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Rafael Cortez analisa Lula, dosimetria e cenário político – RedeTV!

No RedeTV! Notícias – Primeira Edição, o comentarista político Rafael Cortez analisa a derrubada do veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à dosimetria das penas, a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF e os impactos dessas derrotas para a governabilidade do governo no Congresso.

Dosimetria

A maioria de centro-direita do Legislativo há um bom tempo tem basicamente feito política a partir da questão da dosimetria, explica Cortez. A defesa dessa tese de que, em 8 de janeiro, foram definidas penas muito pesadas e que, portanto, precisaria haver uma revisão delas é um tema em que a centro-direita investiu do ponto de vista político.

A partir da derrota da indicação de Jorge Messias por Lula para o STF, aparentemente entrou uma outra coisa no jogo: o bloqueio do avanço de uma possível CPI em relação ao caso Master.

Cortez explica que o resultado da votação vem muito da polarização entre esquerda e direita: a esquerda precisa governar, mas precisa também de algum apoio da centro-direita, senão não consegue passar nada. Ao contrário, não é verdadeiro. Se a centro-direita quiser derrubar e quiser aprovar alguma matéria, ela não precisa da esquerda. O presidente Lula é a “vítima” dessa disputa e precisa fazer acordos se quiser ter mais governabilidade.

A governabilidade é um problema que tem difícil resolução, porque uma parte da base vai jogar contra a campanha de reeleição do presidente Lula, explica Cortez. Esse susto que o governo tomou com a derrota na sua indicação para o Supremo Tribunal Federal é, em alguma medida, um susto maior, de que ele pode estar com menos apoio em ano eleitoral.

Tópicos de discurso para campanha eleitoral

O primeiro tópico, para Cortez, com base no discurso de Lula no Dia do Trabalhador, seria uma luta entre os mais pobres e a elite, mobilizando os mais pobres, os trabalhadores e, nesse sentido, olhando a elite com uma certa desconfiança, nesse jogo que sempre favoreceu e sempre foi muito positivo do ponto de vista eleitoral.

Um segundo tópico seria a dimensão religiosa do discurso. Quando Lula faz essas citações, se coloca como um homem de fé. E tem muito a ver com ele, não pela primeira vez em discurso, mas justamente tentando alinhar e fazendo um discurso que pega justamente os pontos frágeis da campanha de reeleição. Esse eleitorado dito mais conservador é um deles. Também há uma tentativa de mobilizar apoio para teses que são de maioria, mas que não necessariamente têm impacto no Legislativo.

O discurso de Lula no Dia do Trabalhador, para Cortez, tem muito a cara de eleição e ataca os pontos frágeis que o governo vê em sua campanha. 

Dificuldades do governo atual nas próximas eleições

Cortez diz que as pesquisas são um ótimo radar para entendermos quais são as principais dificuldades de Lula na campanha para a reeleição.

Se pegarmos como exemplo Lula versus Flávio Bolsonaro, existem várias quebras. Lula vai muito melhor entre mulheres do que entre homens, vai melhor entre quem se diz católico do que entre quem se diz evangélico, vai pior entre os mais ricos… São quebras que explicitam suas vulnerabilidades.

Existem também aqueles eleitores que sistematicamente estão tendo dificuldade de votar, não só em Lula, mas, na esquerda. O que parece central para Cortez é a questão dos conservadores.

Cortez explica que, se voltássemos para 2014, por exemplo, basicamente ele diria algo como: “Ó, é só uma questão de renda. Mais pobre tende a votar no PT, mais rico tende a votar no PSDB.” Hoje, Cortez diz que não dá mais para fazer isso. Existem muitas quebras importantes que dividem esquerda e direita. E uma dessas quebras que chamam mais atenção é a religiosa.

Citando novamente 2014 como exemplo, católicos, evangélicos e pessoas de outras filiações religiosas pensavam política de maneira muito parecida. Hoje não pensam mais.

Por alguma razão, católicos tendem a ficar mais próximos ao governo Lula, evangélicos mais próximos à oposição. Então, essa mistura entre política e religião tem sido uma marca da nossa sociedade.

