Desenrola 2.0 alivia no curto prazo, mas se repetirá se problema estrutural continuar, diz analista – UOL
- Na Mídia
- 29/04/2026
- Tendências
Em entrevista ao Mercado Aberto, do UOL, Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de Macroeconomia e Análise Setorial da Tendências Consultoria, falou sobre o Desenrola 2.0, novo programa do governo Lula voltado à renegociação das dívidas dos brasileiros. Ela também analisou a notícia de que a renda disponível para consumo no Brasil é a menor em mais de uma década
A Tendências Consultoria calculou a renda disponível para consumo das famílias após seus compromissos. De acordo com Alessandra, foi considerada a massa de renda total das famílias, que é o que elas têm com a renda principal: trabalho, benefícios previdenciários, benefícios sociais, aluguéis, dividendos e outros.
Em seguida, foram descontados os gastos com itens essenciais, como alimentação, habitação, educação, saúde, transporte e também compromissos financeiros, ou seja, pagamento do crédito, tanto a parcela do principal quanto dos juros.
Com base nesse cálculo, chegou-se ao valor da renda disponível para o consumo, que seria um consumo mais relacionado a lazer, recreação, vestuário, aquisição de bens duráveis, móveis, eletroeletrônicos e coisas do gênero: o valor era de 26,2% em 2011 e, hoje, se encontra em 21%.
Fica claro que essa renda disponível vem caindo ao longo dos anos. Então, ainda que a renda esteja subindo — e de fato está, os dados do mercado de trabalho mostram isso, a economia tem gerado emprego —, o fato é que, percentualmente, o que sobra dessa renda para esse outro tipo de gasto é menor relativamente, em comparação ao que tínhamos no início da série e mesmo lá no comecinho da pandemia, explica Alessandra. Apesar dos dados bons do mercado de trabalho, há uma sensação de aperto financeiro pelas famílias.
Qual seria a explicação para esse aperto?
Alessandra acredita que, de um lado, temos a inflação de itens essenciais, como alimentação no domicílio, habitação, saúde e educação, por exemplo, que são itens que ajudam também a “comer” uma parte maior da renda das famílias. É fato que, mais na margem, especialmente desde o ano passado pra cá, vimos uma moderação dessa alta, mas olhando ao longo desse horizonte, é isso.
Outro ponto que Alessandra traz é o custo do crédito, que tem como base uma taxa Selic bastante alta. E existem vários motivos estruturais, inclusive de política econômica, que explicam esses juros altos.
Além dessas questões mais estruturais, de juro alto, ligado principalmente à política fiscal no Brasil, mais um ponto é que temos, sim, ao longo do período mais recente, uma entrada muito expressiva de brasileiros no sistema bancário e que passam a adquirir crédito. E muitas vezes as pessoas entram no sistema sem uma educação financeira, sem entender a dinâmica desse crédito e se endividam sem fundamentos para arcar com o pagamento ao longo do tempo. É um ponto que está sendo observado com cautela ainda, de acordo com Alessandra.
E, normalmente, as pessoas que tomam crédito por esse meio, se endividam nas linhas mais caras. Alessandra confirma que é algo a ser observado, mas o problema às vezes nem é só a entrada, é a dinâmica.
Isso porque, a partir do momento que a família não consegue arcar com o pagamento daquele crédito, ela se endivida novamente para tentar fazer frente às suas contas. E aí o que é observado é que as famílias passam a acessar as linhas emergenciais, como cartão de crédito rotativo e cheque especial.
Alessandra explica que, às vezes, a falta de entendimento e planejamento financeiro levam a esse ciclo vicioso de superendividamento e com juros extremamente elevados em linhas emergenciais.
Desenrola 2.0
Ao ser questionada sobre o que já se sabe até agora sobre o Desenrola 2.0 e se ele resolve o problema, Alesandra vê, na verdade, o pacote mais como uma medida emergencial lançada pelo governo, dada a situação das famílias, o alto nível de inadimplência, mas que é extremamente localizado.É algum alívio de curtíssimo prazo, mas não resolve as questões fundamentais.
Isso porque, na base disso tudo, temos juros altos. E por quê isso? Um dos motivos, de acordo com Alessandra, é porque temos uma política fiscal extremamente ativa de aumento de gastos, que estimula a demanda e acaba pressionando preços. Então, o Banco Central tem que reagir subindo os juros.
Além disso, existem muitas linhas de crédito subsidiadas que também fazem com que a política monetária tenha uma perda de potência. Então, os juros têm que ser muito mais altos do que deveriam.
Por isso que o Desenrola 2.0 é uma medida de alívio de curtíssimo prazo: existem essas questões estruturais por trás que não serão resolvidas por ele. Para Alessandra, esse é o principal ponto.
Além disso, existe a entrada de pessoas no sistema bancário sem o devido suporte, educação financeira e esclarecimento, muitas vezes pelas próprias instituições financeiras, em relação ao custo do crédito.
Alessandra acredita que essas questões estruturais não vão mudar com o Desenrola 2.0. Pode gerar algum alívio de curtíssimo prazo, desde que os bancos façam a adesão para renegociar esses volumes, o que foi uma limitação do Desenrola 1.
Qual a solução para o endividamento?
Alessandra diz que, primeiramente, é preciso ser muito seletivo e cuidadoso nessa aquisição do crédito, porque muitas vezes ele é ofertado, mas a família não tem a devida condição de arcar com o pagamento ao longo do tempo e fica em uma situação financeira de inadimplência. Então, por estar inadimplente, não consegue acesso a uma outra linha de crédito, inclusive com melhores condições.
Também existe uma necessidade, sim, de desenho de regras para que, principalmente as instituições financeiras que fazem a interlocução com esse tomador final, possibilitem informações para essa tomada consciente de decisão.
E o que fica para a sociedade brasileira, em termos de reflexão e de agenda econômica, é que temos que resolver a questão do juro estruturalmente alto, passando por uma revisão dos gastos públicos. Não tem outra trajetória.
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