Tendências Consultoria Econômica

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Canetas emagrecedoras:  um vetor de transformação do consumo? 

Por: Isabela Tavares e Lucas Assis

O debate sobre as chamadas canetas emagrecedoras vem ultrapassando o campo da saúde e começa a adquirir dimensão mais ampla no Brasil e no mundo. Os dados sistematizados já evidenciam relevante avanço das vendas registradas de medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida. A semaglutida integra produtos como Ozempic, Wegovy e Ozivy, enquanto a tirzepatida está presente no Mounjaro. 

Na Tendências Consultoria, acompanhamos o movimento por meio de dados públicos sobre a comercialização dos medicamentos, combinando com análises de classes de consumo e situação financeira e poder de compra dos consumidores. O objetivo consiste em compreender a disseminação das vendas registradas e avaliar desdobramentos econômicos sobre diferentes cadeias de consumo. 

Os dados coletados nas bases da Anvisa mostram relevante avanço das vendas registradas no período recente. Em junho de 2026, o volume comercializado no Brasil foi 26% superior ao observado em janeiro do mesmo ano. O resultado sinaliza expansão dos registros, embora não permita atribuir a variação integralmente ao crescimento da demanda, em razão das limitações e das alterações recentes na cobertura do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) da Anvisa. 

A expiração da patente da semaglutida, ocorrida em março, tende a ampliar a concorrência ao longo dos próximos meses, ainda que a entrada de novos produtos dependa de registros, definições de preços e decisões comerciais das empresas, sem garantia de disponibilidade imediata ou redução automática dos valores pagos pelos consumidores. 

Outro ponto relevante está na abrangência geográfica. Conforme a tabulação realizada pela Tendências, as vendas dos medicamentos selecionados aparecem em todas as Unidades da Federação, embora com intensidades bastante diferentes. 

Em termos absolutos, o Estado de São Paulo lidera a quantidade vendida de medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida, resultado compatível com o tamanho do mercado consumidor local. Após o ajuste pela população, a leitura muda: a maior quantidade registrada por mil habitantes aparece no Distrito Federal, seguido por São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Santa Catarina e Rio Grande do Sul ocupam, respectivamente, a quinta e a sexta posições. Minas Gerais, Goiás, Paraná e Sergipe completam a lista das dez unidades da Federação com maior volume registrado por mil habitantes. 

Participação regional nas vendas registradas de canetas emagrecedoras  
em junho de 2026 

Fonte: Anvisa. Elaboração: Tendências Consultoria. 

Nota: As informações correspondem às vendas registradas em farmácias e drogarias privadas sujeitas à escrituração no SNGPC. O indicador não representa número de usuários. 

A diferença entre o volume total e as vendas registradas por habitante recomenda uma investigação sobre fatores como renda, acesso, perfil demográfico, oferta médica, presença de farmácias e inserção nos mercados privados de saúde e bem-estar. A base isolada, porém, não permite mensurar a contribuição individual de cada elemento. 

O perfil dos registros também chama atenção. As mulheres predominam entre as observações com sexo informado, enquanto os homens respondem por cerca de 35% dos registros válidos, em média, no Brasil. A distribuição etária apresenta maior concentração na população adulta acima de 40 anos.  

Diante das evidências de impactos em vários segmentos do consumo, as questões ficam ainda mais relevantes: caso as vendas continuem avançando, quais efeitos poderão emergir ou se aprofundar sobre o comportamento do consumidor diante das diferenças de renda, endividamento e poder de compra? Há espaço para mudanças mais significativas na demanda por alimentos, bebidas, vestuário, calçados e segmentos ligados à saúde? As diferenças estaduais, combinadas com as características socioeconômicas locais, podem ajudar a selecionar regiões para um monitoramento mais próximo? 

Em alguns casos, os efeitos podem ser diretos; em outros, mais sutis, com alterações na composição das cestas de consumo, na recorrência das compras ou na percepção de valor de determinados produtos. 

O fenômeno é recente, e as limitações dos dados ainda impedem conclusões definitivas. Ainda assim, a tendência que se apresenta abre espaço para análises mais aprofundadas sobre relações com o cenário econômico, e em especial sobre impactos setoriais, além do setor farmacêutico.  

Na Tendências, continuamos aprofundando a agenda dedicada à compreensão de mudanças comportamentais no consumo das famílias e de suas relações com indicadores e setores econômicos. 

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