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Resiliência do IBC-Br e risco fiscal projetam Selic em 12,50% no fim de 2026 – Times Brasil

Em entrevista para o Times Brasil, Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria, comenta sobre a resiliência do IBC-Br e os riscos fiscais, além das projeções que apontam a taxa Selic em 12,50% ao final de 2026

Os investidores também analisaram dados da atividade econômica divulgados pelo Banco Central. O IBC-Br avançou 0,8% em janeiro na comparação com dezembro de 2025, mas o número ficou um pouco abaixo do esperado pelos analistas. Na série com ajuste sazonal, a agropecuária teve resultado negativo de 1,5%. A indústria subiu 0,4% e o setor de serviços avançou 0,8%. Nos últimos 12 meses, o indicador mostra um avanço de 2,3% da economia brasileira. 

Cenário atual

Ao ser questionado sobre ver esse cenário como um copo meio cheio ou meio vazio, Campos Neto diz que a economia brasileira foi passando por um processo de moderação no segundo semestre do ano passado, mas esses sinais na margem, especialmente os dados referentes ao mês de janeiro – não só do IBC-Br, que compila serviços, indústria e varejo – foram melhores do que o esperado. O próprio mercado de trabalho também ainda tem trazido dados sólidos, o que sugere que a economia brasileira ainda mostra uma certa resiliência, mesmo diante de todo esse quadro de aperto monetário.

Claro que há esse lado positivo de uma economia que está desacelerando de forma gradual, mas, ao mesmo tempo, isso representa um desafio adicional para o Banco Central, que está às vésperas de iniciar um ciclo de corte de juros e tem não só todo esse problema do petróleo no Oriente Médio para lidar, como também uma economia que ainda mostra sinais de força.

Taxa de juros

Sobre a aposta para os juros aqui e nos Estados Unidos, Campos Neto explica que, começando com os Estados Unidos, já havia uma perspectiva de continuidade daquela pausa no processo de queda dos juros. Mas, claro, esses eventos dos últimos dias reforçam não só a interrupção das quedas agora neste mês, como também um período eventualmente um pouco mais longo.

Fica também a expectativa, no caso do Fed, quanto à atualização das projeções dos dirigentes, que será feita agora na reunião de março e deve mostrar uma visão majoritária de que os juros devem cair de forma muito comedida ao longo dos próximos meses e também no ano que vem.

Campos Neto diz que provavelmente devemos observar projeções nesse sentido, considerando todos os riscos inflacionários, principalmente ligados a esse evento no Oriente Médio.

Economia brasileira

E, para o Brasil, Campos Neto acredita que houve uma importante mudança de visão das principais casas. A Tendências também, na semana passada, alterou a expectativa, que era de uma redução inicial de 50 pontos na Selic. Isso, claro, totalmente em virtude desse fato novo, que gera muita incerteza e insegurança, além do risco de repasses de aumento de preços para outros setores da economia, especialmente em um cenário de atividade que ainda mostra sinais de resiliência.

Campos Neto acredita que, com todo esse contexto, é mais compatível com o discurso do Banco Central que esse ciclo de queda se inicie de maneira um pouco mais lenta, com uma redução de apenas 0,25 ponto, justamente para ganhar tempo e avaliar o cenário até a próxima decisão, em abril.

No entanto, Campos Neto não descarta um cenário em que o Banco Central mantenha a taxa em 15%. Ele diz que entre um corte de 50 pontos e uma manutenção, a manutenção talvez tenha até um pouco mais de probabilidade. Mas ainda há argumentos favoráveis a uma redução modesta. Apesar da volatilidade do câmbio, o real tem resistido bem a essas pressões. A economia, apesar dos sinais de resiliência, tem desacelerado.

E estamos falando de uma política monetária ainda bastante contracionista, com uma taxa Selic elevada, que dá uma certa margem para uma redução, ainda que comedida, nessa primeira decisão da semana.

