Presos na armadilha – Veja
- Na Mídia
- 20/02/2026
- Tendências
A classe C cresceu e soma hoje 130 milhões de brasileiros, um recorde na história, mas o ritmo desse avanço ainda é insuficiente para fazer a renda do país mudar de patamar
Se números contassem sempre a mesma história, Lula teria pouco a temer na corrida eleitoral de outubro. Em seu terceiro mandato e prestes a tentar o quarto, o presidente se beneficia novamente de um fenômeno social marcante. Após um longo período de estagnação, a classe C, formada por pessoas com renda entre 2 526 e 10 885 reais, retomou seu crescimento para atingir tamanho recorde na composição da população brasileira. Mais do que um dado estatístico, o movimento traduz um processo de mobilidade social, pelo qual milhões de brasileiros subiram degraus na escala de renda. De 2022 a 2024, segundo cálculos feitos pelo economista Marcelo Neri, pesquisador do Centro de Políticas Sociais da FGV Social, 17 milhões de brasileiros migraram para faixas de rendimento superiores. Com isso, a participação da classe C — que havia estacionado em 56% em 2014 — chegou a 61% em 2024, o maior número já registrado. Em dados absolutos, são 130 milhões de pessoas nesse estrato intermediário. “É um grupo que cresceu muito, mas ficou travado nas recessões de 2015 e na pandemia”, diz Neri. “Agora está avançando novamente, e em ritmo até mais acelerado do que antes.”
A nova expansão da classe C tem causas claras. O principal motor é o mercado de trabalho aquecido, com níveis recordes de ocupação. Mas, ao contrário do ciclo dos anos 2000, apoiado no emprego formal e na indústria, a mobilidade atual também vem do empreendedorismo. Autônomos, microempreendedores individuais e trabalhadores por aplicativos, como motoristas, entregadores e prestadores de serviços, passaram a compor uma fatia relevante do contingente que ascendeu nos últimos anos. Em um país historicamente marcado pela pobreza estrutural, o deslocamento representa um avanço notável. Em 2025, a proporção de brasileiros nas classes D e E caiu para o menor índice da história: 22% da população — são 46 milhões de pessoas. Até 1980, os pobres representavam mais de 70% da população.
Também mudou o tipo de classe C que emergiu desse novo ciclo. A expansão recente não apenas trouxe novos grupos para o estrato intermediário, como consolidou uma geração que já nasceu nele, mais escolarizada, hiperconectada e menos conformada com a baixa qualidade de vida. Nesse ambiente, expectativas e valores foram sendo recalibrados. A cultura do “fazer por conta própria” ganhou força, e a reconfiguração religiosa — com o aumento da porção evangélica — passou a influenciar aspirações e visões de mundo. O resultado é uma classe C mais exigente. “Os mais velhos ficaram com um pé atrás depois de melhorarem de vida e perderem muita coisa nas crises seguintes”, diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva. “Os mais novos não passaram fome, como os pais, e querem mais.”
O descompasso entre expectativas crescentes e resultados econômicos modestos ajuda a explicar o humor crítico que predomina no país. Ao mesmo tempo, a inflação elevada de itens básicos como alimentação e moradia, aliada a recordes de endividamento das famílias, diminui o impacto dos ganhos salariais. O choque entre conquistas e frustrações se reflete diretamente na avaliação do governo. Lula deixou o Planalto em 2010 com cerca de 80% de aprovação. Hoje, luta para preservar pouco mais de 30%. “A classe C continua com maioria petista, mas em proporção bem menor do que no passado”, afirma Márcia Cavallari, diretora do instituto de pesquisas Ipsos-Ipec. “Ela evoluiu e passou a querer outras coisas.” Cavallari identifica outro elemento crucial: a erosão da confiança nas instituições democráticas. “Quando as pessoas percebem que segurança, Justiça, saúde e educação não funcionam, perdem a fé nas instituições”, diz. Desde 2015, as pesquisas do Ipsos mostram que 30% a 40% dos brasileiros dizem não se importar com a eventual troca da democracia por outro sistema, índices sem precedentes desde o início das medições, nos anos 1990.
Se o crescimento da classe C é uma boa notícia, a mobilidade social pouco evolui na etapa seguinte. A passagem da classe C para a B ocorre de forma lenta, quase a conta-gotas. Com renda acima de 10 886 reais estão os integrantes dos estratos A e B, que somam apenas 17% da população, ou 36 milhões de pessoas. “A classe C deveria ser uma etapa transitória, um trampolim para padrões de vida mais elevados”, afirma Neri. O problema, ressalve-se mais uma vez, é a lentidão desse movimento. Há uma perspectiva de que a classe B cresça mais nos próximos anos, mas o grosso da população deverá permanecer na faixa intermediária de rendimento. “Há uma melhora gradual, mas insuficiente”, diz a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria.
O Brasil, de fato, está preso na armadilha da renda média, quando um país deixa a pobreza para trás, mas não consegue se tornar desenvolvido. A comparação com os Estados Unidos dimensiona o desafio. Lá, segundo o instituto Pew Research Center, 51% da população pertence à classe média, com renda anual entre 61 000 e 183 000 dólares (26 000 a 79 000 reais por mês). Outros 19% estão na classe alta, e apenas 30% na classe baixa. Enquanto a classe média americana começa em 26 000 reais mensais, o teto da classe C brasileira está abaixo de 11 000 reais. Ou seja, o piso da classe média nos Estados Unidos é quase três vezes superior ao limite máximo da classe intermediária no Brasil.
As comparações internacionais revelam uma realidade complexa: o Brasil se desenvolve em ritmo modesto demais. E as razões são bem conhecidas. A principal é a baixa produtividade, travada por uma formação educacional inadequada, deficiências na capacitação profissional, infraestrutura precária e pouca inovação na maioria das empresas. O ambiente de negócios hostil e um Estado ineficiente, devorador de cada vez mais tributos e com capacidade de investimento limitada por despesas crescentes, agravam o quadro. “Nos últimos 125 anos, nossa renda per capita nunca ultrapassou um quinto da renda dos Estados Unidos”, afirma Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas. “E, no ritmo atual, a diferença permanecerá inalterada.”
Algumas reformas recentes acenam com melhorias, como a trabalhista, em 2017, a tributária, em 2023, e o avanço das concessões em saneamento e transporte. Mas os efeitos são demorados. O Brasil vive, portanto, um paradoxo. A expansão da classe C, obviamente, é positiva, mas falta ao país dar o próximo passo. Fazer essa base subir de andar, alcançando padrões de renda e bem-estar comparáveis aos das nações ricas, é o desafio que permanece em aberto, sem sinais de que será superado tão logo.
Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982
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