E foi por isso que, de acordo com Cortez, Lula tentou, ao longo da sua fala no 1º de maio, fazer algum tipo de sinal para esse eleitor. Referências a Deus, a um homem de fé… Tem muito a ver com essa principal vulnerabilidade.

Existe outra quebra que está um pouco escondida e Cortez acredita ser mais difícil de o governo resolver, que é a vulnerabilidade em relação à classe média.

Cortez explica que existe um um discurso muito forte hoje contra o Estado, numa ideia de que ele atrapalha a vida do indivíduo. O Estado cobra imposto, o imposto não é bem utilizado e isso atravancaria o desenvolvimento das pessoas.

Com essas mudanças no mercado de trabalho e a sociedade cada vez mais com mercados informais, com jornadas de trabalho ou modelos de trabalho variados, cada vez mais esse sentimento anti Estado foi ficando mais forte, principalmente nesta classe média que não se sente contemplada com as ações do governo.

É um tipo de eleitor e eleitora que paga imposto, mas provavelmente também paga plano de saúde porque não acessa o SUS, coloca os filhos numa escola particular, vai ao dentista particular, gasta um monte com alimentação…

Então, para esse discurso de classe média, tem cada vez mais uma ideia de que o Estado é ruim. Isso, de alguma maneira, é contrário ao discurso do PT, explica Cortez.

Outra vulnerabilidade que também está presente nas pesquisas é a ideia do governo Lula, que, para além do governo dos pobres, ainda não ganhou a devida tração.

Então, por mais que o presidente Lula tente colocar panos quentes em ano eleitoral, principalmente com as derrotas que vem sofrendo no Senado e com uma disputa muito apertada para presidente, a tendência é que a gente veja, pelo menos no tocante à esquerda versus direita, muita polarização ainda em 2026.

Benefícios do acordo entre Mercosul e União Europeia

O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia começou a ser aplicado provisoriamente, depois de mais de duas décadas de negociações. A implementação é gradual, só que já tem efeitos imediatos sobre as exportações brasileiras.

Segundo a Confederação Nacional da Indústria, mais de 80% dos produtos enviados pelo Brasil ao bloco europeu passam a ter tarifa de importação zerada já nessa etapa inicial.

E o Brasil, embora seja o principal beneficiado, concentrando mais de 80% do comércio do Mercosul com a União Europeia e tenha papel central nas negociações, isso não necessariamente se traduz em ganhos entre setores e regiões do país.

Como o Brasil se beneficia desse acordo que está em discussão por diversas maneiras, diversos canais?

Começando pelo benefício que mais interessa, que é o benefício para nós que somos consumidores, Cortez diz que a tendência é que tenhamos produtos mais baratos, porque são produtos que agora, quando importados, eventualmente não irão pagar tributo. Isso acaba afetando o preço final ao consumidor.

A primeira boa notícia, se tudo seguir mais constante, é a tendência de que tenhamos uma menor inflação, sobretudo naqueles produtos que costumamos importar da Europa, explica Cortez.

O segundo ponto, mais para os negócios, sobretudo para a indústria, é que ela tem agora um canal de exportação, com tributos mais baratos e que, em tese, aumenta a competitividade do produto brasileiro quando exportado. E esse efeito, para a indústria, é ainda mais importante por conta do momento em que estamos vivendo, de economias cada vez mais fechadas e, sobretudo, de um contexto marcado por um Estados Unidos muito protecionista. 

Durante o tarifaço de Trump, os produtos brasileiros ficaram prejudicados. Dado esse cenário difícil com os Estados Unidos, se o Brasil conseguir escoar essa produção que iria para os Estados Unidos para outros lugares, tanto melhor. Temos agora um novo espaço livre de impostos de importação que pode ir para a Europa.

Outro lugar em que também ganhamos com o acordo entre Mercosul e União Europeia é na troca de produtividade. Aumenta a eficiência e, aumentando a produtividade, há mais renda disponível.

Para Cortez, é um acordo histórico e que saiu num momento em que o mundo está todo barulhento.

Confira a participação completa de Rafael Cortez no vídeo abaixo!