Saiba tudo o que rolou na nossa live sobre riscos geopolíticos e potenciais impactos para a economia brasileira
- Blog Macroeconomia e política
- 05/02/2026
- Tendências
Desde a ação na Venezuela no início do ano, o comportamento do governo dos Estados Unidos (EUA) tem contribuído para um aumento significativo da incerteza geopolítica internacional. Além de esse episódio poder legitimar iniciativas semelhantes por parte de outros países, como Rússia e China, o interesse explicitado pelos Estados Unidos em atuar em outras regiões – com destaque para a intenção de anexação da Groenlândia — eleva ainda mais as tensões. Esse movimento sinaliza um enfraquecimento das instituições e das regras construídas no pós-Segunda Guerra Mundial, inaugurando um novo período marcado por maior incerteza e imprevisibilidade.
Para a economia brasileira, esse novo contexto externo amplia os riscos de maior volatilidade nos ativos financeiros, com potenciais impactos adversos sobre a atividade econômica.
Com o objetivo de avaliar de forma mais aprofundada o atual cenário geopolítico e seus possíveis desdobramentos para o Brasil, a Tendências realizou, no dia 29 de janeiro de 2026, uma live exclusiva que contou com as participações de Alessandra Ribeiro, sócia e diretora da área de Macroeconomia e Análise Setorial da Tendências, e Rafael Cortez, sócio responsável pela análise de risco político da Tendências.
Trump, Estados Unidos e os novos riscos geopolíticos globais
De acordo com Cortez, uma parte das iniciativas e mudanças promovidas por Donald Trump está relacionada a um diagnóstico doméstico da economia norte-americana. O presidente enxerga na forma como a ordem internacional foi construída um dos principais fatores por trás da perda de competitividade dos Estados Unidos, especialmente em relação à China.
Entretanto, a política externa adotada por Trump tem gerado baixos níveis de confiança, inclusive entre países tradicionalmente inseridos na área de influência norte-americana. Seu capital político junto às principais lideranças europeias permanece reduzido.
Na prática, Trump se tornou quase um pária do ponto de vista do eleitorado europeu e, por consequência, das lideranças políticas do continente. Cortez destaca o caráter paradoxal desse movimento: ao mesmo tempo em que Trump justifica a rivalidade com a China – e, em alguma medida, com a Rússia – e fundamenta o interesse pela Groenlândia em sua importância estratégica frente a esses países, são justamente os aliados históricos dos Estados Unidos que demonstram maior resistência à sua liderança enquanto “construtor” dessa nova ordem internacional.
Esse ponto é relevante porque, ao longo do tempo, a tendência é que o eleitorado europeu se distancie ainda mais de Trump. Ou seja, o projeto que ele propõe é, por definição, instável: trata-se de uma área de influência que não se consolida pela via militar e tampouco pelo soft power ou pela construção de confiança.
Segundo dados apresentados por Cortez, poucos países europeus enxergam a China como um adversário que precisa ser enfrentado. Com isso, as estratégias adotadas por Trump acabam, paradoxalmente, ampliando a influência chinesa na Europa. Cortez ressalta, ainda, que essa dinâmica geopolítica dificilmente se acomodará no curto prazo.
Relações Brasil–EUA e impactos políticos nas eleições brasileiras
No campo político, Cortez avalia que a disputa presidencial no Brasil pode ser influenciada pelas relações entre o país e os Estados Unidos.
O Brasil não deve adotar um alinhamento automático com os norte-americanos, o que não significa, por outro lado, um rompimento de laços em favor de uma aproximação exclusiva com a China. O interesse do presidente Lula parece ser o de posicionar o Brasil como interlocutor tanto de Washington quanto de Pequim, utilizando como elemento de barganha o fato de o país não depender de forma significativa de nenhum dos dois.
Cortez complementa que ainda existe um grau de tensão na relação entre Brasil e Estados Unidos, mas destaca como ponto positivo a retomada da interlocução diplomática – algo que não ocorria há algum tempo.
Riscos geopolíticos e os efeitos sobre os fluxos financeiros globais
Alessandra explica que, para compreender as movimentações econômicas em cenários de maior risco, o primeiro indicador a ser observado são os fluxos financeiros, que tendem a reagir de forma mais rápida. Posteriormente, há uma defasagem desses movimentos em relação à atividade econômica. Tais fluxos, portanto, funcionam como importantes termômetros da forma como os mercados se organizam diante de uma percepção ampliada de risco geopolítico.
