O cenário político do País – Jornal da Gazeta
- Na Mídia
- 22/03/2025
- Tendências

Em entrevista para o Jornal da Gazeta, Rafael Cortez, Sócio e Cientista Político da Tendências Consultoria, fala sobre o cenário político do País.
Futuro da direita no Brasil
O cenário político do Brasil está bastante movimentado. Começando sobre o bolsonarismo, vimos Bolsonaro fazer uma manifestação na semana passada no Rio de Janeiro, mas que não teve a mesma adesão de eventos anteriores.
Contou, entretanto, com a participação de governadores, como Tarcísio, que foi mais firme e enfático nas críticas à inflação e ao aumento de preços. Uma questão bastante difundida foi a da anistia.
Ao ser questionado sobre como vê, hoje, a posição da direita e o por quê, mesmo com Tarcísio tendo essa participação forte, Bolsonaro ainda insiste na anistia e não quer indicar um possível candidato às eleições do ano que vem, Cortez acredita que provavelmente não irá indicar, pelo menos onde o horizonte alcança.
Cortez explica que, de fato, o bolsonarismo e a direita estão presos à estratégia da luta política que o ex-presidente enfrenta para tentar minimizar ou, de alguma maneira, influenciar a sua batalha jurídica. Então, ele é o principal nome da oposição, mas que, de alguma maneira, está travado por problemas legais e tem tudo para enfrentar uma longa batalha jurídica.
Enquanto isso, trava-se o discurso da direita no sentido de trazer uma pauta que seja mais favorável para dar sinalizações ao eleitorado, que não esteja tanto ligada ao destino jurídico do ex-presidente.
Do ponto de vista da formação de novas lideranças, Cortez acredita que o destaque desse encontro foi a própria participação do governador de São Paulo, Tarcísio, que fez acenos relevantes para uma parte dessa base de apoio à direita e ao bolsonarismo em particular.
Sobre a possibilidade de haver quórum para aprovação da anistia de Bolsonaro, Cortez diz que talvez no curto prazo ainda não, mas há uma chance de que isso ocorra. Ele acredita que não é por acaso que Hugo Motta, presidente da Câmara, está tentando controlar um pouco o ritmo desse processo para ver se o tema vai perdendo força. Talvez ele esteja considerando que, assim que Bolsonaro eventualmente for condenado ou tivermos novas ações no âmbito judicial, isso perca ainda mais relevância.
Cortez acredita que a estratégia das forças que não podem simplesmente ignorar a pressão de uma parte da oposição, especialmente do PL, é justamente tentar “empurrar com a barriga” para ver se o tema perde força naturalmente. Mas ainda está no plano da viabilidade política, sim. Na Câmara, pode ser aprovado. No Senado, já seria um pouco mais complicado.
Sobre a situação de Eduardo Bolsonaro, que avisou que iria pedir licença para ficar nos Estados Unidos e, de lá, lutar por justiça, tentar conseguir apoio de Trump contra Alexandre de Moraes e criar um ambiente para a anistia dos que ele chama de “reféns do 8 de janeiro”, Cortez diz que o mandato dele está, em alguma medida, em risco, caso prossiga com essa estratégia política, que ainda não está bem clara. Muito provavelmente, o objetivo não é simplesmente o que foi declarado.
Cortez acredita que há um jogo político maior, pensando mais à frente, do que apenas essa agenda de curto prazo. No fundo, a ideia é que o bolsonarismo continue sendo a força mais relevante em 2026, se não na figura do próprio Bolsonaro, então na de algum nome da família.
Ao ser questionado sobre os motivos dessa ligação com Trump ser importante, Cortez explica que a intenção é tentar transferir para o bolsonarismo o prestígio que Trump tem junto a setores da direita.
O bolsonarismo sabe que vai ter concorrência. Não sabemos o tamanho dessa concorrência, mas é pouco provável que, sem Bolsonaro como candidato formal da direita, haja uma união ampla. A direita tem uma diversidade de discursos e de lideranças que orbitam em torno do ex-presidente.
Sobre a possibilidade de criação de uma superfederação entre PP e União Brasil, que poderia ser liderada por Arthur Lira e dessa ação vingar ou não, Cortez diz que tem tudo para ser o desenho que vai se consolidar.
Ele explica que não é tanto uma questão ideológica, mas, sim, uma estratégia para criar um partido maior e enfrentar essa concorrência. O PL já é muito robusto e ocupa um lugar importante na direita. É o partido do ex-presidente Bolsonaro e, portanto, tem um ativo político que PP e União Brasil não têm. Se essa fusão for adiante, Cortez diz que ela daria mais musculatura para que esse grupo se posicione melhor em 2026.
E por quê? Porque várias regras eleitorais estão mudando. Está ficando mais apertado para partidos menores e a tendência é de muitas fusões partidárias. Os partidos pequenos vão perder relevância. Essa fusão seria um passo importante para que a direita não bolsonarista tenha mais espaço em 2026.
Articulações políticas do governo
Finalmente foi aprovado o orçamento, mas há o custo da liberação de emendas que estavam represadas do ano passado. A previsão é de mais de R$ 50 bilhões para este ano.
A votação ocorreu com urgência, mas já estava muito atrasada. Também foi após a definição das comissões, e o PT ficou meio de lado nesse processo. Ele até conseguiu segurar algumas comissões importantes, mas a grande força no Congresso hoje é o PL e a centro-direita como um todo.
Cortez diz que estavam esperando algumas travas serem resolvidas, como a questão das emendas, que teve condicionantes, do ponto de vista do Supremo Tribunal Federal.
Também teve esse novo projeto para reaproveitar e executar os gastos. Esse foi o preço que os parlamentares impuseram ao governo para que ele tivesse minimamente condições de organizar os gastos públicos em 2025.
Isso vai dar o tom do restante do ano. Qualquer matéria que o governo queira aprovar terá um preço alto, porque a popularidade está em baixa e a rivalidade eleitoral está crescendo.
Ao ser questionado sobre e se vê por aí algum sinal positivo ou é a questão da barganha mesmo, Cortez diz que o principal dessa reforma foi resolver problemas relativos ao fluxo de gasto público que estavam travados, pensando nas emendas, seja pelo Judiciário, seja por um problema político.
O que Cortez acredita é que o presidente pensou,em termos de articulação política, “Eu preciso recuperar a popularidade” e colocou nomes de confiança para que, nesse processo de recuperação de popularidade, ele tenha alguma chance de atrair nomes importantes da centro-direita.
Cortez diz que, para ele, o raciocínio foi: não importa o nome que o presidente coloque nesse momento, se a popularidade dele não melhorar, não virá esse apoio da centro-direita. Assim, Cortez acredita que ele inverteu um pouco a expectativa de que se aproximasse da centro-direita, resolvendo primeiro aumentar a popularidade para depois ter condições melhores de barganha. Resta saber se vai aumentar a popularidade, dado aí alguns desafios no plano econômico.
Enquanto isso, o governo vai precisar caminhar em outras direções para pelo menos tentar estancar sua popularidade. O presidente Lula não virá como um presidente do tipo “pato manco”, ou seja, perdendo popularidade antes da eleição e tendo dificuldade de colocar uma coalizão de pé.
Confira a entrevista na íntegra no vídeo abaixo!