Tendências Consultoria Econômica

  • Português
  • English
Edit Template

Investidor estrangeiro aposta no Brasil, mas questão fiscal gera preocupação – O Estado de S. Paulo

Com a incerteza provocada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, capital global tem procurado ativos mais arriscados; em janeiro, a Bolsa brasileira subiu 18,42% em dólar

O início de ano costuma ser marcado pela reorganização da carteira dos investidores tanto no Brasil quanto no exterior. Em 2026, os números confirmam exatamente esse movimento: os países emergentes, incluindo a economia brasileira, ampliaram sua participação na preferência dos investidores globais.

Diversos fatores explicam esse cenário. Entre eles, as incertezas geradas pela administração de Donald Trump nos Estados Unidos — não apenas na condução da política econômica, mas também na forma como o republicano tem lidado com as instituições do país. Há ainda uma leitura de que a atividade global está mais forte do que o previsto pelos analistas. Isso, combinado com um cenário de queda de juros, estimula a busca por ativos considerados mais arriscados.

No curto prazo, todo esse movimento global ajuda a suavizar as incertezas da economia brasileira, como a questão fiscal. A desorganização das contas públicas se arrasta há mais de uma década — o Brasil se tornou um país emergente com uma dívida elevada — e permanece na mira do investidor.

“Esse movimento tem nome e sobrenome: investidor estrangeiro. E o Brasil está no meio desse processo que tem beneficiado os países emergentes”, afirma Luis Otavio Leal, economista-chefe e sócio da G5 Partners.

Em janeiro, diante de todo esse contexto, a migração de dinheiro para a Bolsa de Valores brasileira surpreendeu. Na B3, o saldo de recursos dos investidores estrangeiros somou R$ 26,314 bilhões, um montante acima do observado em todo o ano de 2025, quando foi de R$ 25,473 bilhões.

No mês passado, a Bolsa brasileira subiu 18,42% em dólares e colheu o terceiro melhor resultado entre os 21 mercados analisados pela consultoria Elos Ayta. O índice brasileiro ficou atrás do Peru e da Colômbia.

Com a entrada de recursos no Brasil, o real também se fortaleceu em 2026. O dólar passou a ser cotado no patamar de R$ 5,20, abaixo da cotação de R$ 5,50 no fim do ano passado.

“Não é um movimento de saída dos Estados Unidos, simplesmente os investidores estão colocando um pouquinho mais dos seus recursos em outros países. É um fluxo novo e uma parte está indo para países emergentes”, diz Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management.

A incerteza Trump

As preocupações em relação ao atual governo americano passam, por exemplo, pelas políticas agressivas, como a imposição de tarifas de importação altíssimas, embora Trump tenha recuado em parte delas; abrangem as duras críticas ao presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, com os receios de intervenção no banco central americano; e envolvem as seguidas movimentações do republicano no tabuleiro global da geopolítica.

Desde que assumiu o governo, Trump não tem poupado críticas a Powell em relação à condução da política monetária e tem pressionado o principal banco central do mundo a reduzir as taxas de juros.

No fim de janeiro, o republicano indicou o ex-diretor da instituição Kevin Warsh como novo mandatário do banco central americano. Na quarta-feira, 4, em entrevista concedida para a NBC News, Trump disse que Warsh não teria sido escolhido para o cargo se desejasse aumentar as taxas de juros.

“Hoje, os Estados Unidos são fonte de risco e isso desde o ambiente interno do país, olhando para suas instituições de forma geral, e reverberando para o mundo a partir do momento em que as regras internacionais não são seguidas”, diz Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia e análise setorial da Tendências Consultoria.

Economia resiliente

Mesmo com toda essa turbulência provocada por Trump, a economia global ainda demonstra resiliência, o que amplia o apetite dos investidores por ativos considerados mais arriscados.

