Quais os impactos do novo tarifaço norte-americano para o Brasil? – BandNews TV
- Na Mídia
- 09/06/2026
- Tendências
Em participação no programa Economia Pra Você, da BandNews TV, a sócia e diretora de Macroeconomia e Análise Setorial da Tendências, Alessandra Ribeiro, falou sobre os temas do momento, como os potenciais impactos do novo tarifaço dos Estados Unidos para o Brasil, a guerra no Oriente Médio e, diante do contexto eleitoral, os caminhos necessários para a economia nacional ter condições de sustentar um crescimento econômico significativo e sustentável para proporcionar uma melhor situação de bem-estar aos brasileiros
A ameaça de tarifaço pode colocar o Brasil entre os países com maior nível de tarifas para importação nos Estados Unidos. Segundo a Câmara Americana de Comércio, além da barreira de 25% proposta na investigação específica para o Brasil, há uma outra de 12,5% envolvendo 60 países acusados de práticas de trabalho forçado.
Tarifaço dos Estados Unidos
Ao ser questionada sobre qual é a estratégia do governo americano quando coloca o mundo todo contra a parede com o tarifaço, Alessandra concorda com a ideia de que é pragmatismo mesmo, porque a discussão tem que ser técnica e ser separada de toda a parte política e inflamada, porque, lá nos Estados Unidos, sabemos que o governo Trump está enfrentando uma questão de popularidade e, aqui no Brasil, nós estamos também no meio de um contexto eleitoral.
Pensando nos aspectos técnicos, Alessandra acredita que a ideia por trás do governo americano quando usa agora o tarifaço para forçar os países é a de criar uma negociação que seja interessante para os Estados Unidos do ponto de vista de comércio.
Pensando na relação entre Brasil e Estados Unidos, o ideal, para Alessandra, é buscar uma posição equilibrada, observando o que eles precisam e o que eles ganham com isso, mas também o que o Brasil ganha. Essa negociação tem que ser muito bem pensada, para que não nos tornemos um espaço de exploração pelos Estados Unidos, sem maiores benefícios para a nossa economia.
Sobre o quanto essa guerra comercial já impactou setorialmente aqui no Brasil, Alessandra diz que o efeito é realmente bem moderado de maneira agregada, mas existem segmentos que permaneceram com tarifas pesadas.
Temos casos de redução importante de exportação nesses segmentos – e, para alguns deles, o mercado americano é muito relevante –, trazendo consequências negativas para a produção e, obviamente, para o emprego naquele segmento específico.
Alessandra destaca o acordo entre a União Europeia e o Mercosul como um ponto bem importante de evolução da agenda comercial. E, nesse contexto geopolítico, a própria postura americana em relação ao resto do mundo, inclusive aos seus principais parceiros comerciais, também foi um incentivo importante.
É uma agenda importante para essa abertura do país ao comércio internacional, para termos acesso a produtos de melhor qualidade, mais baratos e produtos com tecnologia, além de podermos realmente ter uma inserção maior nas nossas cadeias e ter os efeitos positivos disso.
Alessandra diz que essas agendas de acordos são muito positivas. Além do acordo entre União Europeia e o Mercosul, houve também um acordo mirando uma outra área europeia, de países que não estão na comunidade. E tem espaço para avanço com outros países relevantes. Para o Brasil, é uma grande agenda de inserção, de competição e de modernização.
Cenário doméstico
Em um cenário de guerras e inflações globais, Alessandra diz que esse contexto global tem nos favorecido, porque o Brasil tem uma posição estratégica interessante, do ponto de vista geopolítico, distante de conflitos, além de ser um país produtor de commodities – e commodities relevantes –, como petróleo, alimentos e minério de ferro.
Ao mesmo tempo, vemos os investidores também muito receosos em relação aos Estados Unidos e aos investimentos por lá. Eles estão buscando também alguma diversificação.
Em termos de PIB e de não ter, apesar de todo esse contexto, muitas revisões, o que a Tendências tem observado também, é que o governo, paralelamente, tem anunciado muitas medidas de suporte à demanda, tanto ao consumo das famílias quanto aos investimentos. Essas medidas já estão fazendo efeito e ajudando também a segurar a economia.
Quando a Tendências observa este ano e, principalmente, o próximo, está esperando uma desaceleração mais cíclica, mas uma economia que vai perder tração. E aí a grande questão é como essa economia volta a crescer. Olhando mais o médio prazo, o cenário da Tendências é de uma economia que consegue crescer entre 2,5% e 2,8%.
Alessandra diz que uma economia, para as nossas necessidades, inclusive sociais, precisaria crescer num ritmo mais acelerado, sem gerar inflação, claro, e com taxas de juros razoáveis.
Mas, para chegarmos nesse nível de crescimento, ainda precisamos fazer lições de casa grandes. A primeira é uma reforma fiscal, porque temos que ter as contas públicas em ordem e sustentáveis. Esse é o grande guarda-chuva, porque às vezes não adianta fazer grandes reformas se você não tem o guarda-chuva macroeconômico em ordem. E o pilar fiscal é um pilar central.
Sobre programas como o Desenrola 2.0, o Move Brasil, o Move Rural, o Move Aplicativos, a própria ampliação do Minha Casa, Minha Vida, a questão é que, no momento em que estamos está vivendo na economia, inclusive com um Banco Central que está lutando para tentar trazer essa inflação para patamares mais baixos, são medidas que têm seu mérito, sem sombra de dúvida, mas fazê-las agora significa ir na direção contrária do trabalho que o Banco Central está fazendo.
Esses programas mantêm a demanda aquecida, mas dificultam, do outro lado, a vida do Banco Central de esfriar a economia para trazer a inflação para patamares mais baixos.
Confira a entrevista na íntegra no vídeo abaixo!