Real 30 anos: Meirelles e Maílson relembram a dificuldade para fazer planejamento antes do real – Estadão

Real 30 anos: Meirelles e Maílson relembram a dificuldade para fazer planejamento antes do real - Estadão

Confira os depoimentos dos dois economistas sobre o período pré-real e as preocupações depois de vários pacotes fracassados

Os anos duros de hiperinflação serviram de aprendizado para a população, que mal conseguia planejar o mês seguinte das despesas domésticas antes do Plano Real. Apesar do ceticismo no início do Plano Real, o brasileiro conseguiu se adaptar à URV (Unidade Real de Valores) num prazo mais curto do que os economistas imaginavam, o que possibilitou um processo de transição mais curto e a implementação do real a partir de 1º de julho de 1994.

Abaixo, os economistas Henrique Meirelles e Maílson da Nóbrega contam como foi o primeiro semestre de 1994 e as preocupações com o Plano Real, após os inúmeros pacotes anteriores. Confira os depoimentos:

Henrique Meirelles

Presidente do Bank Boston em 1994, foi ministro da Fazenda, presidente do Banco Central e secretário da Fazenda do Estado de São Paulo.

“Na população, num primeiro momento, havia um certo ceticismo quanto ao sucesso do Plano Real. Já tinham sido tentados vários planos que fracassaram. Mas no momento em que se configurou que a inflação estava equalizada, que passamos pela URV, a população entrou em um período de otimismo e retomou o consumo.

As empresas tiveram de fazer uma adaptação rápida, especialmente as indústrias. Elas enfrentavam subida constante nos valores das matérias-primas e de insumos e reajustavam os preços para acomodar isso e manter suas margens de lucro. Houve um processo de adaptação das políticas das empresas, de pesquisas de mercado, da variação de preços. Foi um período de grandes adaptações e trabalho em todas as áreas do setor empresarial. Um processo que afetou desde o padeiro no interior do País até as grandes empresas internacionais.

No sistema financeiro, durante o processo de hiperinflação, as captações eram de curto prazo. O investidor que comprava papel dos bancos tinha a perspectiva, como razão, que a inflação ia subir. As aplicações eram de no máximo a 60 dias, pois o investidor esperava que no vencimento ele pudesse reaplicar a uma taxa mais elevada para remunerar o seu papel ao novo patamar inflacionário. Os bancos faziam uma captação de curto prazo e emprestavam também no curto prazo, em 60 dias, 30 dias.

Na passagem para a URV, foi necessário montar um processo de avaliação de fluxo de caixa dos bancos, de captação e aplicação para fazer o casamento bem adequado de capital. Tudo teve de ser adaptado para a estabilização e a entrada da nova moeda, seja na área de tesouraria, seja na área de planejamento de fluxo de caixa, na contabilidade. Foi um trabalho intenso.

Os bancos ganhavam dinheiro em cima dos recursos que ficavam parados na conta corrente. No Bank Boston, isso era irrelevante porque tínhamos uma carteira que não era o varejo. O cliente do banco não deixava dinheiro na conta corrente e nós não perdemos fonte de receita em função da queda da inflação.

Então, o que houve foi uma adaptação à estabilidade da moeda. Isso foi extremamente positivo porque os volumes aumentaram muito, a análise de crédito ficou viável e passamos a poder fazer previsões à frente para analisar empresas. Tudo isso permitiu a expansão de toda a economia e do setor bancário, em particular.

Tive uma posição positiva em relação ao plano desde o início. Mas quando houve a saída da URV para o real ficou claro que aquilo estava funcionando e que tinha dado certo. Era uma situação muito difícil sair de uma hiperinflação para uma estabilidade porque a população estava acostumada com a indexação. Indexavam aluguéis e quaisquer recebíveis a prazo e isso trouxe muita dúvida.

Mas o caminho era aquele mesmo, eu sempre achei. Não era um processo fácil e tranquilo sair de uma hiperinflação. Tivemos uma hiperinflação das mais longas da história recente da humanidade. Teve aquelas coisas de 1920 na Alemanha, na Europa Central, mas o fato é que tivemos uma hiperinflação de 15 anos e sair disso era uma dificuldade muito grande. O Plano Real lidou muito bem com isso.”

Maílson da Nóbrega

Em 1994, era consultor da MCM, depois de ter sido ministro da Fazenda entre 1988 e 1990 e responsável pela implantação do Plano Verão. Atualmente é sócio da Tendências Consultoria.

