Perspectivas para 2026: riscos e tendências
- Na Mídia
- 10/12/2025
- Tendências
No painel 1 do evento Perspectivas 2026 da Tendências Consultoria, ocorrido em 3 de dezembro de 2025, os economistas Gustavo Loyola, Diretor-Presidente da Tendências e ex-presidente do Banco Central, e Maílson da Nóbrega, sócio fundador da Tendências e ex-ministro da Fazenda, comentam sobre os riscos e as tendências para o próximo ano.
Cenário internacional
Há grandes questões do cenário internacional em discussão, como o avanço de políticas protecionistas e os riscos institucionais na economia norte-americana.
Sobre a ideia de que as tarifas impostas pelos Estados Unidos seriam um instrumento para promover a reindustrialização do país, Maílson da Nóbrega avalia essa estratégia como equivocada por diversas razões. Segundo ele, tarifas são mecanismos voltados à regulação do comércio entre países e dificilmente se prestam ao uso como ferramenta de intimidação geopolítica, como tem ocorrido sob o governo Trump. Maílson acredita que, caso essas tarifas se mantenham — e sua avaliação é de que ao menos a tarifa básica de 10% deve permanecer —, haverá a formação de grupos de interesse internos nos Estados Unidos que resistirão a qualquer tentativa de normalização.
Na avaliação de Maílson, esse processo tende a se prolongar e a economia americana acabará pagando um preço relevante, ao se tornar menos competitiva. O consumidor, nesse contexto, passa a arcar com preços mais elevados, entre outros efeitos adversos.
Em suas palavras, trata-se de “um capítulo negativo da história americana, sobretudo porque o país que construiu as bases de um sistema de comércio internacional baseado em regras é agora o mesmo que contribui para a erosão desse arranjo”.
No campo institucional interno, Maílson não enxerga grandes riscos imediatos, à exceção de um cenário extremo, que ele considera improvável, de uma 3ª Guerra Mundial, especialmente à luz de pronunciamentos recentes de Vladimir Putin direcionados à Europa.
Do ponto de vista econômico, Maílson destaca dois problemas relevantes no plano internacional. O primeiro é o elevado endividamento público das economias avançadas. A Europa, como um todo, ampliou significativamente sua dívida, sobretudo a partir da pandemia de Covid-19. O segundo é a preocupação com a possibilidade de um colapso no mercado acionário norte-americano, associado ao estouro de uma bolha que muitos analistas relacionam ao avanço da inteligência artificial. Caso um evento dessa natureza ocorra, nos moldes da crise de 2008 — ainda que por razões distintas —, Maílson avalia que os impactos seriam globais, com reflexos diretos também sobre a economia brasileira.
Na sequência, Gustavo Loyola inicia sua análise tratando do Federal Reserve e da questão iminente da substituição de seu chairman, Jerome Powell. Tudo indica, segundo ele, que Trump deverá indicar um economista de sua confiança para o cargo, com aprovação provável no Senado, dado o alinhamento político. Isso pode gerar ruídos nos mercados, diante da percepção de que o Fed poderia passar a responder mais aos interesses do Executivo americano do que aos objetivos tradicionais da política monetária. Ainda assim, Gustavo acredita que, nesse contexto, a institucionalidade tende a prevalecer.
Ele faz um paralelo com o cenário brasileiro, lembrando que existia uma expectativa semelhante no Brasil quando da substituição de Roberto Campos Neto e da indicação de Gabriel Galípolo. À época, havia o receio de que o novo presidente do Banco Central pudesse atuar de forma alinhada aos interesses do Executivo, embora na prática o Banco Central tenha demonstrado atuação independente.
Segundo Gustavo, isso se explica tanto pelas qualidades pessoais do dirigente escolhido quanto pelo peso institucional do cargo, que impõe um comportamento compatível com o objetivo central dos bancos centrais. O zelo pela reputação profissional e pela credibilidade da instituição acaba funcionando como um freio a desvios.
