Tendências Consultoria Econômica

Edit Template

Saiba tudo o que rolou na nossa live sobre os impactos do novo tarifaço dos Estados Unidos

Em julho, o governo dos Estados Unidos promoveu uma nova rodada de aumento das tarifas de importação sobre produtos brasileiros. A medida foi justificada por possíveis infrações à política comercial e por práticas consideradas prejudiciais à competitividade da indústria norte-americana.

Embora os impactos do aumento das tarifas sobre a economia brasileira sejam limitados do ponto de vista macroeconômico, os efeitos são relevantes em determinadas cadeias produtivas e regiões do país.

Para discutir os aspectos políticos e econômicos do novo tarifaço e seus impactos sobre setores importantes da economia brasileira, a Tendências Consultoria realizou, no dia 20 de agosto de 2026, uma live que contou com as participações de Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de Macroeconomia e Análise Setorial, e dos consultores Carolina Oliveira e Matheus Ferreira.

Nova rodada do tarifaço dos Estados Unidos

No início de junho deste ano, o Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) propôs a imposição de uma alíquota de 25% sobre as importações do Brasil no âmbito da Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana. Trata-se de uma ferramenta de política comercial que permite aos Estados Unidos investigar e retaliar outros países diante de práticas comerciais consideradas injustas.

Segundo o USTR, políticas do governo brasileiro relacionadas a comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, processamento de patentes e pirataria, etanol e desmatamento ilegal geram insegurança jurídica e competição desleal para empresas norte-americanas. As novas alíquotas passaram a vigorar em 22 de julho.

Dois dias depois, os Estados Unidos também anunciaram tarifas adicionais para 60 países, igualmente sob a Seção 301, sob a alegação de falta de combate ao trabalho forçado. As alíquotas variaram entre 10% e 12,5%, sendo esta última a aplicada ao Brasil.

Essa nova rodada busca recompor o efeito da medida tarifária temporária adotada em fevereiro, no âmbito da Seção 132, após a Suprema Corte ter derrubado parte do tarifaço de 2025. A medida expirou em 25 de julho.

O que mostram os dados do MDIC?

O panorama das exportações brasileiras para os Estados Unidos mostra que os efeitos do tarifaço são bastante concentrados:

  • 52,7% estão livres de taxação: entre os produtos isentos estão café, carnes, ferro fundido, aeronaves, suco de laranja e frutas;
  • 24,2% estão sujeitos a sobretaxas setoriais: são exportações atingidas por medidas setoriais aplicadas globalmente;
  • 23,1% estão sujeitos às novas sobretaxas: dentro desse grupo, 4,7% estão sujeitos apenas à sobretaxa de 12,5%; 1,9% estão sujeitos apenas à sobretaxa de 25%; e 16,5% sofrem a incidência das duas medidas.

Exportações brasileiras aos EUA: nível e participação

Na comparação com 2025, as exportações brasileiras aos Estados Unidos apresentaram queda de 12,1%. Quando comparadas à média de 2021 a 2024, porém, o recuo é de apenas 4,4%.

A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras está em 9,6%, abaixo da média histórica de 10,7%. Isso ocorre mesmo com o total exportado pelo Brasil em patamar recorde, de US$ 218,6 bilhões.

Parte relevante desse recuo está associada à normalização de uma base de comparação inflada pela antecipação de embarques. Em 2025, a participação dos Estados Unidos ficou acima da média até julho. O efeito das tarifas foi mais intenso entre agosto e outubro e vem se dissipando desde as isenções concedidas em novembro.

Dependência do mercado norte-americano varia entre os estados

A exposição das economias estaduais ao mercado dos Estados Unidos também é bastante heterogênea.

Minas Gerais e São Paulo retornaram à média histórica, indicando que o recuo observado em relação a 2025 está mais associado à normalização da base de comparação do que à perda de mercado.

Ceará e Santa Catarina apresentaram as maiores reduções de dependência do mercado norte-americano: 7,7 e 6,7 pontos percentuais, respectivamente, em relação ao padrão observado entre 2021 e 2024.

De modo geral, a exposição ao mercado do país é concentrada. Apenas Ceará e Espírito Santo têm participação dos Estados Unidos superior a 25% em suas pautas de exportação. Nos demais estados, esse peso é inferior a 17%, o que limita o alcance macroeconômico do choque tarifário.

Um ano de tarifaço por estado e produto

A comparação com 2025 precisa ser interpretada com cautela, já que aquele ano teve uma base inflada pela antecipação de embarques.

Quando a análise considera as exportações para o mundo, apenas o Ceará apresentou perda efetiva de mercado. Nos demais estados, houve realocação de destinos, enquanto os maiores recuos foram registrados justamente em produtos que sequer estão sujeitos às tarifas.

Exposição à nova rodada do tarifaço

A exposição à nova rodada de tarifas depende da combinação de dois fatores: a participação de produtos tarifados na pauta e a dependência do mercado norte-americano.

Apenas Ceará e Espírito Santo reúnem essas duas características de forma mais significativa. Considerando o conjunto do país, 5,7% da pauta exportadora brasileira está sujeita à sobretaxa.

Quais produtos estão mais expostos?

O aço concentra o maior valor das exportações tarifadas e apresenta poucas alternativas de destino. O produto responde por US$ 3,5 bilhões das exportações tarifadas, com alíquota de 50% e dependência do mercado americano entre 79% e 94%. A exposição está concentrada principalmente nos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Ceará.

