Saiba tudo o que rolou na nossa live sobre o primeiro turno das eleições de 2026
- Macroeconomia e política
- 02/10/2026
- Tendências
A corrida presidencial de 2026 chega à reta final do primeiro turno marcada pela polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Em um cenário de disputa acirrada, a estabilidade das preferências eleitorais, os elevados índices de rejeição dos candidatos e a capacidade de mobilização do eleitorado estão entre os principais fatores que podem influenciar o resultado das urnas.
Para discutir as expectativas para o primeiro turno e os possíveis desdobramentos da disputa, a Tendências Consultoria realizou, em 30 de setembro, uma live com a participação de Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de Macroeconomia e Análise Setorial, e Rafael Cortez, sócio e cientista político.
Durante o encontro, os especialistas analisaram o comportamento do eleitorado, os fatores que podem influenciar o resultado das eleições e os principais riscos políticos e econômicos associados aos diferentes cenários para o próximo governo.
Confira, a seguir, os principais pontos discutidos na live.
Cenário eleitoral: polarização e rejeição aos candidatos
As pesquisas eleitorais indicam um cenário de forte polarização, semelhante ao observado nas eleições presidenciais de 2022. A manutenção das preferências políticas sugere um eleitorado pouco propenso a alterar seu posicionamento, tornando a disputa especialmente sensível aos índices de rejeição dos candidatos.
Um dos aspectos centrais destacados na análise é a coexistência de dois sentimentos aparentemente contraditórios entre os eleitores: a insatisfação com o governo atual e a desconfiança em relação à oposição.
Em condições habituais, níveis elevados de desaprovação do governo tendem a favorecer candidaturas oposicionistas. Entretanto, a disputa de 2026 apresenta uma particularidade importante: apesar do desgaste da administração Lula, a rejeição a Flávio Bolsonaro também permanece elevada, limitando a capacidade da oposição de converter a insatisfação com o governo em apoio eleitoral.
Na avaliação de Cortez, essa dinâmica ajuda a explicar por que a desaprovação do governo não se traduz automaticamente em uma mudança nas preferências eleitorais.
Nesse contexto, a disputa não depende apenas da avaliação do atual governo, mas também da capacidade de cada candidatura de superar resistências e mobilizar eleitores.
O papel da abstenção e do comparecimento eleitoral
Diante da estabilidade das preferências políticas, a taxa de comparecimento às urnas surge como uma variável potencialmente decisiva para o resultado da eleição.
Entre os eleitores mais mobilizados, que participaram das eleições de 2018 e 2022, as pesquisas analisadas apontam vantagem de Lula. Para ampliar sua base de apoio, Flávio Bolsonaro dependeria, portanto, da mobilização de eleitores que não participaram dos pleitos anteriores.
Entretanto, esse grupo de potenciais novos votantes não demonstra preferência claramente definida por nenhum dos dois candidatos. Essa característica acrescenta incerteza à disputa e reforça a importância da capacidade de mobilização eleitoral de cada candidatura.
Além dos padrões de comparecimento, acontecimentos recentes da campanha também podem influenciar o comportamento dos eleitores.
Entre os episódios discutidos na live, destaca-se a controvérsia religiosa envolvendo Nossa Senhora Aparecida, que ganhou espaço no debate eleitoral e foi associada a mudanças nas intenções de voto entre o eleitorado católico.
Outros temas, como as discussões sobre a proibição das apostas esportivas e o desempenho dos candidatos nos debates presidenciais, também integram o conjunto de fatores que podem afetar a dinâmica da campanha nesta reta final.
Riscos políticos e desafios de governabilidade
Para além do resultado das urnas, a análise da Tendências destaca os obstáculos que o próximo presidente deverá enfrentar para construir condições de governabilidade e recuperar a confiança dos agentes econômicos.
O primeiro desafio decorre do ambiente de elevada polarização política. Independentemente do vencedor, o próximo governo deverá iniciar seu mandato em um país profundamente dividido, com capital político limitado e dificuldades para construir consensos em torno de medidas econômicas e fiscais.
