Saiba tudo o que rolou na nossa live sobre os potenciais efeitos do conflito no Oriente Médio
- Análise setorial e regional Blog Macroeconomia e política
- 11/03/2026
- Tendências
A nova ofensiva militar de Israel e Estados Unidos contra o Irã e o consequente envolvimento de outros países da região reacendem a preocupação com os reflexos político-econômicos dos ataques para o restante do globo, bem como os temores de uma escalada nuclear no mundo.
Dada a grande relevância do tema, a Tendências Consultoria realizou uma live exclusiva no dia 09 de março para discutir como a ampliação e o prolongamento dos conflitos no Oriente Médio devem afetar a corrente de comércio global, os preços e a economia brasileira.
O debate foi conduzido por Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de Macroeconomia e Análise Setorial da Tendências, e contou com as participações de Rafael Cortez, Silvio Campos Neto e Walter de Vitto, sócios da Tendências.
Confira abaixo os principais insights compartilhados por eles.
Conflito EUA-Irã
O apelido “guerra assimétrica” reforça o caráter regional do conflito. A possível derrubada do regime iraniano adiciona um componente existencial, com o país lutando pela sua própria sobrevivência.
Ao mesmo tempo, Donald Trump não sinaliza uma estratégia clara de saída da guerra. O principal limite para o presidente norte-americano parece ser o impacto eleitoral doméstico, já que o prolongamento do conflito pode reduzir as chances de manutenção da maioria legislativa pelos republicanos.
Política externa de Trump e o Oriente Médio
A guerra entre Estados Unidos e o Irã desempenha um papel relevante na reorganização da política externa de Trump, com maior direcionamento estratégico dos norte-americanos em relação à Ásia.
O abandono temporário do chamado “corolário Trump” tende a introduzir efeitos mais tradicionais da incerteza geopolítica sobre as economias emergentes.
Nesse contexto, o foco do país no Oriente Médio pode aumentar a atratividade brasileira sob a ótica geopolítica, ao mesmo tempo em que reforça os desafios de aproximação entre Brasil e Estados Unidos.
Ao longo dos anos, observou-se Israel exercendo forte influência sobre a política externa dos Estados Unidos na região. Durante o primeiro mandato de Trump, essa estratégia se materializou nos Acordos de Abraão, cujo objetivo era normalizar as relações entre Israel e países do Golfo, com base em ganhos econômicos.
Em 2023, o ataque do Hamas contra Israel recolocou a questão palestina no centro do debate. Em resposta, Israel e Estados Unidos intensificaram suas ações contra o chamado “eixo da resistência”.
Já no segundo mandato de Trump, ganha força a chamada “teoria das mudanças de regime”, com o presidente sendo visto como uma espécie de “xerife do mundo”, sem custos diretos para a comunidade internacional.
Implicações para o mercado de petróleo
Com a eclosão do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, os preços do petróleo registraram forte alta. Inicialmente, esse movimento foi relativamente moderado, refletindo:
- A existência de estoques elevados, acumulados nos últimos meses em um contexto de expansão da oferta;
- A percepção inicial de que o conflito poderia ser breve, com eventual mudança de regime no Irã, dada a superioridade militar norte-americana.
Contudo, essa leitura vem sendo revista diante dos desdobramentos mais recentes. Isso porque a região concentra o principal polo produtor de petróleo e gás natural do mundo, e a logística de transporte desses recursos está fortemente concentrada no Golfo Pérsico.
A estratégia iraniana inclui restringir a capacidade operacional dos Estados Unidos na região. Entre os principais alvos potenciais, destacam-se:
- Bases militares norte-americanas na Península Arábica;
- Sistemas de radar;
- Infraestrutura portuária;
- Centros de comando.
Além disso, o Irã pode buscar interromper o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, por onde transitou, em média, cerca de 21% da produção global entre 2020 e 2024.
A principal variável para a trajetória dos preços do petróleo é a magnitude e a persistência do choque de oferta, bem como a extensão dos danos à infraestrutura energética.
A depender dessas condições, os estoques acumulados e a capacidade ociosa global podem não ser suficientes para compensar a queda na oferta. Nesse cenário, o ajuste ocorreria por meio da redução da demanda.
A baixa elasticidade-preço da demanda por petróleo no curto prazo (entre -0,05 e -0,15) implica que seriam necessárias elevações significativas de preços para provocar uma contração relevante no consumo.
Potenciais implicações do conflito no Oriente Médio
Implicações econômicas
- Pressões inflacionárias, ainda que temporárias;
- Possível postergação do ciclo de cortes de juros pelo Federal Reserve;
- Aumento da incerteza e dos custos, com impacto negativo sobre a atividade global;
- Risco de um cenário de estagflação nos Estados Unidos.
A intensidade desses efeitos dependerá, sobretudo, da duração do conflito e de seus impactos sobre o mercado de petróleo.
Implicações nos mercados
- Ambiente de maior aversão ao risco;
- Recuperação do dólar;
- Pressão sobre as taxas de juros de mercado;
- Interrupção do movimento de diversificação que vinha beneficiando ativos de economias emergentes.
Impactos no Brasil
Os principais canais de transmissão para o Brasil são a alta do petróleo e o aumento da aversão ao risco.
A projeção da Tendências Consultoria de 4,1% para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2026 permanece válida, uma vez que já incorporava um viés de risco assimétrico para baixo antes dos recentes eventos externos.
O cenário atual não deve impedir o início do ciclo de corte da Selic, mas reforça a necessidade de cautela. Por ora, a Tendências mantém a expectativa de redução de 50 pontos-base, com um ciclo moderado de queda até 12,50%.
No entanto, a depender da evolução do cenário — especialmente do comportamento do câmbio e do petróleo até a próxima reunião do Copom, em 18 de março —, pode ganhar força um cenário alternativo, com início do ciclo em 25 pontos-base.
Entre os possíveis efeitos positivos, destacam-se a balança comercial e a arrecadação. Em 2025, o petróleo foi o principal item da pauta exportadora brasileira, superando a soja.
Considerando também os combustíveis, as exportações somaram cerca de US$ 55 bilhões, enquanto as importações totalizaram aproximadamente US$ 25 bilhões.
Além dos royalties, o aumento da arrecadação pode ocorrer por meio de maiores dividendos pagos pela Petrobras e da elevação das receitas tributárias sobre combustíveis. Ainda assim, esse efeito positivo sobre as receitas não resolve o problema estrutural das contas públicas.
No que diz respeito à atividade econômica, os impactos são ambíguos, mas tendem a ser predominantemente negativos no curto prazo.
Entre os impactos negativos:
- Aumento da incerteza;
- Pressão sobre custos;
- Elevação das taxas de juros de mercado;
- Redução da renda disponível das famílias para consumo.
Entre os impactos positivos:
- Melhora dos termos de troca;
- Maior transferência de renda externa para o Brasil;
- Aumento da arrecadação associada ao setor de petróleo.
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