Novo Congresso ajudará nas reformas, dizem analistas – O Globo
- Na Mídia
- 05/10/2026
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À frente no 1º turno, candidato da oposição é visto como mais favorável a ajuste fiscal. Risco, apontam, é uma ‘guerra” com o STF
O mercado financeiro já vê impactos positivos nos ativos brasileiros diante do cenário que emergiu das urnas, com Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno. Flávio é avaliado pelos gestores como um candidato favorável a um ajuste fiscal mais forte da economia pelo lado do corte de gastos, apesar do governo de seu pai, Jair Bolsonaro, ter retirado precatórios da meta fiscal e ter feito uma expansão de despesas às vésperas das eleições. No primeiro turno, Flávio teve 47,03% e Lula 45,2% dos votos válidos.
Flávio disse durante a campanha que pretende cortar impostos, afirmou que vai promover um ‘tesouraço’ nos ministérios e mudar a regra fiscal, substituindo o arcabouço atual. Já Lula defende a manutenção do arcabouço fiscal e um ajuste mais gradual via controle de gastos, além de revisão de benefícios tributários. A dívida pública atingiu 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no atual governo, o maior patamar da História, subindo cerca de dez pontos nos últimos quatros anos.
“O resultado do primeiro turno, com Flávio Bolsonaro à frente e acima das expectativas, deve ser lido pelo mercado, num primeiro momento, como a redução de parte das incertezas que vinham sendo precificadas, particularmente o risco fiscal. A tendência é de uma reação mais positiva nos ativos de risco. Mas o segundo turno, em 25 de outubro, abre outra etapa da disputa, e a volatilidade pode continuar elevada”, analisa Elisa Machado, sócia e economista-chefe da Kat Investimentos, vinculada ao Safra Invest.
Para ela, o ponto central não é o nome do candidato, mas sim a probabilidade de uma mudança na trajetória fiscal. Nesse cenário, o prêmio de risco embutido nos juros de longo prazo tende a ceder. Isso ajuda no fortalecimento do real e dos ativos domésticos, explica.
Fortalecimento dos estados e do Senado na governabilidade
O economista Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central, atual professor da Georgetown University e colunista do GLOBO, avalia que, em caso de vitória, Flávio terá uma base grande no Congresso, bem maior que o pai, Jair Bolsonaro, teve em 2018. Com isso, poderia facilmente passar as reformas fiscais necessárias.
— O único risco seria se perder em alguma guerra contra o Supremo Tribunal Federal (STF). Mas dado o perfil menos radical dele em comparação, por exemplo, ao irmão Eduardo, acho mais provável que ele faria algum tipo de composição para pedir apenas a saída de Alexandre de Moraes — diz o economista.
Para Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e sócio da Jubarte Capital, os ativos brasileiros performam bem nesta segunda-feira não só pelo fato de Flávio Bolsonaro ter terminado o primeiro turno à frente de Lula, mas também pela eleição de candidatos da centro-direita ao Senado e aos governos estaduais.
— O fato de Flávio terminar na frente, com uma boa probabilidade de levar no segundo turno, faz com que a chance de o país ter algum ajuste fiscal cresça. E quando ela cresce, os ativos brasileiros, que têm estado muito estressados, apresentam alguma recuperação. Estamos vendo simplesmente o mercado reagindo a uma perspectiva econômica melhor, principalmente fiscal — diz Figueiredo citando os títulos de longo prazo do Brasil, que estavam pagando inflação mais 8%. — É inacreditável. Agora, eles estão recuperando — afirmou.
Para o sócio e economista sênior da Tendências Consultoria, Silvio Campos Neto, o cenário que emerge desse primeiro turno, claramente, é mais positivo para a direita do que se pensava, pelo menos antes das eleições. Mas ninguém esperava o resultado da forma como aconteceu, diz Campos Neto, não só na eleição presidencial, que tem maior peso e deixa uma situação muito favorável para Flávio Bolsonaro, mas também pela composição da Câmara e do Senado.
— Caso Flávio consolide a vitória no segundo turno, com esta composição do Congresso, a agenda econômica tem muita margem para andar, e os mercados acabam reagindo de olho nessa possibilidade — diz o economista, lembrando que a possível equipe econômica de Flávio vem com um diagnóstico correto da situação fiscal, da necessidade de melhorar o ambiente de negócios do país, focando em quem produz e gera riquezas.
Entre os nomes que estão sendo ventilados para compor a equipe econômica de Flávio, em caso de vitória, estão o da administradora Daniela Marques, que trabalhou com o ex-ministro da Fazenda Paulo Guedes, e também foi presidente da Caixa. O ex-presidente do Credit Suisse no Brasil e sócio da QMS Capital, Marcelo Kayath, também é um nome cotado para assumir o Ministério da Fazenda em um eventual governo de Flávio.
