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Perspectivas para 2026: cenários político e econômico

No painel 2 do evento Perspectivas 2026 da Tendências Consultoria, ocorrido em 3 de dezembro de 2025, nossos sócios Rafael Cortez e Silvio Campos Neto discorreram sobre os cenários para o próximo ano nos campos político e econômico.

Cenário político

O cientista político Rafael Cortez iniciou sua fala propondo uma reflexão sobre como se dará a transição política a partir do início de um novo mandato presidencial.

Segundo ele, a política econômica do governo — especialmente no que diz respeito à questão fiscal — apresenta uma orientação mais à esquerda. Do ponto de vista fiscal, isso significa a tentativa de promover o equilíbrio das contas públicas prioritariamente pelo aumento da arrecadação, abordagem tradicionalmente associada a governos de esquerda.

Por outro lado, Cortez observa que o Congresso Nacional tem se posicionado cada vez mais à direita, tendência que deve se manter. Mais do que a composição ideológica, contudo, o Congresso atravessa atualmente um vácuo de liderança.

Essa combinação gera uma dinâmica fiscal complexa: um governo de esquerda, sob Lula, que busca elevar a arrecadação, diante de um Congresso de direita que, além de resistir a aumentos de carga tributária, acaba fragilizando a própria regra fiscal.

Além disso, trata-se de um Congresso pouco coordenado. De acordo com Cortez, em ambientes de baixa articulação política, quem tende a ganhar espaço é o lobby. Quando o lobby se intensifica, o ajuste fiscal se torna ainda mais difícil, pois diferentes interesses passam a capturar parcelas do orçamento ao longo da tramitação legislativa, comprometendo o equilíbrio das contas públicas.

Cortez lembra que o Brasil não gera superávit primário de forma consistente há mais de uma década, com raras exceções explicadas muito mais por efeitos inflacionários do que por escolhas deliberadas de política econômica. Essa é, segundo ele, a grande agonia da política econômica atual: a necessidade de conciliar duas “receitas” conflitantes — a de elevar a arrecadação e a de conter o gasto.

Na avaliação de Cortez, a transição de 2026 para 2027 tende a se assemelhar ao período de 2022 para 2023, no início do atual mandato. À época, o mercado demonstrava forte ceticismo, com juros elevados e câmbio depreciado. A aprovação da PEC da Transição postergou o enfrentamento do problema fiscal, e o primeiro semestre de 2023 foi marcado por elevada incerteza, até a apresentação do novo arcabouço fiscal.

Assim, caso Lula vença a eleição de 2026, o mercado deve novamente aguardar sinais concretos do lado das despesas para se acalmar. No entanto, Cortez avalia ser pouco provável que o Congresso eleito promova reformas relevantes do lado do gasto durante o período de transição, o que deve resultar em elevada turbulência.

Ele também ressalta que, se a esquerda vencer a eleição de 2026, isso ocorrerá de forma bastante apertada e pode representar a última vitória desse campo político no horizonte próximo. A sociedade brasileira tem se deslocado à direita, e o PT enfrenta dificuldades de diálogo inclusive com parcelas do eleitorado de renda mais baixa, especialmente quando se considera a dimensão geracional.

Do ponto de vista fiscal, a tendência é de um Congresso ainda mais resistente à elevação da carga tributária, mas que, ao mesmo tempo, não contribui para o controle das despesas. O resultado, segundo Cortez, é um ajuste fiscal lento, com impactos econômicos cada vez mais relevantes.

Cenário econômico

O economista Silvio Campos Neto iniciou sua apresentação trazendo o contexto internacional e suas implicações para 2026. Na sua avaliação, o cenário global não é negativo para o Brasil.

Embora existam pontos de atenção, as principais economias continuam crescendo, ainda que em ritmo mais moderado, sustentando um desempenho global razoável. O dólar segue relativamente fraco no cenário internacional, movimento que tem beneficiado o Brasil nos últimos meses. Além disso, os juros estão em trajetória de queda, inclusive nos Estados Unidos, onde já ocorreram duas reduções, com expectativa de novas ao longo dos próximos meses.

Campos Neto observa ainda que o governo Trump tem adotado uma postura mais moderada na política comercial, firmando acordos que permitiram reduzir parte das tarifas elevadas anunciadas no início do chamado “tarifaço”. O ambiente global também se mostra mais desinflacionário, com destaque para o papel da China.

Ao se referir à China, ele ressalta o excesso de capacidade produtiva do país e sua busca por mercados internacionais para escoar essa produção. Esse movimento contribui para moderar pressões inflacionárias globais, mas traz desafios relevantes para empresas que competem com produtos chineses, especialmente na indústria. A China segue como uma máquina de produtividade, exportando bens de alta tecnologia a baixo custo, o que ajuda a conter a inflação, mas impõe forte concorrência ao Brasil.