A Tendências não alterou a projeção de fim de ano para a Selic porque já vinha com um cenário bastante cauteloso em relação ao ciclo de queda. Espera-se um processo gradual, à luz das muitas incertezas que ainda existem, especialmente no campo fiscal. As contas públicas seguem em um quadro que não é sustentável. Então, a Tendências projetou uma Selic em 12,5% no final do ano e mantém essa projeção, apenas ajustando o início do ciclo em março e contemplando uma redução residual em novembro.

Bolsa de valores

Sobre a bolsa de valores e até quando Campos Neto acredita que haverá esse movimento de capital estrangeiro vindo para o Brasil em grande volume, ele diz que essa é sempre uma questão difícil de antecipar.

Houve, nesses dois primeiros meses do ano, um fluxo muito robusto, que veio na esteira de sinalizações do governo Trump e de questões geopolíticas anteriores ao conflito atual. Isso gerou um movimento de diversificação de ativos e, para o Brasil, mesmo uma pequena parcela desse portfólio global já representa muito, contribuindo para o avanço do Ibovespa até os 190 mil pontos nos picos do ano.

Passado esse momento de crise – e ninguém sabe até quando vai durar o problema no Oriente Médio – é de se imaginar que os fluxos voltem. Mas, ao longo do segundo semestre, a incerteza político-eleitoral no Brasil pode trazer mais cautela. Não necessariamente uma queda expressiva dos ativos, mas talvez uma moderação desses fluxos.

Do ponto de vista do Brasil, Campos Neto diz que há alguns pontos de cautela que podem levar a um desempenho mais comedido daqui para frente. Não apenas em relação aos setores, mas ao fato de estarmos em um ambiente de custo de capital elevado. Há empresas muito endividadas, o que gera problemas.

Vimos recentemente grandes empresas pedindo recuperação extrajudicial. Ou seja, é um cenário que inspira cuidados. Apesar de termos crescimento, desemprego baixo e inflação em moderação, a insustentabilidade das contas públicas mantém os juros – especialmente os de mercado, de longo prazo – pressionados. 

De forma geral, setores mais expostos ao endividamento, como o varejo, exigem atenção. Por outro lado, alguns segmentos podem se beneficiar de fatores específicos, como o petróleo, diante do choque atual, e setores mais ligados ao exterior. A mineração também é um destaque. Mas, no geral, o cenário ainda pede cautela.

Sobre a percepção no mercado de que talvez tenha havido um exagero no pessimismo em relação à Embraer, Campos Neto explica que o que dá para dizer é que se trata de uma empresa extremamente competitiva no cenário global, que, apesar dos desafios, tem demanda para suas aeronaves. É um player líder internacional.

Previsão do dólar

A tendência vinha sendo de um dólar mais fraco globalmente, inclusive frente ao real. Antes do conflito, vimos a taxa de câmbio se aproximando de R$ 5,10. No curto prazo, o conflito trouxe volatilidade e alguma pressão, mas a tendência ainda é de um câmbio mais baixo, salvo uma piora mais aguda no cenário externo.

Para o fim do ano, porém, o cenário é mais cauteloso, especialmente com a entrada do tema eleitoral no radar e a necessidade de encaminhamento da questão fiscal pelo próximo governo.

Por isso, a Tendências projeta o dólar em torno de R$ 5,50 no final do ano. No curto prazo, ele pode permanecer em patamares mais baixos, próximo de R$ 5,20 ou até abaixo, mas com cautela à medida que avançamos para o segundo semestre.

De fato, até agora, a questão eleitoral ainda não teve grande impacto nos mercados. Mas esse tema deve ganhar força entre setembro e outubro, à medida que se torna mais claro que a questão fiscal não é sustentável por mais quatro anos. Será necessário que o próximo governo apresente soluções, ainda que difíceis e impopulares. Como sabemos, muitas vezes essas decisões vêm acompanhadas de pressão de mercado. Por isso, esse é um risco mais relevante para o final do ano.

Confira a entrevista na íntegra abaixo!