Entre sinais de alívio na inflação e riscos fiscais, BC prepara o início do corte da Selic – Veja
- Na Mídia
- 08/02/2026
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O cenário ainda é incerto, daí a cautela com os próximos passos
Ao assumir o comando do Banco Central, no início de 2025, Gabriel Galípolo afirmou que não pretendia se tornar um campeão de popularidade, dada a natureza espinhosa de seu trabalho — que consiste, a depender do cenário, em esfriar a economia para a inflação não disparar. Naquele momento, esse era um risco real. A alta de preços rondava os 5% ao ano, bem acima do centro de 3% e também do teto de 4,5% da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional. Indicado pelo presidente Lula, Galípolo chegou sob desconfiança: havia o temor de que reduzisse a Selic apenas para satisfazer o padrinho político. Mas ele fez o oposto. O chefe do BC deu continuidade ao aperto monetário iniciado pelo antecessor, Roberto Campos Neto, elevando o juro até 15% anuais — a maior taxa desde 2006, quando bateu em 15,25%. Nos últimos meses, o esforço do BC começou a ser recompensado. A inflação recuou, com projeções de 3,4% para este ano. Foi o sinal para uma mudança de rota. Na ata da reunião do fim de janeiro, o Copom, o comitê de diretores do BC que decide a taxa básica de juro, indicou que deve começar a fazer cortes em março. “Mas o próprio BC manteve o balanço de riscos”, diz Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, em alusão aos fatores que podem frear ou acelerar os preços. “Isso mostra que não está muito convencido de que vai bater a meta.”
A missão é difícil, e a pressão por mudanças cresce a cada dia diante dos efeitos paralisantes causados pelo juro alto. Em 2025, foram financiados 458 000 imóveis com recursos da poupança — a principal fonte de crédito imobiliário da classe média, já que o programa Minha Casa, Minha Vida atende a famílias de menor renda com recursos do fundo de garantia dos trabalhadores. O número representa uma queda de 14% em relação a 2024. “A política monetária restritiva prejudica toda a economia, a geração de emprego e a renda”, afirma Fernando Ferreira Filho, presidente da CBIC, entidade que reúne as construtoras. O mercado de trabalho também sentiu o impacto: o Brasil criou 1,28 milhão de empregos formais no ano passado, 23% menos que em 2024, o pior desempenho desde a pandemia de covid-19. Até os investidores sofrem. Com exceção dos fundos de renda fixa, que captaram 84 bilhões de reais, os demais enfrentam fuga de recursos. A disparada em 2025 de 34% do Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, não impediu que 54 bilhões de reais fossem sacados dos fundos de ações. Os multimercado tiveram resgates de 59 bilhões de reais.
O cenário ainda é incerto, daí a cautela com os próximos passos. Enquanto o Copom projeta IPCA de 3,4% neste ano, os analistas são mais conservadores e estimam, em média, 3,99% em 2026 e 3,80% em 2027. A disparidade de projeções é central para definir a magnitude do corte da Selic a partir de março, se isso realmente ocorrer. Outro ponto de atenção é a inflação de serviços. Longe de arrefecer, a alta desses preços acelerou desde setembro: passou de 0,13% naquele mês para 0,41% em outubro, 0,60% em novembro e 0,72% em dezembro. No acumulado do ano, atingiu 6,01%, acima dos 5,96% registrados em 2024.
Por outro lado, alguns fatores importantes vêm empurrando para baixo a inflação. A fuga de investidores dos Estados Unidos, provocada pela imprevisibilidade do presidente americano Donald Trump, redirecionou dólares para mercados emergentes como o Brasil. O fluxo de capital estrangeiro contribuiu para a queda de 11% da taxa de câmbio no ano passado, um movimento que prossegue neste início de 2026. É fácil entender por que isso provoca efeitos diretos na inflação brasileira. A valorização do real barateia as importações e ajuda a conter a alta de preços. Mas é arriscado contar apenas com a ajuda do câmbio. Basta os investidores voltarem a confiar na economia americana ou perderem o apetite pelo Brasil para que a saída de dólares gere novas e perigosas pressões inflacionárias. “Basear o corte do juro em um fator tão volátil quanto o câmbio é sempre arriscado”, afirma Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval.
Os mais cautelosos alertam que não é preciso muito para afugentar os investidores estrangeiros. Um gatilho seria a deterioração fiscal provocada pelo populismo de Lula em seu empenho por se reeleger em outubro. O aumento dos gastos públicos atrapalha o BC por dois motivos. Primeiro, esse dinheiro aquece o consumo sem que a oferta de bens e serviços cresça no mesmo ritmo. Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Banco Santander, calcula que a isenção do imposto de renda para quem ganha até 5 000 reais mensais e outros incentivos fiscais injetarão 90 bilhões de reais na economia até dezembro. “Por isso, o Copom manterá a Selic em patamar ainda elevado, mesmo após os cortes”, afirma ela. Segundo motivo: à medida que o déficit público cresce, o mercado exige juro mais alto para financiar o governo, estreitando a margem de manobra do BC. “A péssima situação fiscal é o que mantém o juro tão elevado”, diz Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e colunista de VEJA. “É insustentável.”
Ainda assim, para especialistas como Maílson, os “sinais inequívocos” de desaceleração da economia permitem reduzir a taxa Selic, desde que com parcimônia. Os mais conservadores esperam um corte de 0,5 ponto. Com as eleições dominando o segundo semestre, os analistas entendem que a janela para novos cortes se fechará em setembro, quando a Selic deverá estar em 12,25%. Somente depois que se souber o grau de comprometimento do próximo presidente com o necessário ajuste das contas é que será possível definir os próximos passos. A expectativa é de que venha uma política econômica responsável, que não leve o BC — e o país — a retroceder.
Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981
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