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Com juro alto, Tesouro cancela leilão – O Estado de S. Paulo

Órgão segura venda de NTN-B, atrelada à inflação; decisão indica preocupação com aumento de taxas pedidas por investidores para compra do papel, dizem analistas

O Tesouro Nacional anunciou nesta segunda-feira, 22, ter cancelado o leilão tradicional de venda de Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B) — aquelas atrelados à inflação — previsto para a terça-feira, 23. Na visão dos especialistas consultados pelo Estadão/Broadcast, a medida reflete a estratégia do órgão de não referendar taxas excessivamente elevadas em um momento de estresse na curva de juros.

Nas últimas semanas, as taxas exigidas pelos investidores têm aumentado, dada a incerteza com o futuro da economia local, sobretudo na parte fiscal, e o cenário externo mais difícil, depois das sinalizações mais duras do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) no combate à inflação.

Com a decisão de cancelar o leilão, o Tesouro Nacional tenta preservar o custo de financiamento da dívida pública e evitar emissões em condições consideradas desfavoráveis pelo mercado, avaliam os especialistas.

“No fundo, estamos vendo um cenário se complicando. O Tesouro está tendo de se financiar com taxas mais elevadas, e isso vai deixando um legado bem difícil e delicado da dinâmica da dívida para os próximos anos”, afirma Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria. “Nesse momento, o Tesouro está tentando mostrar que, ao menos por ora, não vai sancionar essas taxas bastante elevadas.”

A combinação de um cenário interno e externo mais difícil levou os investidores a exigir taxa real (descontada a inflação) acima de 8% para títulos públicos com prazo de vencimento de seis anos, por exemplo. Nos títulos com prazo maior de vencimento, os juros também já se aproximam desse nível. “São, talvez, os maiores da série histórica”, afirma Silvio.

Na manhã desta segunda-feira, por volta de 10h30 (de Brasília), o Tesouro IPCA+ 2032 chegou a pagar 8,56% de juro real ao ano ao investidor, o maior nível de retorno desde que o ativo começou a ser negociado. Os títulos com vencimento em 2040 foram negociados a IPCA + 7,54% ao ano, enquanto os de 2050 pagam 7,18% de juro real ao ano.

Perto do fechamento, as taxas já haviam neutralizado parte do movimento. A taxa real do Tesouro IPCA+ 2032 caiu a 8,45% ao ano, enquanto os vencimentos de 2040 e 2050 fecharam em 7,48% e 7,15% de retorno real anual, respectivamente.

Em março, o Tesouro também cancelou parte dos leilões de títulos públicos. Na ocasião, anunciou uma intervenção no mercado de dívida com operações de compra e venda de papéis.

“O Tesouro não vai aceitar carimbar taxa em um momento de estresse técnico, prefere preservar o custo de financiamento da dívida pública e aguardar o mercado encontrar um novo equilíbrio”, afirmou o economista-chefe da MA7 Negócios, Vinicius Prado. Segundo ele, a medida segue a mesma lógica adotada em março, quando a equipe econômica reduziu lotes e suspendeu leilões diante da abertura abrupta da curva de juros.

Também Fábio Murad, sócio-fundador da Ipê Avaliações, vê a decisão como uma forma de evitar emissões em condições desfavoráveis. “Quando o Tesouro reduz volumes ou cancela um leilão, especialmente de NTN-B, o sinal principal é de que não está disposto a validar qualquer prêmio exigido pelo mercado em um dia de maior volatilidade”, afirmou.

‘Uma janela ruim de mercado’

Segundo Murad, a medida ajuda a proteger a curva de juros e evita emissões a taxas consideradas excessivas. Para o especialista, a sequência observada nas últimas semanas, de lotes mínimos para o cancelamento do leilão, mostra que “a percepção de custo ficou mais sensível e que o Tesouro preferiu preservar preço a forçar colocação”.

Na mesma linha, o assessor de investimentos da Fami Capital, Otávio Barros, afirmou que o Tesouro busca evitar que uma emissão realizada em condições adversas se transforme em referência para o restante da curva. “Quando o Tesouro reduz lotes e, em seguida, cancela uma oferta de NTN-B, evita transformar uma janela ruim de mercado em referência permanente para a curva”, disse.

Segundo Barros, uma emissão a taxas muito elevadas poderia contaminar outros vencimentos. “Se o Tesouro aceita emitir em condições muito penalizadas, isso pode contaminar os preços dos demais vértices. Ao cancelar, ele preserva poder de negociação e sinaliza que prefere esperar uma janela mais equilibrada”, acrescentou.

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