Saiba tudo o que rolou na nossa live sobre impactos do acordo entre União Europeia e Mercosul
- Análise setorial e regional Macroeconomia e política
- 04/03/2026
- Tendências
O Conselho Europeu aprovou, em 9 de janeiro de 2026, o acordo entre União Europeia e Mercosul. No entanto, a avaliação do Parlamento Europeu sobre a necessidade de revisão do tratado pelo Tribunal de Justiça do bloco impede sua implementação imediata.
Além de compreender as etapas de validação dos textos nas diferentes esferas legais e os potenciais prazos envolvidos nesse processo, também é fundamental analisar o cronograma de desgravação tarifária em diversos segmentos. Da mesma forma, é necessário avaliar os efeitos das cotas comerciais para derivar os possíveis impactos setoriais e econômicos para o Brasil.
Com o objetivo de analisar os efeitos que o acordo pode gerar no comércio entre os blocos – e, especialmente, para a economia brasileira -, a Tendências realizou uma live exclusiva no dia 25 de fevereiro de 2026, às 9h.
Participaram da apresentação Alessandra Ribeiro, sócia e diretora da área de Macroeconomia e Análise Setorial da Tendências; Rafael Cortez, sócio responsável pela análise de risco político da Tendências; Walter de Vitto, sócio da Tendências; e Thiago Xavier, consultor da Tendências.
Confira neste artigo os principais insights compartilhados por nossos especialistas.
Acordo União Europeia-Mercosul
O timing político europeu é um elemento central para a aprovação do acordo. Atualmente, três cenários são considerados possíveis:
- Cenário básico: a Comissão Europeia consegue apoio político para acelerar a implementação do acordo, considerando os desafios de crescimento enfrentados pelo bloco. Nesse caso, o acordo entraria em vigor em 2028.
- Cenário otimista: segue premissas semelhantes às do cenário básico, mas com maior avanço da Comissão Europeia no processo de integração comercial. Também prevê entrada em vigor em 2028.
- Cenário pessimista: a Comissão Europeia não consegue força política suficiente para acelerar o processo. Nesse cenário, o Parlamento Europeu não votaria o acordo no ciclo atual. Ainda assim, disputas geopolíticas envolvendo Estados Unidos e China poderiam gerar apoio no médio prazo, levando o acordo a entrar em vigor apenas em 2030.
Aspectos econômicos
O acordo prevê um período de implementação de 15 anos. Ainda assim, é importante observar que, já no primeiro ano de vigência – especialmente na União Europeia -, cerca de 54% da cobertura de produtos incluídos no acordo passariam a sofrer mudanças tarifárias.
Dessa forma, apesar de o cronograma completo se estender por 15 anos, empresas que acompanham de perto seus mercados precisam observar atentamente como o acordo está sendo estruturado e quais mudanças podem ocorrer já nas fases iniciais.
No caso do Mercosul, no primeiro ano de vigência a cobertura de produtos com redução tarifária seria menor, alcançando cerca de 11% da pauta comercial. A mudança mais expressiva ocorreria entre o 8º e o 10º ano, quando a cobertura avançaria de aproximadamente 45% para mais de 80%.
Ao final do período de implementação, em ambos os blocos, os níveis de cobertura superariam 90% da pauta comercial, indicando um grau elevado de abertura tarifária entre as duas regiões.
Principais mudanças tarifárias
Antes do acordo, as tarifas aplicadas pela União Europeia eram consideradas estimadas, pois dependiam do volume de importações – ou seja, não se tratava de uma tarifa fixa, seu valor variava conforme a quantidade exportada.
Com o acordo entre União Europeia e Mercosul, o sistema passaria a ser mais claro e previsível, com tarifas explicitamente definidas. Na prática, seriam estabelecidas duas tarifas distintas: uma aplicada dentro das cotas e outra fora delas.
O acordo afeta tanto o custo dos insumos quanto o custo dos investimentos. Os estudos já divulgados consideram o horizonte completo de implementação, ao longo dos 15 anos previstos.