Nesse contexto, a capacidade de articulação política será fundamental para enfrentar os desequilíbrios econômicos. A avaliação apresentada na live é de que a manutenção de um ambiente de desconfiança, associada às restrições impostas pelo cenário fiscal, tende a limitar a margem de atuação do próximo governo.
Outro ponto de atenção diz respeito à possibilidade de frustração das expectativas do mercado financeiro no período imediatamente posterior às eleições.
Em um eventual novo mandato de Lula, o risco estaria associado à continuidade das dificuldades para avançar no ajuste fiscal, em um contexto de expectativas já pessimistas dos agentes econômicos.
Já em um governo de Flávio Bolsonaro, uma reação inicialmente positiva dos mercados poderia ser seguida de decepção diante dos obstáculos políticos à implementação de uma agenda econômica mais liberalizante.
Em ambos os cenários, a avaliação dos especialistas é de que dificilmente haverá uma solução rápida para os problemas fiscais e para a crise de confiança econômica. O período entre o resultado eleitoral e o primeiro semestre de 2027 deverá ser especialmente relevante para avaliar a capacidade de articulação e execução da agenda do próximo governo.
Os desafios de um eventual novo mandato de Lula
No cenário de reeleição de Lula, um dos principais riscos identificados é o enfraquecimento precoce de sua capacidade de governar.
A combinação entre rejeição elevada, capital político limitado, dificuldades de relacionamento com o Congresso Nacional e impossibilidade de disputar uma nova reeleição consecutiva poderia reduzir a capacidade do atual presidente de construir apoio para sua agenda.
Esse contexto se aproxima do fenômeno conhecido como lame duck, ou “pato manco”, expressão utilizada para caracterizar lideranças que enfrentam perda de influência política e dificuldades crescentes para implementar suas prioridades.
O desafio, portanto, seria evitar que essas limitações comprometessem a capacidade de negociação com o Congresso e a condução das medidas necessárias para enfrentar os problemas econômicos, especialmente na área fiscal.
Os desafios de um eventual governo Flávio Bolsonaro
No cenário de vitória de Flávio Bolsonaro, a análise destaca os riscos associados à expectativa de implementação de uma agenda econômica mais liberal.
Embora a alternância de poder pudesse provocar uma reação inicialmente favorável dos mercados financeiros, a avaliação apresentada na live é de que seria excessivamente otimista pressupor ampla liberdade política para executar reformas e medidas de ajuste fiscal.
Um eventual governo Flávio Bolsonaro também enfrentaria obstáculos relevantes, incluindo dificuldades de coesão interna e tensões políticas associadas à identidade do bolsonarismo.
Essas limitações poderiam resultar em uma implementação gradual das medidas de ajuste fiscal, em ritmo inferior ao inicialmente esperado pelos agentes econômicos.
Dessa forma, o principal risco estaria na distância entre as expectativas criadas por uma eventual mudança de governo e a capacidade efetiva de entregar resultados no curto prazo.
Governabilidade e ajuste fiscal: os desafios para 2027
Independentemente do resultado das eleições, o próximo governo deverá enfrentar desafios relevantes para construir condições de governabilidade e recuperar a confiança dos agentes econômicos.
Embora os cenários de vitória de Lula ou Flávio Bolsonaro apresentem diferenças importantes quanto à orientação da política econômica, ambos envolvem riscos de frustração das expectativas e dificuldades para avançar na agenda fiscal.
A elevada polarização política, as limitações de articulação com o Congresso Nacional e a necessidade de enfrentar os desequilíbrios das contas públicas tendem a restringir a margem de atuação do próximo presidente.
Nesse contexto, a avaliação apresentada pela Tendências é de que uma solução rápida para os problemas fiscais e para a crise de confiança econômica parece pouco provável. O período entre o resultado das eleições e o primeiro semestre de 2027 será especialmente importante para avaliar a capacidade do próximo governo de transformar suas propostas em medidas concretas.
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