Há um aumento dos gastos em defesa nos principais governos, diante dos riscos geopolíticos recentes, o que acaba estimulando o crescimento econômico. Nos Estados Unidos, em particular, também há o avanço do volume de investimentos em inteligência artificial. “O problema dessa história são os governos mais endividados”, afirma Alessandra.

No comércio global, os países conseguiram se reorganizar, apesar das tarifas. No ano passado, o Brasil colheu uma exportação recorde, e a China viu suas vendas para o mundo crescerem 5,5% na comparação com 2024, alcançando um superávit comercial recorde.

Em janeiro deste ano, o Fundo Monetário Internacional (FMI) elevou a projeção de alta do Produto Interno Bruto (PIB) global para 3,3% em 2026, acima da previsão anterior (3,1%).

“O mundo lida com um crescimento, uma inflação não tão forte como a esperada e com os bancos centrais cortando juros — ou com um discurso de manutenção, não de alta”, diz Solange.

Nos EUA são esperados dois cortes nas taxas de juros. No Brasil, os analistas consultados pelo relatório Focus, divulgado semanalmente pelo BC, projetam que a Selic encerre o ano em 12,25% — atualmente, ela está em 15%, no maior patamar em quase duas décadas.

Dúvidas locais e internacionais

Por ora, é difícil prever se esse movimento pode continuar a beneficiar os países emergentes — tanto por questões internacionais quanto locais.

“Se houver qualquer mudança no cenário internacional que acabe com esse movimento de dólar mais fraco, os fundamentos brasileiros vão ter seus preços marcados a mercado”, afirma Solange.

No Brasil, os analistas apontam que a questão fiscal deve voltar ao centro da atenção dos investidores, sobretudo quando houver um cenário eleitoral mais claro: quais serão as chapas que vão concorrer à Presidência, quais serão as propostas de cada candidato e o que as pesquisas eleitorais vão indicar sobre as reais chances de cada um na disputa?

Com uma dívida crescente — e sem sinal de estabilização tão cedo —, há uma certeza de que o próximo governo vai precisar endereçar algum tipo de ajuste fiscal.

“Os resultados fiscais de 2026 não devem ser tanto o tema de debate quanto a agenda fiscal de 2027”, disse Fernando Honorato, coordenador do grupo consultivo macroeconômico da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e economista-chefe do Bradesco, em evento da entidade.

Sem resolver a vulnerabilidade das contas públicas, a economia brasileira fica suscetível a enfrentar uma piora se houver alguma mudança no cenário internacional. E o Brasil já viveu solavancos desse tipo recentemente. No fim de 2024, por exemplo, o dólar chegou a R$ 6,30 num contexto em que havia uma incerteza fiscal — por causa do pacote de contenção de gastos apresentado pela equipe econômica, considerado insuficiente — e pelas dúvidas que pairavam em relação ao início do segundo mandato de Trump, que estava recém-eleito.

“As crises fiscais são graduais, graduais, graduais, até que elas são abruptas. Quando é que ocorre essa virada? É muito difícil saber”, disse Rodrigo Azevedo, sócio da Ibiuna e ex-diretor do Banco Central, também no encontro da Anbima. “Essa virada pode ser por questões locais ou pode ser por questões globais, mas a questão mais importante é que existe uma fragilidade clara.”

O segundo semestre também será marcado pela eleição de meio de mandato nos Estados Unidos, na Câmara e no Senado, o que pode revelar como será a parte final do governo Trump. Há também uma série de riscos envolvidos nessa disputa. Por exemplo, quais medidas o republicano pode adotar para tentar garantir a maioria no Congresso — ele já pediu que o seu partido nacionalize as eleições. E segundo, em caso de derrota, se ele pode agravar uma crise institucional.

“Esse momento pode ser muito ruim para o Brasil, porque vai ser exatamente o período em que o Brasil vai estar na eleição e os nervos vão estar à flor da pele”, diz Leal. “Pode ser uma tempestade perfeita como vimos lá no final de 2024.”

Reprodução. Confira o original clicando aqui!