Gustavo reconhece que pode haver algum nível de ruído nos mercados financeiros em função das escolhas de Trump, mas avalia que o risco de desestabilização é relativamente baixo. Sua maior preocupação recai sobre dois fatores distintos: um de curto prazo e outro de médio prazo.
No curto prazo, destaca-se a possibilidade de estarmos diante de uma bolha financeira, como mencionado por Maílson. O eventual rompimento dessa bolha poderia gerar turbulências significativas nos mercados financeiros, com impactos não apenas sobre a economia americana, mas também sobre a economia global.
Embora seja difícil ter certeza absoluta, Gustavo lembra que a história mostra que bolhas financeiras tendem a se repetir, em grande parte porque a memória do mercado em relação a crises é curta.
No médio prazo, ele chama atenção para a trajetória de endividamento, não apenas na Europa, mas também nos Estados Unidos. Não se trata de um risco imediato, mas de uma tendência preocupante, especialmente em um contexto de baixo apetite dos governos por responsabilidade fiscal. Esse quadro se reflete nas taxas de juros de longo prazo e no comportamento dos títulos americanos.
Em relação à China, Gustavo não vê risco de uma desaceleração abrupta, um chamado “hard landing”. A avaliação da Tendências é de uma normalização do crescimento, com a economia chinesa migrando de taxas de 8% ou 9% para algo em torno de 4% ao ano. Apesar de desequilíbrios demográficos, de endividamento e de excesso de capacidade, ele não enxerga uma ruptura. A China deve continuar sendo um mercado relevante para o Brasil, especialmente no segmento de commodities agrícolas.
Ao tratar de economias com potencial de crescimento mais acelerado nos próximos anos, Gustavo menciona a Índia, embora ressalte as complexidades envolvidas e a ainda limitada relação econômica com o Brasil.
Em uma perspectiva de longo prazo, Maílson retoma uma questão recorrente: a China se tornará a maior economia do mundo? Há economistas respeitados que avaliam que não, como Kenneth Rogoff, mas Maílson observa que os avanços tecnológicos chineses não podem ser ignorados. O país tem superado a chamada armadilha da renda média, com investimentos intensivos em tecnologia, produção científica e capacidade espacial. Trata-se de um processo acelerado, considerando-se uma civilização milenar, e que, na visão de Maílson, é positivo para o Brasil.
Já para o Brasil, enfrentar a própria armadilha da renda média é um desafio mais complexo. Sem ganhos consistentes de produtividade, o país não alcançará um patamar de renda elevada. A produtividade brasileira permanece praticamente estagnada há décadas, com exceção do agronegócio.
Cenário doméstico
No plano doméstico, os principais riscos decorrem do ambiente externo, da desaceleração global e de choques geopolíticos. Ainda assim, segundo Maílson, o risco central para o Brasil é fiscal, e a situação atual é insustentável no longo prazo. Estudos indicam que, a partir de 2027, praticamente 100% dos gastos primários serão obrigatórios, o que reduz drasticamente a capacidade de ação do Estado.
“O Brasil não enfrentará um shutdown nos moldes do que ocorre nos Estados Unidos, mas pode recorrer a mecanismos que corroem a confiança, como exceções fiscais e expansão de gastos. Isso pode desencadear uma crise de confiança”. Paradoxalmente, Maílson observa que esse cenário pode representar uma oportunidade, pois, historicamente, grandes reformas no Brasil costumam emergir em momentos de crise. “É possível que o país esteja se aproximando de mais um desses episódios”, afirma.
Ao mesmo tempo, de acordo com ele, a sociedade brasileira demonstrou amadurecimento institucional, haja vista o fato de o país ter atravessado testes recentes e evidenciado resiliência democrática.
Por fim, Gustavo ressalta a existência de oportunidades relevantes em áreas como energia, transição energética, tecnologia e reconfiguração das cadeias globais. Para ele, a chave está na tecnologia, e o Brasil pode avançar a partir das vocações que já possui nesses segmentos.
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