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O que aconteceu com a economia dos EUA no primeiro ano de Donald Trump? – Estadão

Apesar das tarifas de importação, economia americana teve desempenho melhor que o esperado, impulsionada por investimentos em inteligência artificial e cortes de impostos

Principal marca econômica do primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump, as tarifas sobre importações geraram incertezas, mas não chegaram a causar o impacto negativo esperado por economistas. A atividade econômica nos Estados Unidos desacelerou, mas de forma suave. A inflação chegou até a recuar, apesar de seguir acima da meta – de 2%.

“O governo chegou gerando muito ruído com a agenda protecionista. A economia sentiu os impactos, mas os efeitos não foram dramáticos a ponto de causarem danos significativos ao longo de 2025”, diz o economista Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria. “Havia visões mais pessimistas no começo do ano.”

O pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) e do banco BTG Pactual, Samuel Pessôa, afirma que “não dá pra dizer que a economia americana está indo mal”. “As tarifas afetaram menos a inflação do que se imaginava. O repasse para os preços está acontecendo lentamente.”

Na análise do economista Tomás Urani, do Santander, há sinais de que a economia está desacelerando – em parte porque o ano começou com o juro em patamar elevado –, apesar de ela ter se mostrado resiliente. “Não é um cenário de recessão. É mais de um pouso suave.”

O BTG Pactual projeta que o PIB dos EUA tenha crescido 2,2% no ano passado, após uma alta de 2,8% em 2024. A inflação, cujo dado de 2025 já foi divulgado, recuou dos 2,9% de 2024 para 2,7%.

A resiliência da economia americana pode ser explicada por um aumento da produtividade, pelo crescimento dos investimentos em inteligência artificial (IA) e pelo fato de Trump ter voltado atrás na magnitude das tarifas. Os especialistas apontam, no entanto, que, no longo prazo, a tendência é de deterioração do cenário econômico.

A atividade econômica nos EUA começou 2025 fraca, após empresários terem se antecipado à implementação das tarifas – que encareceria as mercadorias – e adquirido estoques antes mesmo da posse de Trump. Isso fez com que o consumo caísse no primeiro trimestre, puxando o PIB para baixo.

Conforme os meses foram passando e as tarifas de importação foram sendo negociadas, o PIB se recuperou. Também ajudou a alavancar a economia a aprovação de um pacote de corte de impostos em julho, que impulsionou o consumo. Entre as medidas do pacote estão a isenção de imposto de renda sobre gorjetas e horas extras e o aumento da isenção do imposto sobre herança.

Outro fator importante para o crescimento do PIB foram os investimentos em inteligência artificial (IA). “Há muito dinamismo em inovação tecnológica nos EUA, e o ciclo atual tem sido puxado por investimento em IA. Uma parte significativa dos investimentos ocorreram por conta disso”, diz Urani.

Para Samuel Pessôa, os investimentos em IA devem aumentar a produtividade nos próximos anos, mas ainda não é possível saber em qual magnitude. Ainda assim, a produtividade nos EUA já vem crescendo. “Essa atividade mais forte no segundo semestre não vem de um mercado de trabalho muito forte. Isso sugere, portanto, que a produtividade melhorou um pouco.”

De fato, o mercado de trabalho vem perdendo ímpeto, ainda que lentamente. Trump começou seu mandato com uma taxa de desemprego em 4% e terminou 2025 com ela em 4,4%. Segundo os economistas, os empresários ficaram mais inseguros para contratar diante do tarifaço ao mesmo tempo em que a oferta de mão de obra diminuiu devido às políticas anti-imigrantes.

“O emprego está esfriando claramente. Até por isso tem a pressão (de Trump) para que o Fed (Federal Reserve, o Banco Central dos EUA) corte o juro”, diz Campos Neto, da Tendências. “O mercado de trabalho esfria quando há insegurança e incerteza, e as políticas migratórias têm causado ruído em setores mais intensivos em mão de obra, como na construção civil e no comércio”, acrescenta.

Essa deterioração lenta no mercado de trabalho e a incerteza causada pelo tarifaço se refletem no otimismo do consumidor. Em janeiro do ano passado – mês da posse de Trump –, o indicador que mensura a confiança do americano na economia estava em 71,7 pontos. Em dezembro, havia caído para 52,9, o que significa uma retração de 35,5%, de acordo com pesquisa feita pela Universidade de Michigan.

“O cenário é de incerteza. Quando você olha para os dados de confiança, o consumidor está preocupado com o risco de perder renda, de a renda não aumentar ou ainda que haja alta nos preços”, afirma Urani.

Em texto divulgado no início deste ano, Joanne Hsu, responsável pela pesquisa de confiança do consumidor elaborada pela Universidade de Michigan, afirmou que os americanos “continuam focados principalmente em questões do dia a dia, como preços elevados e o enfraquecimento do mercado de trabalho”.

A preocupação com os preços ocorre sobretudo com a alimentação em casa. De janeiro a dezembro, a inflação acumulada em 12 meses desse item passou de 1,9% para 2,4%. No mesmo período, a inflação geral caiu de 3% para 2,7%.

Os economistas afirmam que têm tido dificuldade para projetar a dinâmica inflacionária americana. Urani destaca que o patamar da inflação hoje é inferior ao que se estimava em abril, mês em que Trump anunciou o pacote de tarifas sobre importações. À época, as projeções indicavam que a inflação poderia encerrar o ano ao redor de 3,5%. O repasse mais lento dos preços ao consumidor e a negociação de tarifas com os países afetados estão entre as possíveis explicações por trás da inflação mais baixa do que o esperada.

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, diz, no entanto, que, se não fossem as tarifas, a inflação já estaria sob controle – ela está 0,7 ponto porcentual acima da meta. “A guerra comercial de Trump impediu o Fed de cortar mais a taxa de juros.”

O que esperar para 2026?

Os economistas divergem em relação ao futuro da economia americana. O BTG Pactual projeta um crescimento de 2,6% no PIB para 2026, o que significaria uma alta na comparação com 2025. O Santander estima estagnação.

No longo prazo, no entanto, a expectativa é de um cenário mais difícil devido à guerra comercial e ao desajuste fiscal. Samuel Pessôa afirma que a taxa de produtividade pode cair por causa das tarifas, ainda que a inteligência artificial reduza esse impacto.

Sergio Vale destaca que o corte de impostos promovido por Trump em 2025 não será compensado pelo aumento de arrecadação com os impostos sobre importação. “O déficit fiscal vai piorar uma situação que já era complicada. O gasto social nos EUA é baixo. Não tem onde cortar. Portanto, o governo deveria estar aumentando o imposto da população mais rica. Não é o que estamos vendo.”

Vale acrescenta que a população pobre deve ter dificuldade para elevar sua renda de forma mais intensa. Há discussões nos EUA – que precedem Trump – sobre a possibilidade de a economia estar em formato de K. Quando isso ocorre, as classes mais altas continuam enriquecendo enquanto as baixas empobrecem. No caso atual americano, patrimônios familiares têm crescido com a alta de ativos financeiros e de preços de imóveis, enquanto os salários reais arrefecem. Essa tendência se acentuou na margem no último ano, de acordo com os economistas.

O economista da MB Associados ainda alerta sobre o risco de estouro da possível bolha da inteligência artificial. Em 2025, o mercado acionário americano cresceu de modo importante impulsionado pelas empresas do segmento. O S&P 500 (índice que reúne as 500 maiores empresas do mundo listadas na bolsa de Nova York e na Nasdaq) subiu 34% no ano.

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