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Precisaremos tomar decisões amargas em breve: Silvio Campos Neto na Conversa com Zé Márcio – Genial Investimentos

Em conversa com Zé Márcio, da Genial Investimentos, Silvio Campos Neto, sócio e economista-sênior da Tendências, aborda o cenário econômico atual e a necessidade de tomarmos decisões amargas em breve.

Conflito no Oriente Médio

Ao ser questionado sobre como está observando os efeitos da guerra, Campos Neto diz que esse tema só nos relembra que estamos em um ambiente de muita instabilidade geopolítica, por mais que as coisas nesse início de ano parecessem bem encaminhadas.

Campos Neto explica que, mesmo em períodos em que parece que as coisas estão mais calmas, eventualmente surge um fato novo como esse e nos mostra que, efetivamente, é um mundo mais complexo, que já vinha assim desde lá atrás, com o conflito Rússia-Ucrânia, o segundo mandato do Trump e várias questões envolvidas.

Ele pontua que é sempre muito difícil especular em relação à duração do conflito. Depende muito também de qual é o objetivo das forças que estão na ponta oposta do Irã – Israel e Estados Unidos –, se é simplesmente enfraquecer o poder militar do Irã, especialmente na questão do risco de armas nucleares, ou se o objetivo é uma mudança de regime. Nesse caso, fatalmente é algo que pode demandar um tempo muito maior, de acordo com Silvio Campos Neto. Tivemos o exemplo recente da Venezuela, onde Maduro foi removido, mas o regime permanece.

No caso do Irã, para que se mude o regime, teria que haver uma alternativa interna com força, uma liderança local e isso não parece algo crível no curto prazo. Então, a princípio, Campos Neto aponta que esse estado de conflito pode ter uma duração mais prolongada. E, em termos de impactos, vai depender muito de como a região consegue lidar com o escoamento do petróleo.

Se continuar a dificuldade de exportações pelo estreito, claro que o risco é maior, os preços serão mais afetados, e isso traz implicações econômicas conhecidas: riscos inflacionários e maior dificuldade para os bancos centrais reduzirem juros, por exemplo. São várias questões em aberto e, por enquanto, o que nos resta é acompanhar e analisar a cada momento, ficando muito dependentes dos fatos novos.

Campos Neto diz que é uma situação difícil de antever, principalmente no curto prazo. E, pensando em cenários alternativos, o risco é muito assimétrico na direção de um cenário mais adverso. Se o objetivo for Estados Unidos ou Israel interferindo internamente na escolha de novos líderes do Irã, é uma situação bastante delicada, até porque é um regime que já tem quase 40 anos. Internamente já havia muitas pressões, inclusive com episódios recentes bastante repressivos. É difícil saber até onde isso pode ir. Um desfecho mais pessimista não pode ser descartado neste momento.

Cenário doméstico

Sobre qual é o espaço – e se há espaço – que a política monetária tem para reduzir a taxa de juros, mesmo com uma guerra que pode elevar o preço do petróleo, Campos Neto diz que, nas condições atuais, sem o conflito, tínhamos um espaço moderado de redução de juros.

A Tendências ainda não comprou a ideia de que o Banco Central, já em 2026, conseguirá reduzir de forma muito drástica a taxa básica, porque ainda existem muitas restrições do ponto de vista dos fundamentos. Isso se traduz em taxas de juros de mercado ainda muito pressionadas.

Campos Neto acredita que, no Brasil, comete-se talvez um exagero em focar demais nas decisões do Banco Central e olhar menos para as variáveis de mercado, especialmente a curva de juros.

Hoje, o Tesouro paga cerca de 7,5% reais para se financiar em cinco anos. Isso é um sinal claro de que os fundamentos não estão no lugar. Apesar de crescimento, desemprego baixo e inflação relativamente controlada, a situação fiscal não é sustentável. Isso se traduz em um custo de capital muito elevado, algo que não depende apenas do Banco Central.

Nesse contexto, o Banco Central não conseguiria reduzir substancialmente os juros com segurança, sem afetar negativamente expectativas e percepção de risco e sem uma melhora dos fundamentos, algo que só parece viável a partir do ano que vem, explica Campos Neto.

Antes do conflito, a Tendências via um espaço moderado, com um cenário de queda de 250 pontos-base da Selic, de 15% para 12,5%. A questão agora é: até que ponto o conflito muda esse cenário? Se a reunião fosse agora, talvez o Banco Central optasse por um início mais moderado, com corte de 25 pontos. A Tendências ainda espera que o início seja com 50 pontos, pela folga existente.

Há espaço para um avanço gradual, mas tudo depende de como o ambiente internacional evoluirá até a reunião: se o petróleo estabiliza, se o câmbio reage… Essas variáveis, que têm impacto inflacionário, devem definir o ritmo entre 25 e 50 pontos.

A Tendências segue com a expectativa de 50 pontos no início e uma queda total de 250 pontos ao longo do ano, ainda em um ritmo moderado, com cortes mais intensos apenas a partir do ano que vem.

Questão fiscal

De acordo com Silvio Campos Neto, a questão fiscal no Brasil tem várias dimensões, até mesmo com questões mais a longo prazo. Sabemos que as mudanças terão que ser muito mais profundas.

Pensando mais a curto e médio prazo – em um de 5 a 10 anos –, o fato é que o conjunto de regras que nós temos hoje do ponto de vista fiscal, não nos garante uma travessia nem pelos próximos 3 anos, pensando na relação dívida/PIB.