Campos Neto pondera, entretanto, que a liderança de Flávio ainda não foi testada junto à base e, mesmo as visões e convicções econômicas do candidato não são muito conhecidas. Estes fatos podem calibrar o otimismo em excesso do mercado. Ele lembra que o tema fiscal é desafiador (já que implica corte de gastos) e impopular. No mercado, economistas defendem um ajuste fiscal pelo lado dos gastos de algo entre R$ 250 bilhões a R$ 300 bilhões, nos próximos quatro anos.
O risco apontado por Campos Neto é o novo governo enfrentar um acúmulo de agendas, principalmente a agenda institucional, que possa dificultar ou se sobrepor a agenda econômica.
— Questões ligadas ao Supremo são importantes e precisam de discussão, mas a agenda fiscal é prioridade zero, pelo menos pensando do ponto de vista econômico e dos mercados. Então acho que tem um risco aí de você ter uma divisão de atenções, de gastar capital político com outros temas não econômicos. Nesse sentido, podemos ter algumas releituras de cenários à frente, aparando um pouco desses excessos — diz o economista, lembrando que há um cenário internacional bem desafiador, com juros altos, petróleo caro e turbulências geopolíticas.
Governabilidade maior
O fortalecimento de candidatos de centro-direita no governo dos estados também é apontado como uma mudança importante na correlação de forças, e aumenta o peso dos governos estaduais na equação de governabilidade dos próximos anos, diz a analista da Kat Investimentos.
“Isso fica ainda mais relevante com o novo Senado, majoritariamente de centro-direita. Para o mercado, mais importante do que a leitura ideológica é o que essa composição significa em capacidade de articulação, aprovação de reformas e execução de uma agenda econômica e fiscal a partir de 2027”, afirma a analista em relatório.
Na análise da Kat Investimentos, até o segundo turno, três fatores devem pesar mais: para onde vão os votos dos candidatos eliminados, principalmente os de centro, ainda que um movimento de voto útil tenha sido percebido no primeiro turno; a base que o próximo presidente terá no Congresso; e a credibilidade da equipe econômica.
“O mercado vai querer nomes e regras. A trajetória da dívida pública, a disciplina fiscal, o controle dos gastos e as perspectivas de crescimento continuam sendo determinantes para as expectativas e para os preços dos ativos”, disse Elisa Machado.
Em relatório, os analistas do Citi dizem que o fato de Flávio Bolsonaro ter ficado à frente de Lula no primeiro turno é um resultado que deve ser visto positivamente pelo mercado, diante da expectativa de uma “estrutura de políticas mais favorável ao mercado e de maior disciplina fiscal”.
“Embora a eleição ainda não esteja decidida e o segundo turno esteja marcado para 25 de outubro, desde a redemocratização do Brasil, nenhum candidato que terminou em primeiro lugar no primeiro turno acabou perdendo o segundo turno”, diz o relatório do Citi, que afirma que o Brasil continua sendo o mercado preferido do banco na América Latina e, um governo mais favorável ao mercado, favoreceria prêmios de risco mais baixos, taxas de juros de longo prazo menores e um cenário mais positivo para as ações brasileiras.
Em relatório, os analistas do BTG avaliam que, se eleito, Flávio Bolsonaro poderia trazer “medidas mais decisivas para enfrentar os urgentes desequilíbrios fiscais do país”. Isso poderia abrir espaço para uma alta de 20% nas ações de empresas brasileiras (que estão com valor descontado, segundo o BTG), com o Ibovespa retornando à média histórica de avaliação. O banco, no entanto, não descarta que as ações poderiam avançar até 45%. O BTG vê sucesso em companhias como “varejistas, construtoras de médio e alto padrão, empresas do mercado de capitais e companhias alavancadas (com alto endividamento)”.
O analista de macroeconomia e política da Ativa investimentos, Étore Sanchez, classificou o resultado da eleição como surpreendente, não apenas por conta do pleito presidencial ter encerrado o primeiro turno com Flávio à frente de Lula, mas também porque quadros históricos da política nacional perderam mandato.
“Essas alterações denotam que os brasileiros buscam mudanças profundas”, escreveu o analista em relatório a clientes, que prevê uma agenda de reformas da economia e redução da insegurança jurídica, em caso de vitória do candidato do PL.
“Reforçamos nossa perspectiva de que a Selic tem potencial de cair fortemente ao longo de 2027. O mais emblemático deverá ser o câmbio, que deve terminar o ano a R$ 4,50”, apontou o analista da Ativa, que avalia que a possível vitória de Flávio na presidência, além de uma agenda fiscal mais saudável, esvazia as chances de uma ala mais fiscalista na economia.
No exterior, fundos ligados ao mercado brasileiro já apresentaram desempenho positivo durante a abertura dos mercados. Um fundo de ETF (fundo de investimento com cotas negociadas diretamente na Bolsa de Valores, cujo objetivo é replicar o desempenho de um indicador financeiro) negociado no Japão que acompanha as ações brasileiras chegou a subir 14%. Nos Estados Unidos, o ETF iShares MSCI Brazil, avançava mais de 12% nas negociações de pré-abertura em Nova York.
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