Sobre os juros nos Estados Unidos, Campos Neto faz duas observações. Primeiro, mesmo em queda, eles devem permanecer acima do padrão observado no período pré-pandemia. Segundo, os juros longos seguem bastante pressionados. A curva americana permanece inclinada, refletindo preocupações institucionais e riscos associados à condução da política monetária pelo Fed. Como resultado, as taxas longas elevadas acabam limitando quedas mais expressivas dos juros em economias emergentes.

Em relação ao dólar, Campos Neto destaca a surpresa observada ao longo de 2025. No início do ano, as políticas sinalizadas por Trump sugeriam um dólar mais forte, expectativa que não se confirmou. A partir de abril e maio, com o tarifaço e o aumento das tensões comerciais, o mercado passou a precificar maior risco nos Estados Unidos, levando a uma desvalorização generalizada da moeda americana.

Na margem, há algum sinal de acomodação, mas mais em função das fragilidades de outras moedas relevantes — como euro, libra e iene — do que por uma recuperação consistente do dólar. Nesse ambiente de incerteza generalizada, o principal beneficiado tem sido o ouro, que segue operando em patamares historicamente elevados.

Campos Neto encerra a análise internacional ressaltando que, apesar de o cenário não ser tão negativo quanto parece à primeira vista, há pontos importantes de atenção. Entre eles, a substituição na presidência do Fed em maio, a dinâmica da inflação nos Estados Unidos — que sustenta as projeções de queda gradual dos juros — e o risco de reversão inflacionária, o que poderia interromper o ciclo de afrouxamento monetário.

As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos também merecem monitoramento, por funcionarem como um mecanismo de moderação da política econômica do governo Trump. Na China, a definição da meta de crescimento, esperada para março, será crucial para avaliar o grau de desaceleração aceito pelo governo. 

Outro tema debatido foi a possível bolha associada à inteligência artificial, que pode gerar correções nos mercados acionários. Por fim, Campos Neto reforça a importância de acompanhar os riscos geopolíticos e comerciais ainda não resolvidos, como o conflito no Leste Europeu, que podem provocar períodos de maior volatilidade global.

No cenário doméstico, Campos Neto destaca o processo de desaceleração da economia brasileira. Após um período de forte desempenho desde a saída da pandemia, com crescimento médio próximo ou superior a 3% ao ano, surgiram desequilíbrios típicos de uma economia operando acima do potencial: inflação mais persistente, deterioração fiscal, mercado de trabalho apertado e aumento do déficit externo.

O ajuste ocorre via elevação dos juros e desaceleração da atividade, movimento já em curso. Para 2026, a Tendências projeta crescimento, considerando tanto o aperto das condições financeiras quanto estímulos pontuais ao consumo.

Campos Neto observa ainda uma dicotomia entre a política monetária, que atua de forma contracionista, e medidas governamentais que estimulam a atividade, como mudanças no Imposto de Renda e incentivos ao setor de construção. Essa dinâmica também se reflete no comportamento das taxas de juros.

O mercado de trabalho segue como ponto central de atenção. A queda expressiva da taxa de desemprego é positiva, mas gera desafios, como escassez de mão de obra e aumento de custos. Parte desse movimento decorre não apenas da demanda elevada, mas também de uma oferta de trabalho que cresce abaixo do esperado. Para 2026, a Tendências espera alguma recomposição, mas o cenário ainda envolve incertezas.

A renda segue em expansão, o que sustenta o consumo, mesmo com desaceleração da atividade. 

A inflação, embora não esteja fora de controle, apresentou elevação recente, levando o Banco Central a reagir. Há sinais de reversão, mas ainda sem convergência plena para a meta. Para 2026, a Tendências projeta inflação com pressões persistentes em serviços e alimentação, o que limita a velocidade de queda dos juros.

Sobre a Selic, atualmente em 15%, Campos Neto destaca que a taxa reflete desequilíbrios macroeconômicos e a ausência de uma âncora fiscal crível, o que mantém os juros longos pressionados. A experiência recente mostra que a redução sustentável dos juros exige reformas estruturais e disciplina fiscal.

Para 2026, a expectativa é de uma redução moderada da Selic, com continuidade do ciclo a partir de 2027, condicionada à adoção de medidas fiscais pelo próximo governo.

A questão fiscal permanece como o principal nó. A dívida pública, próxima de 80% do PIB, segue em trajetória de alta e pode se aproximar de 90% nos próximos anos. Apesar de ser majoritariamente denominada em moeda local, a dinâmica é preocupante. A rigidez orçamentária e o peso das despesas obrigatórias reforçam a necessidade de ajustes mais profundos a partir de 2027.

Por fim, ao tratar do câmbio, Campos Neto ressalta a elevada incerteza associada ao ano eleitoral. A Tendências trabalha com projeção de R$ 5,50 ao final de 2026, mas o comportamento da taxa será fortemente influenciado pelo desfecho da eleição. Um resultado visto como mais favorável ao mercado pode gerar apreciação do real, enquanto um cenário de continuidade, sem sinais claros de ajuste fiscal, tende a produzir maior volatilidade e pressão cambial.

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