O humor sombrio do eleitorado – CNN Brasil
- Na Mídia
- 27/05/2026
- Tendências
Em entrevista à CNN Brasil, Rafael Cortez, sócio e economista da Tendências Consultoria, analisa o humor sombrio do eleitorado e os principais fatores que influenciam a percepção da população sobre o cenário político e econômico atual
Existe uma pergunta que muitos se fazem em ano de eleição, principalmente ano de eleição nacional, que se vota para presidente, para governador, para o Congresso: quão animados os eleitores estão para a eleição?
E uma coisa que chama bastante atenção quando comparamos o grau de animação de 2026 com 2022, que foi a última eleição presidencial, é que temos, hoje, mais de 55% dos eleitores respondendo que estão desanimados com essa eleição, quando tínhamos 40% em 2022.
Ou seja, 15 pontos percentuais a mais de eleitores brasileiros estão desanimados com essa eleição de 2026.
Quando tentamos entender as razões desse desânimo, é uma combinação de um governo que, hoje, tem um grau de desaprovação maior do que a aprovação em todas as pesquisas e, obviamente, uma sensação de que a escolha que será realizada, principalmente na eleição presidencial, será uma escolha que, de alguma maneira, é muito semelhante a 2022, onde a gente tivemos uma batalha de rejeições.
Obviamente, isso se deve também a um grau de polarização muito grande entre os eleitores.
Para Cortez, pensando em outras democracias e para onde elas estão caminhando, é uma situação difícil de ser resolvida, porque é uma combinação de uma dimensão econômica que, se quisermos, pode até remontar aos tempos da pandemia e todos os desdobramentos em termos de aumento de custo de vida, por exemplo, que ainda não foram devidamente retomados ao patamar normal.
Hoje temos um nível de preços muito alto, que remonta quase ao desmanche das cadeias de produção, que é um choque muito forte que ainda deixa marcas nos sistemas econômicos e, portanto, na percepção de bem-estar social dos indivíduos.
Cortez diz que a dimensão política talvez seja ainda mais desafiadora, porque não são só os partidos políticos, que historicamente não têm propriamente uma popularidade muito alta e um nível de confiança alto na sociedade. Essa dimensão política percebe também que outras instituições que, no passado, imaginava-se serem instituições que tinham algum poder de arbitrar ou de “salvar a lavoura”, como o Judiciário e as Forças Armadas, que também são objeto de muita crítica hoje e de uma tendência histórica de rejeição.
Então, por qualquer caminho que olhemos, seja pelas alternativas políticas, seja por essa percepção de insegurança quase que muito estrutural, Cortez diz que é muito difícil imaginar que o pleito de 2026, que tem essas características, não será uma repetição da disputa de 2022, só trocando o candidato da direita.
Cortez levanta a seguinte provocação: como é que vamos imaginar que uma eleição que repete discurso e repete nomes, vai servir como alguma saída para enfrentar esses dilemas atuais?
Cenário atual
Cortez diz que, no Brasil, nos acostumamos, durante um longo período, a trazer um olhar muito voltado para as “regras do jogo”, um olhar meio institucionalista. E aí dava a sensação de que o Brasil caminharia por um período de estabilidade democrática, com crescimento econômico.
Ele acredita que um ponto importante e que ainda não foi traduzido para a arena política por atores percebidos como legítimos e democráticos é essa mudança estrutural pela qual a sociedade brasileira passou.
Muito embora, em termos agregados, exista essa sensação de que nós estamos estagnados, a composição da sociedade é muito diferente.
Então, se pensarmos nos termos clássicos, temos, hoje, uma sociedade pós-industrial. Todo mundo chamou atenção para o processo de desindustrialização supostamente precoce. Isso tem uma dimensão social e os números mostram isso.
De acordo com Cortez, o emprego está nos serviços, não na indústria. E esse deslocamento do emprego para os serviços tem uma dimensão política, que é procurar novas agendas para dialogar.