De forma geral, esses estudos apontam para uma conclusão semelhante: no nível agregado, o impacto para o Brasil seria da ordem de 0,5% do PIB. Isso significa que, ao final do período de implementação, o PIB brasileiro seria cerca de 0,5% maior do que na hipótese de ausência do acordo.
Além disso, as análises indicam que investimentos, exportações e importações tenderiam a crescer em ritmo superior ao do próprio PIB.
Impactos do acordo para a economia global
Embora o acordo preveja um cronograma gradual de redução tarifária ao longo do tempo, os impactos sobre o PIB agregado do Brasil também devem ocorrer de forma gradual, ano após ano. Ou seja, não se espera um momento específico em que haja uma mudança abrupta nos efeitos sobre a atividade econômica.
No caso da União Europeia, também é esperado um impacto positivo sobre o PIB. No entanto, os estudos indicam que esse efeito seria menor em termos relativos quando comparado ao impacto estimado para o Mercosul – e, sobretudo, para o Brasil -, ainda que permaneça positivo.
Síntese setorial
Entre os setores que tendem a se beneficiar mais diretamente do acordo estão agropecuária, petróleo e mineração.
Por outro lado, alguns segmentos podem enfrentar maiores desafios competitivos, como veículos, têxteis, farmacêuticos, bens de capital, maquinários e eletrônicos.
Ainda assim, existem exceções importantes. Mesmo dentro de setores potencialmente mais pressionados, como o de bens de capital, há nichos específicos com empresas dinâmicas e bem posicionadas, que podem aproveitar a maior abertura comercial para expandir mercados.
Análise setorial
Mineração e metalurgia
O saldo comercial brasileiro é positivo para minérios de ferro e aço, sendo o ferro-gusa o principal item dentro desse grupo. Por outro lado, é negativo para máquinas e equipamentos.
O acordo abre uma oportunidade relevante de diversificação de mercados para o setor de mineração. Para a siderurgia, os efeitos tendem a ser mais limitados, em linha com a forte competitividade do aço produzido na China.
Para atender ao Critical Raw Materials Act (CRMA), empresas brasileiras deverão avançar em compromissos relacionados à transparência das cadeias de suprimento e à adoção de práticas sustentáveis.
Apesar da previsão de eliminação das tarifas de importação de aço, a União Europeia poderá aplicar medidas de salvaguarda. No caso dos minerais críticos, o Brasil poderá impor restrições à exportação de materiais brutos, com o objetivo de estimular maior agregação de valor na cadeia produtiva.
Além disso, tarifas de até 25% poderão ser aplicadas sobre exportações de minerais críticos, sendo que a União Europeia estaria sujeita a uma taxa menor em comparação a outros países.
Bens de capital
O acordo deve provocar mudanças significativas nas tarifas de importação de máquinas e equipamentos (M&E) no Brasil, que devem cair de uma média de 12% para 0% em até 10 anos.
Ao mesmo tempo, a União Europeia eliminará tarifas sobre praticamente todos os bens industriais brasileiros – incluindo máquinas e equipamentos – também em até 10 anos. Vale destacar, porém, que essas tarifas já eram relativamente mais baixas antes do acordo.
Químicos e farmacêuticos
A União Europeia é atualmente a principal origem dos produtos farmacêuticos importados pelo Brasil.
No segmento de produtos químicos, contudo, o bloco europeu vem perdendo espaço diante da crescente concorrência de países como China e Estados Unidos.
No caso de adubos e fertilizantes, a participação europeia nas importações brasileiras é relativamente baixa, de cerca de 4%. As compras brasileiras concentram-se principalmente em Rússia, países africanos, Oriente Médio e Ásia.
Automotivo
Os setores industriais devem enfrentar maior competição com empresas europeias. Ainda assim, a análise aponta que é possível extrair ganhos a partir de características específicas do mercado brasileiro.
A taxa de motorização no Brasil ainda é baixa fora das regiões Sudeste e Sul, o que indica um potencial relevante de expansão regional nas vendas de veículos no país.
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