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Reforma tributária como agenda do CEO – O Estado de S. Paulo

Com a reforma tributária, estão em jogo modelos de negócio sob outra lógica tributária e um ambiente de incentivos distinto

Por Ernesto Guedes* e Mário Nazzari Westrup**

A reforma tributária brasileira inaugura uma mudança que ultrapassa a técnica de apuração de tributos e alcança o núcleo das decisões empresariais. Com a substituição de um sistema marcado por cumulatividade, resíduos fiscais e incentivos fragmentados por um modelo de não cumulatividade ampla, altera-se a forma como preços são formados, contratos são estruturados e margens são sustentadas.

O impacto não se restringe às áreas fiscal e contábil. Ele redefine premissas econômicas que orientam planejamento estratégico, investimentos e posicionamento competitivo. A reforma deixa, portanto, de ser tema de compliance e passa a integrar a agenda da alta administração. Não está em jogo apenas a adequação a novas regras, mas a revisão de modelos de negócio concebidos sob outra lógica tributária e sob um ambiente de incentivos distinto.

Cadeias produtivas, políticas comerciais, estratégias de verticalização ou terceirização e decisões de localização passam a operar sob novos incentivos. O custo de ignorar essa transformação não aparece somente em penalidades imediatas, mas em perda gradual de eficiência relativa diante de concorrentes mais ágeis na adaptação. O período de transição, no qual sistemas antigo e novo coexistem, amplia assimetrias temporárias e torna o timing das decisões um fator competitivo relevante.

O papel do CEO desloca-se da supervisão operacional para a coordenação de uma transição estrutural. Não se trata de transformá-lo em especialista tributário, mas de reconhecer que variáveis fiscais passam a influenciar diretamente decisões estratégicas tradicionalmente associadas a finanças e operações. Paralelamente, cabe ao conselho de administração assegurar que essa transição esteja integrada à gestão de riscos, à alocação de capital e à preservação do valor de longo prazo.

A discussão tributária deixa de ser periférica e passa a compor o debate de governança corporativa. Ignorar essa dimensão significa tratar como detalhe técnico uma mudança que redefine incentivos estruturais e reposiciona vantagens competitivas.

A transformação provocada pela reforma não reside apenas na simplificação de tributos, mas na reconfiguração dos incentivos que orientam decisões empresariais. Para a liderança executiva e os conselhos, o desafio é tratá-la como variável permanente de estratégia.

O sucesso dependerá menos da letra da lei e mais da capacidade das organizações de internalizar, de forma coordenada e consistente, a nova lógica econômica apresentada pela reforma.

*Ernesto Guedes é economista, sócio-diretor da Tendências Consultoria

**Mário Nazzari Westrup é contador, consultor da Tendências Consultoria

Reprodução. Confira o original clicando aqui!