Olhando essa relação do material com o político, Cortez diz que existe esse componente que ainda não encontramos, seja porque a esquerda parece ainda não ter as respostas para além da sua visão mais tradicional, seja porque houve uma mudança importante na direita, no perfil da maneira de fazer política e no perfil de quem é essa direita que está chegando.
Cortez acredita que faz muito sentido, sim, tentarmos casar essa base, essa questão sociológica por trás da explicação desse mau humor com a política.
Impacto das redes sociais
O espaço para o surgimento de alternativas está sendo cada vez mais bloqueado por esses sistemas que impedem a renovação e, ao mesmo tempo, não fazem nada para quebrar a crise de representatividade, mas também poderia ser um sinal para o surgimento de candidatos fora do eixo Lula-Bolsonaro.
Cortez concorda com essa leitura de que a estrutura do sistema político brasileiro está cada vez menos aberta à renovação, não só na eleição presidencial, que é uma eleição tradicionalmente mais difícil de entrar, porque é nacional, tem um custo alto e exige articulação em 27 estados. Mais ou menos sempre foi assim. A eleição presidencial é concentrada em duas forças, com o surgimento, eventualmente, uma terceira.
Para Cortez, o que é mais grave é que nós estamos fechando também as eleições legislativas para essa renovação, porque se espera que esse movimento no Legislativo apareça com um pouquinho mais de clareza, porque é o sistema proporcional, porque ali está toda a diversidade. Só que as reformas políticas que temos feito, nós que tanto demandamos reforma política, estão vindo com um efeito contraproducente.
E Cortez acredita que a coisa mais perversa de tudo isso é a dimensão da rede social, que, para ele, não é um instrumento que opera numa lógica de pluralidade, de respeito à diferença, de construção de acordos. Pelo contrário. Cortez diz que ela incita muito mais a divisão, e a divisão é a lógica de funcionamento dela.
Espera-se que partidos venham a público, nos convençam de que determinada plataforma é boa, de que determinada política é justa do ponto de vista social… Essa é uma das tarefas da elite política.
A rede social e a política por rede social são o contrário. Elas são nichadas, exageradas, radicalizadas e falam para cada público, explica Cortez, trazendo um questionamento: como é que você vai ter essa percepção de construção de acordo, de ponte, de renovação?
Quem se destaca nesse ambiente atual?
Cortez diz que, tradicionalmente, ligamos essa forma de fazer política mais na rede social à nova direita. Então, em tese, isso ajuda a explicar por que partidos da direita tradicional estão perdendo espaço, mas há uma tendência de disseminação desse conhecimento de como gerar capital político pelas redes sociais.
Sobre renovação em 2026, Cortez é cético. Ele não vê a rede social alavancando esses nomes, mas, sim, uma fase de transição da elite política. Se o presidente Lula conseguir a reeleição, provavelmente será o último mandato. No campo da esquerda vai se abrir uma discussão sobre sucessão.
No campo da direita também há disputa sobre o capital político bolsonarista. Cortez acredita que é disso que pode vir alguma mudança em 2030, com uma quebra geracional pode abrir espaço para alguém ocupar esse lugar.
Cortez acredita que a grande dificuldade de fazer esse papel dos governadores como canal de oxigenação é transformá-los em figuras nacionais. Disputar a eleição presidencial faz com que você tenha que rodar o Brasil e o nosso país tem um eleitorado continental. Não dá para ganhar uma eleição nacional indo bem apenas no seu estado.
Cortez explica que, a chave para entender os cenários de primeiro ou segundo turno passa por uma discussão conjuntural que é o efeito dos áudios vazados de Flávio Bolsonaro com o Daniel Vorcaro, no seguinte sentido: se eventualmente esse mal-estar permanecer e for mais do que um movimento conjuntural, isso pode trazer um perfil diferente para a abstenção dos eleitores na hora de votar, porque pode seria uma abstenção que, em tese, era alguém do antipetismo que iria votar, mas que vem uma desilusão tão grande com a situação de Bolsonaro e Vorcaro e já se abstém no primeiro turno.
Confira a entrevista completa no vídeo abaixo!