Madeira e portas aparecem como casos ainda mais críticos, com dependência do mercado norte-americano entre 90% e 98%. Nesses segmentos, praticamente não há mercados alternativos, e a concentração das exportações está principalmente no Paraná e em Santa Catarina.

Já açúcar, minério de ferro e fumo estão sujeitos a alíquotas, mas apresentam maior capacidade de redirecionamento. Com dependência do mercado americano de 3%, 12% e 9%, respectivamente, as exportações podem ser direcionadas a outros destinos sem perda relevante.

Assim, enquanto a primeira rodada do tarifaço foi absorvida em grande medida por meio da realocação de destinos, a nova rodada atinge produtos com menor capacidade de redirecionamento. Ainda assim, apenas 5,7% da pauta brasileira está sujeita à sobretaxa, com o risco concentrado em alguns estados e cadeias produtivas.

Os EUA são um mercado relevante para os bens de capital brasileiros

Os Estados Unidos respondem por aproximadamente 30% das exportações brasileiras de bens de capital. Em 2025, as vendas ao mercado norte-americano registraram crescimento de 3,9% na comparação anual. No mesmo período, as exportações totais de bens de capital avançaram 9,6%, após crescimento de 3,1% em 2024.

Além disso, os Estados Unidos são grandes demandantes de aeronaves e máquinas elétricas brasileiras. O país é o principal destino das exportações dos capítulos 84, 85 e 88, enquanto, no capítulo 87, referente a veículos pesados, predomina o mercado argentino.

Em 2025, a participação norte-americana aumentou nos capítulos 85 a 88, mas recuou no capítulo 84, diante do ganho de participação de mercados como Singapura e Argentina.

As isenções ajudam a mitigar os efeitos do aumento das tarifas sobre o setor de aeronaves, uma vez que esses produtos e parte das máquinas e dos equipamentos estão isentos da nova rodada de tarifas.

Os motores elétricos, classificados no capítulo 85, também podem ser contemplados pelas isenções quando destinados à aviação civil. Os demais produtos relevantes devem permanecer sujeitos à tarifa adicional de 37,5%.

Nesse cenário, a capacidade de redirecionar essas exportações para outros mercados tende a ser limitada, dada a forte concentração das vendas no mercado norte-americano.

Caso o efeito das tarifas sobre as exportações do setor de bens de capital seja semelhante ao observado no ano passado, o impacto sobre a produção do setor ficaria entre 0,5% e 1,0% no biênio 2026-27.

Impactos sobre o setor de produtos florestais

Entre os produtos florestais, o maior efeito das tarifas foi observado sobre a madeira, seguida pelos móveis. Papel e celulose apresentam maior potencial de redirecionamento das exportações, embora alguns segmentos, como o papel cartão, também estejam altamente expostos.

Em 2025, o Brasil exportou US$ 3,0 bilhões em produtos florestais para os Estados Unidos. Na comparação com 2024, último ano sem tarifas, as exportações recuaram em todos os segmentos.

Embora a celulose represente o maior montante exportado, madeira e móveis apresentam as maiores participações do mercado norte-americano, com shares de 43% e 26%, respectivamente, em 2024.

Os segmentos ligados à celulose, que responderam por mais de US$ 1,2 bilhão exportados aos Estados Unidos em 2025, estão basicamente isentos: 92% do total exportado ao território norte-americano não está sujeito a tarifas adicionais. No caso dos móveis, a isenção está relacionada aos produtos utilizados na aviação.

O redirecionamento das exportações tem ocorrido principalmente em direção a parceiros da América do Sul, em especial nos segmentos de móveis e madeira. Esse movimento, entretanto, não apresenta potencial para compensar integralmente as perdas no mercado norte-americano. No caso dos móveis, a padronização específica para o mercado dos Estados Unidos também limita as possibilidades de redirecionamento.

Para o papel, destaca-se o crescimento das exportações para a Europa e a estabilidade na América do Sul. Ainda assim, segmentos específicos podem ser desproporcionalmente afetados pelas tarifas.

Impactos na produção devem variar entre regiões e subsegmentos

No acumulado do ano até junho, o indicador de produção imobiliária da Pesquisa Industrial Mensal feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PIM-IBGE) recuou 1,6% na comparação anual. O resultado reflete um ambiente doméstico de crédito desfavorável ao consumo de bens duráveis pelas famílias, a desaceleração da construção e as restrições às exportações.

A aplicação das tarifas levou a uma redução adicional nas projeções para 2026-27. No mercado doméstico, o indicador também deve sofrer os efeitos da desaceleração dos lançamentos imobiliários.

Tarifaço tem efeitos concentrados, mas exige atenção setorial

Os dados apresentados na live mostram que o novo tarifaço dos Estados Unidos não representa, neste momento, um choque de grandes proporções para a economia brasileira como um todo. A exposição é relativamente limitada ao se considerar a pauta total de exportações, mas os efeitos são relevantes para determinados produtos, cadeias produtivas e estados.

A capacidade de redirecionar as exportações é um dos principais fatores para determinar a intensidade desses impactos. Enquanto alguns produtos encontram alternativas de destino, outros apresentam forte dependência do mercado norte-americano e poucas possibilidades de substituição.

Nesse sentido, a análise setorial e regional é fundamental para compreender os efeitos do novo cenário tarifário e identificar onde estão concentrados os principais riscos para a economia brasileira.

Quer participar das próximas lives e eventos exclusivos da Tendências? Torne-se nosso cliente clicando aqui