“Desde o lançamento das primeiras medidas que levariam à criação do real, eu me convenci de que o plano poderia dar certo. Eu havia participado de duas tentativas de domar a complexa inflação brasileira via congelamento de preços e salários (Planos Bresser e Verão). O desafio era eliminar a indexação generalizada de preços, salários e contratos à inflação passada.

Havia duas ideias: a primeira era o congelamento que tinha dado certo em Israel e estava funcionando na Argentina com o Plano Austral (que veio a fracassar). A segunda, a ortenização, isto é, o uso da ORTN, um título público federal, como unidade de medida de preços da economia. Com a extinção da ORTN pelo Plano Cruzado, ela foi substituída pela URV. Essa era uma saída que não havia sido aplicada em nenhum país. Fazia sentido, mas era vista como arriscada. O congelamento, ademais, era de fácil entendimento pela sociedade.

Quando a nova moeda do Plano Real foi implementada em 1º de julho de 1994, a Tendências Consultoria ainda não existia (foi criada em 1996), mas muitos de seus fundadores, eu incluído, haviam participado da MCM Consultores.

Vivi, assim, o período pré e o período pós Plano Real. Antes do real, os serviços de consultoria macroeconômica se dedicavam basicamente a entender a conjuntura (o longo prazo era inviável). Atuava-se também para projetar as tendências da inflação de curtíssimo prazo numa época em que os preços variavam quase diariamente.

A MCM chegou a montar uma equipe de pesquisadores que coletavam preços diariamente em feiras livres, supermercados e semelhantes. Criou também um sistema de comunicação com um aparelhinho que bipava para os clientes, quando um novo número saía dos trabalhos de pesquisa, quando se analisava uma medida do governo ou quando havia acontecimentos semelhantes.

O serviço era valorizado particularmente nas mesas de tesouraria das instituições financeiras. Não havia demanda de consultoria para planejamento de longo prazo, mesmo porque realizar essa tarefa era impraticável.

Quando a URV entrou em operação (março de 1994), a MCM cravou a data da entrada em vigor do real: 1/7/1994. Acertamos. Nossa aposta se baseava na premissa de que a população, já acostumada a mudanças frequentes de moedas e de regras, absorveria rapidamente o mecanismo da URV, que era uma variável estável: os preços mudavam rapidamente, mas não a URV.

A adaptação à URV foi maior do que eu imaginava. No dia da entrada em vigor do real, um sábado, eu morava em uma rua próxima de uma feira livre que funcionava nesse dia. Eu e minha esposa a frequentávamos habitualmente. Quando lá chegamos, todos os preços – de verduras, frutas, peixes, camarões, caldo de cana e outros – estavam registrados na nova moeda. Isso tinha acontecido na madrugada.

Era impressionante, pois a taxa de conversão da URV era 2,750 (um determinado valor na moeda antiga era convertido na nova dividindo-o por um número de quatro dígitos). Tudo isso resultava do benefício, digamos assim, de a sociedade ter de lidar com alterações frequentes de preços, regras e mudanças de moeda do passado. No mesmo dia, abastecemos nosso carro e pagamos na velha moeda. O troco veio na nova. Era ainda mais impressionante. Conclusão: vai dar certo.

O Plano Real reduziu a demanda de consultoria macroeconômica, do tipo que se praticava no Brasil, voltada para auxiliar os clientes, particularmente instituições financeiras, a lidar com a velocidade de mudança dos preços e a ganhar com essa realidade. (produtos financeiros com moeda indexada se tornaram muito comuns).

O sistema financeiro diminuiu de tamanho, particularmente na crise bancária de 1995, o que representou uma queda adicional da demanda.

Ao mesmo tempo, a estabilidade monetária proporcionou espaço para trabalhos mais sofisticados, pois passaram a existir dados econômicos robustos e mais confiáveis (a inflação impedia isso). Tornou-se possível o uso da econometria, por exemplo. Surgiu a demanda por trabalhos de cenários de longo prazo, projeções regionais e estimativas de comportamento futuro de preços de matérias-primas.

Hoje, a Tendências faz cenários de 30 anos para empresas de infraestrutura. A mudança foi consequência do alargamento dos horizontes de planejamento das empresas. Estudos e pareceres econômicos passaram a ser demandados para estimar mercados em projetos de investimento, e para a defesa de interesses dos clientes em disputas judiciais e arbitragens. A estabilização e a previsibilidade acarretadas pelo Plano Real foram a causa dessa nova realidade dos serviços da Tendências.”

Reprodução. Confira o original clicando aqui!

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