguido ser um destaque importante, com alguns setores onde nós temos as nossas vantagens comparativa – no agronegócio, na mineração, no petróleo… Só no ano passado, 350 bilhões de exportações, sendo quase 80% desses segmentos mencionados.
Campos Neto diz que o mundo, quando olha para o Brasil, vê nossos problemas, obviamente, mas também vê muitas virtudes, que dão uma base importante pros próximos anos.
Mas nada disso vai acabar se traduzindo num grande benefício para a gente se não fizermos efetivamente essa lição de casa. E a situação está aí: nós temos que ter um plano, um conjunto de regras e de medidas que não só os investidores, mas de forma geral, analistas consigam enxergar um cenário sustentável do ponto de vista de contas públicas, que hoje, por enquanto, infelizmente ainda não temos.
Confira a entrevista completa no vídeo abaixo!