Pensando não só na relação dívida/PIB, que já está alta e com tendência de elevação ainda maior, temos também a dimensão da rigidez orçamentária. Hoje, o Brasil tem quase 95% do seu orçamento comprometido com despesas obrigatórias e restaurado algumas regras de aumento de despesas obrigatórias que tinham sido deixadas para trás e que voltaram no governo atual, como o ajuste no salário mínimo com base no PIB e a indexação de Saúde e Educação às receitas, por exemplo. São situações que, nesse quadro de extrema rigidez orçamentária, impedem qualquer tipo de ajuste, explica Campos Neto.

Ele ainda pontua que não chegaremos a 2027, talvez até mesmo 2028, sem mudança nessas regras. Sabemos que não é uma questão simples. Não é trivial por conta de todo o componente político por trás dessas medidas.

Então, o fato é: seja quem for o vencedor das eleições, se não apresentar algo minimamente crível de mudanças nessas regras já nessa transição de 2026 para 2027, o que devemos observar de novo é o que aconteceu lá em 2024, quando o mercado teve uma piora bastante pronunciada, mesmo no início de 2023 já também, do novo governo, quando depois veio o arcabouço. Ou seja, o mercado dá aquela estressada e aí o governo acaba sendo forçado, por bem ou por mal, a tomar algumas decisões.

Sobre o quão sustentável é essa relação atual de dívida/PIB de quase 80% do Brasil, Campos Neto diz que o ponto é o custo que existe hoje para financiar essa dívida gigantesca. É um custo que, sob qualquer cálculo que for feito com juro real, obviamente não é sustentável.

O erro cometido é comparar a dívida do Brasil com a de países desenvolvidos, como Estados Unidos e Japão, por exemplo. O correto, de acordo com Campos Neto, é se comparar com outros pares emergentes. E a média da dívida dos 30 principais emergentes do mundo é de 55% do PIB. Para Campos Neto, não é sustentável a dívida do Brasil de quase 80%. O custo da dívida mostra isso e o governo será  forçado, sim, a tomar decisões um pouco amargas muito em breve, independente da reeleição de Lula ou não.

Se isso será realmente o suficiente para reverter o quadro e criar um ambiente de mais tranquilidade ou uma expectativa mais positiva, Campos Neto ainda acredita ser muito duvidoso. Até porque sabemos muito bem do discurso, das preferências, das escolhas do governo atual, que inclusive reintroduziu as medidas mencionadas anteriormente e que pioraram substancialmente o quadro fiscal.

|O fato é: algumas medidas terão que ser tomadas e algumas delas não são agradáveis do ponto de vista da esquerda. Mas o quão ambicioso será esse conjunto de medidas é um pouco difícil de prever, de acordo com Campos Neto.

Ainda fica, sem dúvida, uma preocupação de que essas medidas não sejam suficientes e a gente passe por um período de percepção de risco realmente pior do que temos hoje, por exemplo.

Eleições de 2026

A visão da Tendências é um pouco mais do mesmo: um processo realmente muito equilibrado, como foi em 2022 e que é improvável que tenha algum sinal mais claro de favoritismo antes do processo.

A tendência é que a oposição vá se consolidando um pouco mais em torno do nome do Flávio Bolsonaro, adquirindo mais musculatura, sem dar espaço para uma terceira via, que realmente não tem margem de crescimento.

Mas, por ora, a Tendências atribui um ligeiro favoritismo ainda para a reeleição do presidente Lula. Claro que, quando alguns números são observados, isso reforça que esse favoritismo é muito pequeno, porque há um nível de desaprovação que, em quase todas as pesquisas, é mais alto do que o nível de aprovação. Num cenário como esse, naturalmente se abre um espaço grande para mudança.

Sobre a oposição não ter favoritismo, basicamente é pela rejeição, que não é pequena – na verdade é muito elevada – associada ao nome Bolsonaro. Então, no fundo, vai ser aquela batalha por uma menor rejeição.

Campos Neto explica que, ao longo do ano, o que se imagina é que o governo, que ainda tem o poder da caneta, da mídia e do marketing, tem coisas para apresentar à população em termos de medidas mais populares, como programas sociais e benefícios para baixa renda com luz e com gás, por exemplo.

Tudo isso vai fazer parte de uma campanha muito pesada de comunicação. Nesse sentido, a tendência é que o governo recupere um pouco de terreno ao longo do ano. Mas, de novo, não o suficiente para um amplo favoritismo. Talvez haja um ligeiro favoritismo, sem mudar o fato de que teremos uma eleição muito apertada, com algo como 51% a 49% para qualquer um dos lados.

Campos Neto pontua que há muitos temas não econômicos em jogo e não só no Brasil. Temos visto isso em vários países, como os Estados Unidos, onde a polarização está muito forte e outros temas acabam predominando.

No Brasil, há fatores importantes: o presidente Lula já tem um desgaste de imagem pela sua trajetória, e sempre houve uma parcela significativa da população alinhada ao antipetismo, algo em torno de 40%. Além disso, fatos recentes, como denúncias, escândalos, ampliaram essa rejeição.

Do ponto de vista econômico, apesar de desemprego baixo, renda crescendo e atividade razoável, passamos por um choque de preços muito forte nos últimos anos, não só no Brasil, mas globalmente. E mesmo com a inflação desacelerando, os preços não voltaram.  Ou seja, o nível de preços ainda está alto e isso continua pressionando o bolso das famílias.

Quando a gente olha indicadores de endividamento e comprometimento de renda, com juros ainda elevados, isso ajuda a explicar por que a percepção das famílias não é positiva. Então, apesar de alguma melhora, a situação ainda não está boa e isso se soma a fatores não econômicos.

Confira a entrevista na íntegra abaixo!