Mercado aguarda divulgações do IPCA-15 – BandNews
- Na Mídia
- 25/08/2026
- Tendências
Em entrevista à BandNews, Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de Análise Macroeconômica e Setorial da Tendências Consultoria, comenta as expectativas do mercado para a divulgação do IPCA-15 e analisa o cenário da inflação brasileira
A semana começou com vários indicadores importantes, como os da inflação – IPCA-15, e boletim Focus – tudo isso já direcionando como serão os próximos dias no Brasil.
Alessandra confirma que a semana começou intensa, tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Entretanto, a expectativa da Tendências é que não devemos ter oscilações muito relevantes. Ela explica que já vimos isso, especialmente no IPCA deste ano, com uma migração mais próxima das projeções da mediana de mercado para casa de 5%. Por outro lado, o mercado deve seguir bem cauteloso em relação à inflação dos próximos anos, principalmente de 2027 e 2028.
Do lado do crescimento, a Tendências também não espera muitas mudanças drásticas, além da continuidade de um leve viés gradual de queda para as projeções de 2027. Para a Selic, Alessandra diz que também não há muitas mudanças, além do fato de tanto o mercado quanto a Tendências esperarem mais uma queda de juros pelo Copom no mês de setembro.
Tarifaço dos EUA
Sobre o tarifaço dos Estados Unidos em relação ao Brasil e ao resto do mundo, Alessandra explica que essa discussão ainda deve continuar de maneira importante. E uma parte da história tem relação com a situação fiscal deles. Os Estados Unidos têm uma dívida pública que está em trajetória de alta e quando observamos também os resultados nominais de receita menos despesa, incluindo juros, temos uma tendência de alta.
Então, de fato, as projeções para a dívida pública nos Estados Unidos, olhando o médio e longo prazo, são preocupantes. E eles precisam pensar em aumento de receita para tentar suavizar esse aumento. Entretanto, a Tendências avalia essa estratégia como bem equivocada.
Alessandra explica que, de um lado, pode ajudar, no curto prazo, a ter um pouco mais de receitas, mas no médio e longo prazo, mina produtividade, capacidade de crescimento da economia americana e os resultados fiscais.
Para ela, é uma estratégia muito equivocada e de curto prazo, que passa pela crença deles de que, ao tarifar produtos do mundo, vão trazer a produção novamente pros Estados Unidos, inclusive em segmentos industriais, o que também é extremamente complicado.
Nem sempre faz sentido para os empresários trazerem a produção de volta pros Estados Unidos, porque não é competitivo em muitos casos, pensando em localização, em insumos e em mão de obra qualificada. Nem sempre é interessante, às vezes é melhor ter o custo da tarifa do que trazer a produção de volta pros Estados Unidos.
Alessandra reforça que é uma crença que eles têm, principalmente nesse contexto de disputa muito acirrada com a China, mas também é uma estratégia que a Tendências avaliamos que tem muitos problemas e também não deve trazer o resultado esperado – em termos de incentivar a indústria americana – e trazer de maneira expressiva a produção de volta aos Estados Unidos.
Mesmo as negociações com o Brasil, eles vão prosseguir, mas a Tendências está muito cética de que tenhamos um aumento muito importante na lista de isenções em relação ao que já foi dado aqui – inclusive pelo que já foi publicado que a gente exporta pros Estados Unidos, cerca de 53%, nessa lista de isenções. Mais do que isso, a Tendências acredita ser pouco provável.
Cenário político-econômico
Alessandra diz que os temas mais espinhosos e que merecem bastante reflexão quando pensamos na evolução da economia, principalmente a partir de 2027, ainda não estão sendo tateados ou, quando são tateados, é de maneira muito superficial.
Existe uma questão muito sensível que será preciso endereçar a partir de 2027, que é a questão fiscal. Existe um aumento expressivo dos gastos obrigatórios e isso vem se traduzindo, obviamente junto com o custo de financiamento da nossa dívida, em um aumento importante da dívida pública. Esse ano a Tendências projeta que a dívida pública deve encerrar na casa de 84% do PIB e, pelas projeções, chegar a 90% em 2028.
Mas quando vemos, por exemplo, a discussão em relação a isso, um ponto sensível é que essa dinâmica de gastos obrigatórios passa por emendas parlamentares, passa pelo crescimento, por exemplo, de gastos relacionados à Previdência, outros programas sociais… É uma discussão muito difícil a ser feita, mas ninguém passa muito perto delas, apenas de uma maneira muito superficial.
Alessandra explica que isso deixa o mercado muito apreensivo, porque não existe nenhum sinal de comprometimento de que o próximo governo vai efetivamente lidar com a questão fiscal. E por que essa questão fiscal é complicada? Porque é um grande guarda-chuva, é o que permite a estabilidade da economia brasileira ao longo do tempo.
E se essa questão fiscal não for endereçada, não adianta qualquer outra agenda que você toque, por exemplo, de concessões de infraestrutura, outras reformas estruturais… elas vão ter seus efeitos muito diminuídos num contexto de instabilidade macroeconômica, de acordo com Alessandra.
Exportação de carne brasileira
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, determinou uma cota de importação de carne que inclui também a brasileira. A exemplo da China, que o Brasil já tava sofrendo com essa questão da cota, agora vem a cota americana.
Alessandra explica que essa questão das cotas dos Estados Unidos chama uma atenção particular, porque eles estão no momento do mercado deles, em termos de carne – porque hoje os maiores produtores mundiais de carne são os Estados Unidos – com problema de oferta há um bom tempo. Por isso que, inclusive, o Brasil tem aumentado muito as exportações de carne pros Estados Unidos, principalmente nesses últimos dois anos: eles não estão conseguindo endereçar esses problemas de oferta.
Existe uma pressão muito significativa para preços, porque tem demanda – o Brasil está exportando o máximo que pode –, mas tem uma questão de oferta, inclusive americana. Alessandra diz que temos nos aproveitado desse contexto, exportado muito para os Estados Unidos, além de outras regiões.
Agora, com a imposição aqui de cotas, obviamente isso limita as exportações para Estados Unidos e é algo que tende a fazer com que a oferta doméstica aumente um pouco. Isso pode significar alguma pressão baixista para preços de carnes – o lado positivo que é aqui para inflação ao consumidor.
Não deixa de ser uma ajuda aqui ao mercado doméstico, mas obviamente que o próprio produtor de carne não vê como uma notícia positiva, uma vez que ele deve canalizar a produção pro mercado doméstico, mas com uma tendência de preços um pouco mais baixista.
Confira a entrevista na íntegra no vídeo abaixo!