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Economia brasileira desacelera e cresce 0,5% no segundo trimestre – Estadão

Desempenho do PIB ficou dentro do esperado pelos analistas; intervalo das previsões variava de alta de 0,2% a 0,7%

A economia brasileira perdeu fôlego no segundo trimestre e cresceu 0,5%, de acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira, 1º. Nos primeiros três meses do ano, o Produto Interno Bruto (PIB) havia subido 1,1%.

O desempenho do PIB ficou dentro do esperado pelos analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, cujo intervalo variava de alta de 0,2% a 0,7%. O número também veio um pouco acima da mediana das previsões, que era de avanço de 0,4%.

O principal motivo da desaceleração da economia brasileira é o patamar elevado da taxa básica de juros (Selic) – atualmente em 14% ao ano – por um longo período. Os juros altos, além de afetarem o investimento das companhias e encarecerem o consumo das famílias, têm levado a um endividamento das empresas e das pessoas físicas. Por outro lado, o desempenho da agropecuária e da indústria extrativa contribuíram para o resultado positivo do segundo trimestre.

Na comparação com o segundo trimestre do ano passado, a alta do PIB foi de 2%.

“O número mostra o início de um processo de desaceleração, de esgotamento do crescimento, o que faz todo o sentido, porque estamos em um cenário de juros reais elevados há muito tempo”, diz Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados.

No segundo trimestre, do lado da oferta (ou da produção), houve crescimento no setor de serviços (0,2%) e na indústria (0,1%) em relação aos primeiros três meses do ano. A agropecuária subiu 2,8%.

Quando se analisa o desempenho da indústria, a de transformação – mais sensível ao aperto monetário – recuou 0,4% na comparação com os três meses anteriores. Já a extrativa avançou 3,4%, impulsionada pela produção de petróleo e pelo aumento de preços da commodity no cenário internacional.

Pelo lado da demanda, o consumo das famílias recuou 0,4% e o consumo do governo avançou 0,4%, respectivamente. A formação bruta de capital fixo (que mede a taxa de investimento e ativos fixos, como máquinas e equipamentos) cresceu 1,2%. As exportações recuaram 0,8% e as importações subiram 1,8%.

No segundo trimestre, o IBGE apurou uma taxa de investimento de 16,1% do PIB, abaixo dos 16,6% do mesmo período do ano passado. Já a taxa de poupança foi de 16,6%, acima dos 16,5% do segundo trimestre de 2025.

Impacto dos juros

O patamar dos juros tem levado a um endividamento recorde das famílias e das empresas – os casos de recuperação judicial têm sido frequentes. Segundo um levantamento da consultoria Tendências, a renda disponível das famílias para consumo, depois de descontados os gastos com itens essenciais e com o pagamento dos serviços de dívidas, como empréstimos e financiamentos, ronda os patamares mais baixos desde o início da série histórica, que começou em 2011.

O aperto da política monetária tem mitigado os impactos das medidas anunciadas pelo governo Lula, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e inúmeras medidas de créditos e subvenções, por exemplo, numa tentativa de estimular a economia diante de um cenário eleitoral bastante apertado.

“Entendemos que faz sentido ser conservador em relação aos impactos dos estímulos, porque uma parte desse impacto vem sendo suavizada pela condição financeira”, afirma Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia e análise setorial da Tendências Consultoria.

Desde março, quando a Selic estava em 15%, o Comitê de Política Monetária (Copom) iniciou um tímido processo de redução dos juros. Por ora, a expectativa majoritária dos analistas é a de que os juros encerrem este ano em 13,75%.

“Com os estímulos, o governo aumentou o risco do País por causa da piora do cenário fiscal, que se tornou mais preocupante. Do ano passado para cá, o assunto dominante é a questão da dívida”, afirma Silvia Matos, pesquisadora da área de Economia Aplicada do FGV Ibre e coordenadora do Boletim Macro. “E a queda dos juros foi mais ou menos interrompida, e você está num contexto de endividamento das famílias e, ao mesmo tempo, em um cenário externo em que a gente nunca sabe se é 100% bom ou ruim.”

O que esperar daqui em diante?

Com a expectativa de que os juros sigam ainda em patamares elevados, os analistas esperam que a economia brasileira continue desacelerando ao longo dos próximos trimestres.

A expectativa é de que o PIB do terceiro e do quarto trimestres apresente números próximos da estabilidade.

“O que preocupa mais é o segundo semestre. A gente puxou a corda demais. O fiscal puxou de um lado, e o monetário teve de puxar de outro”, diz Silvia. “Mesmo que a Selic não tenha subido, a gente viu que as condições financeiras pioraram.”

Nos últimos anos, a economia brasileira tem apresentado uma trajetória semelhante à esperada para 2027. Tradicionalmente, o primeiro semestre tem apresentado números melhores do que a parte final do ano, por causa da agropecuária – concentrada nos três meses iniciais —, do reajuste do salário mínimo e da antecipação do 13.º salário para aposentados e pensionistas do INSS.

Hoje, a expectativa dos analistas é de que o resultado do PIB de 2026 fique um pouco abaixo de 2% – no ano passado, a economia brasileira cresceu 2,3%.

O futuro da economia brasileira ainda envolve outras grandes incertezas. Primeiro, qual será o resultado da eleição e o que o vencedor vai propor para as contas públicas do País, dado que o nível de endividamento da economia brasileira é elevado. Segundo, qual será a intensidade do El Niño e os impactos econômicos do fenômeno climático. E terceiro, como o cenário externo vai se comportar, com os desdobramentos do conflito no Oriente Médio e a eleição de meio de mandato nos Estados Unidos.

“No começo do ano, havia uma expectativa de ter um crescimento acima de 2%. Eu acho que, definitivamente, esse PIB não consegue de fato crescer acima de 2%. Fica abaixo de 2%”, afirma Vale.

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