A conta da transição verde e o capital privado – Exame
- Na Mídia
- 09/05/2026
- Tendências
Setor privado será responsável por US$ 500 a US$ 600 bilhões por ano das captações para a transição energética até 2030
Por Mariana Palandi Medeiros Pacheco*, João Pedro Viegas de Moraes Leme** e Giuliana de Souza Folego***
Segundo o relatório Global Outlook on Financing for Sustainable Development 2025, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), serão necessários cerca de US$ 6 trilhões até 2030 para financiar a transição energética nos países em desenvolvimento. Desse total, entre US$ 500 bilhões e US$ 600 bilhões por ano deverão ser captados junto ao setor privado.
No caso brasileiro, a necessidade de mobilização de recursos privados é ainda mais evidente. A situação fiscal recente do país — marcada por 10 déficits primários nos últimos 11 anos e por um aumento acumulado de 21,5 pontos percentuais na Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) no mesmo período — indica que a transição dificilmente prosperará se depender predominantemente de recursos públicos. Isso não significa, contudo, a ausência de protagonismo estatal.
Ao Estado cabe, por exemplo, a coordenação da agenda e de expectativas, por meio da redução de incertezas regulatórias e da criação de instrumentos que tornem o investimento verde mensurável, comparável e atrativo, ampliando a previsibilidade e estimulando a alocação eficiente de capital.
No Brasil, essa mobilização tem ocorrido por meio de diferentes instrumentos voltados a estimular a participação do capital privado, como títulos temáticos no mercado de capitais (como os green e blue bonds), debêntures incentivadas para financiamento de infraestrutura, linhas de crédito verde no sistema bancário, estruturas de blended finance e modelos de concessão voltados ao uso sustentável de recursos naturais, como as concessões florestais.
Entre os instrumentos de mercado, os green bonds — títulos de dívida destinados ao financiamento de projetos com impacto ambiental positivo — têm apresentado forte expansão. Até o primeiro semestre de 2025, o estoque global de sustainable bonds alcançou US$ 6,2 trilhões. No Brasil, essa dinâmica também se reflete nas emissões soberanas sustentáveis realizadas no âmbito do Arcabouço Brasileiro para Títulos Soberanos Sustentáveis.
Desde 2023, foram realizadas duas emissões, totalizando US$ 4 bilhões captados. Segundo o Relatório de Alocação e Impacto de 2025, a primeira emissão encontra-se integralmente alocada, com 60% destinados a despesas ambientais e 40% a despesas sociais. Já a segunda emissão apresenta 65,2% dos recursos alocados, sendo 25,2% em despesas ambientais e 40% em despesas sociais, com destaque para projetos de energia renovável, conservação e gestão sustentável do uso da terra.
Um exemplo do avanço dos instrumentos temáticos ocorreu em fevereiro de 2026, quando a Sabesp realizou a maior captação global já feita por meio de blue bonds, no valor de US$ 1,35 bilhão, reforçando o papel do mercado de capitais no financiamento de projetos ligados a segurança hídrica e saneamento, bem como consolidando o Brasil como emissor relevante em finanças sustentáveis.
O setor bancário também tem ampliado a oferta de crédito verde com produtos voltados à eficiência energética, energias renováveis e práticas sustentáveis no agronegócio, como CDB Verde e LCA Verde. A incorporação de critérios ESG nas carteiras de crédito reforça a tendência de alinhamento entre o sistema financeiro e as metas de descarbonização, contribuindo para a redução de riscos e para uma melhor precificação de ativos sustentáveis.
Além disso, estruturas de blended finance têm sido utilizadas para combinar recursos públicos, multilaterais e privados, mitigando riscos e viabilizando projetos estruturantes. Um exemplo é a operação do BNDES no apoio à Belterra Agroflorestas, que envolveu R$ 100 milhões do banco, combinados com R$ 20 milhões do Amazon Biodiversity Fund e garantias do Fundo Vale. A estrutura híbrida permitiu ampliar o financiamento para a expansão de sistemas agroflorestais na Amazônia, ilustrando como a atuação pública pode funcionar como catalisador — e não substituto — do investimento privado.
Outro instrumento relevante são as concessões florestais, pelas quais o governo concede a empresas ou comunidades o direito de manejar áreas de floresta pública por prazo determinado, com o objetivo de promover uso econômico sustentável, geração de renda e redução do desmatamento ilegal. No âmbito do Projeto Gestão Florestal para a Produção Sustentável na Amazônia, coordenado pelo Serviço Florestal Brasileiro, há um pipeline que inclui 12 glebas e 2 Florestas Nacionais estruturadas para concessão, atraindo investimentos para manejo sustentável e conciliando conservação ambiental, geração de receita e desenvolvimento regional.
Estes são apenas alguns exemplos de iniciativas que consolidam o capital privado como catalisador da transição para uma economia de baixo carbono. No entanto, seu alcance dependerá da sinergia entre expansão das fontes privadas de financiamento e capacidade de articulação governamental. Quando o Estado atua na redução de incertezas, no fortalecimento institucional e na criação de instrumentos financeiros adequados, o mercado responde com inovação, escala e diversificação das fontes de recursos.
*Mariana Palandi Medeiros Pacheco é consultora da Tendências Consultoria. É Mestre em Administração pelo Insper e Bacharel em Ciências Econômicas pela PUC-SP
**João Pedro Viegas de Moraes Leme é consultor da Tendências Consultoria. É economista pela FEA-USP e advogado pela FD-USP
***Giuliana de Souza Folego é analista da Tendências Consultoria. É graduada em Ciências Econômicas pela Unicamp
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