Tradicionalmente, em contextos de aversão ao risco, observava-se uma fuga dos fluxos financeiros para ativos considerados de maior qualidade e segurança, como ouro, prata e títulos soberanos de países avançados – incluindo Estados Unidos, Europa e Japão. Esse movimento clássico de “flight to quality” era acompanhado por uma deterioração da confiança de empresas e consumidores, que, diante de uma maior imprevisibilidade, tendiam a postergar decisões de consumo e investimento, gerando efeitos negativos sobre a atividade econômica global.
Para países emergentes, como o Brasil, esse cenário costumava ser particularmente adverso. A busca por segurança implicava a desmontagem de posições em ativos mais arriscados, resultando em desvalorização cambial, queda nos preços dos ativos financeiros e ajustes relevantes em mercados como o de commodities.
O movimento “Sell America” e a nova dinâmica dos mercados internacionais
O contexto atual, entretanto, apresenta uma dinâmica distinta. Segundo Alessandra, o epicentro da crise está nos próprios Estados Unidos. Diferentemente de outros momentos, o país passa a ser percebido como a principal fonte de risco, associada ao enfraquecimento do respeito a regras e instituições. Nesse ambiente, observa-se o movimento “Sell America”, caracterizado pela redução de posições em ativos norte-americanos.
Embora os fluxos financeiros continuem buscando ativos considerados seguros, há também uma maior ênfase na diversificação. Persistem as alocações em ouro e prata, mas cresce a redistribuição dos investimentos para outros mercados.
Como o Brasil pode se beneficiar do novo cenário global
Nesse contexto, países exportadores de commodities, como o Brasil, têm se beneficiado. Os ativos de economias emergentes passam a apresentar um desempenho mais favorável diante do aumento da percepção de risco global.
Alessandra ressalta, contudo, que o impacto negativo sobre a confiança dos agentes econômicos permanece. Trata-se de um ambiente internacional mais instável, menos ancorado em regras e com instituições multilaterais fragilizadas, o que continua afetando decisões de investimento e consumo.
Na prática, esses efeitos positivos já se manifestam por meio de um maior fluxo de investimentos financeiros e, de forma ainda mais relevante, de um aumento expressivo do investimento direto no país. No ano passado, os investimentos diretos no Brasil apresentaram recuperação significativa, aproximando-se de US$ 80 bilhões – movimento em parte associado ao contexto global.
Câmbio, inflação e política monetária: impactos para a economia brasileira
Esse cenário tem contribuído para um câmbio mais apreciado, o que favorece o processo de desinflação. Alessandra lembra que o Comitê de Política Monetária (Copom) enfrenta o desafio de conduzir uma política monetária bastante restritiva para conter a inflação e alinhá-la à meta de 3%. Um câmbio mais valorizado auxilia esse processo e pode, inclusive, ampliar o espaço para uma flexibilização monetária mais intensa, considerando apenas o contexto externo.
Eleições 2026, risco fiscal e volatilidade dos ativos brasileiros
Alessandra destaca que o processo eleitoral tende a adicionar volatilidade e tensão aos mercados. Historicamente, o mercado brasileiro reage de forma mais positiva a candidatos de direita e centro-direita, avaliados como mais propensos a lidar com os desafios fiscais do país, enquanto demonstra maior cautela quando o presidente Lula aparece fortalecido nas pesquisas, em função das preocupações com o quadro fiscal.
E esse é, de fato, o principal ponto de fragilidade da economia nacional: a questão fiscal. A dificuldade recorrente de geração de superávits primários e o crescimento expressivo da dívida pública indicam a necessidade de uma reforma fiscal a partir de 2027 – tema que permanece no centro das atenções dos mercados.
Perspectivas para os mercados: por que o impacto pode ser menor do que o esperado
Embora o cenário eleitoral e as incertezas fiscais sigam influenciando os preços dos ativos, Alessandra avalia que os patamares finais de variáveis como câmbio, bolsa e juros futuros podem ser menos impactados – ou ao menos suavizados – pelo contexto global atual, que tem favorecido a economia brasileira. Como resultado, o efeito líquido sobre os mercados pode ser menos intenso do que se projetava até o final do ano passado.
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