Como a Reforma Tributária vai redesenhar os preços e a competitividade empresarial
- Reforma tributária
- 05/02/2026
- Tendências
Por: Fabiana Tito, sócia e diretora da Tendências, e Mário N. Westrup, consultor da Tendências
A Reforma Tributária avança para substituir o atual conjunto fragmentado de cinco tributos – Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Programa de Integração Social (PIS), Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e Imposto Sobre Serviços (ISS) – pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Entre seus efeitos mais significativos, está o realinhamento dos preços relativos na economia. A transição para um modelo de não cumulatividade ampla, com alíquotas mais uniformes, provocará uma reestruturação na precificação ao longo das cadeias produtivas, afetando tanto os custos dos insumos adquiridos pelas empresas quanto os preços dos bens finais oferecidos a consumidores.
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Para as empresas, antecipar esses impactos não é apenas necessário para a adaptação, mas representa uma oportunidade estratégica. O novo contexto tributário deverá aumentar a competitividade de alguns setores, enquanto outros sentirão retração na demanda – o que exigirá ajustes de posicionamento no mercado. Além disso, mudanças nos custos dos insumos têm o potencial de alterar a eficiência relativa de diferentes planos de negócio e tecnologias produtivas. Antecipar esses movimentos pode contribuir para o sucesso em estratégias de investimento de longo prazo.
Expectativas quanto à evolução dos preços passam a ser elemento-chave nas negociações com fornecedores e na definição de arranjos contratuais. Estratégias de precificação que levam em conta essas mudanças se beneficiam e permitem às companhias reagir com agilidade diante do novo cenário.
Não por acaso, empresas de todos os portes têm demonstrado interesse em compreender como a Reforma afetará a dinâmica de preços e como projetar o impacto sobre seu portfólio de concorrentes e fornecedores.
O desafio central reside no cálculo do impacto tributário ao longo das cadeias produtivas. Com o novo sistema, a cobrança será mais transparente: poucos tributos, pouca variação de alíquota e inspiração no modelo ideal de Imposto de Valor Agregado (IVA), em que a tributação ao longo da cadeia é neutralizada via créditos, permitindo que se conheça a carga efetiva a partir da alíquota incidente sobre o elo final.
O grande obstáculo, porém, está no regime vigente. Hoje, o sistema é marcado por regras fragmentadas e incidências cumulativas pouco transparentes, que dificultam o rastreio dos tributos embutidos ao longo da cadeia.
Dados contábeis das empresas, isoladamente, não bastam, pois há custos tributários herdados dos elos anteriores da cadeia – o chamado “resíduo tributário” –, exigindo a análise dos fluxos de arrecadação e dos encadeamentos entre setores. As estimativas resultantes são imperfeitas, tornando cada diagnóstico setorial um trabalho individualizado e fundamental para balizar estratégias empresariais diante da Reforma.
No entanto, mesmo após mensurar a variação da carga tributária, permanece a incerteza sobre o repasse efetivo desses custos aos preços finais. Em mercados mais sujeitos a pressões competitivas, a teoria econômica indica que alterações na carga são em grande medida repassadas aos preços, com pouco espaço para ajuste nas margens. Já em setores com menor competição, essa relação é menos direta: a intensidade do repasse (pass-through) depende do formato da curva de demanda, e os preços podem variar mais ou menos do que o aumento/a desoneração da nova carga tributária.
Estudos empíricos mostram que, em mercados com maior competição, o repasse tende a ser próximo a 100%. Em mercados menos competitivos, porém, esse valor pode ser substancialmente menor. Há também registros de situações em que o impacto no preço supera a variação da tributação, ilustrando a importância de análises empíricas cuidadosas para estimar o efeito em cada setor.
Adicionalmente, os impactos da Reforma Tributária sobre custos não decorrem unicamente de alterações de alíquotas. Mudanças nos custos de gestão tributária e na operacionalização de recolhimento do tributo, adaptação de novas rotinas de apuração – especialmente durante o período de transição –, além de alterações no sistema de pagamento dos tributos (com a introdução do split payment), podem impactar os gastos com gestão tributária, o fluxo de caixa e, consequentemente, o custo de capital das empresas. Todos esses fatores serão sentidos de maneira distinta, de acordo com porte, perfil e setor de atuação.
Apesar do deságio em navegar pelo período de transição, marcado pela sobreposição de regimes e por eventuais elevações temporárias de complexidade, o destino vislumbrado é positivo: maior transparência na formação de preços ao consumidor, eliminação de incidências ocultas e aumento na rastreabilidade do componente tributário. A uniformização das alíquotas e a incidência “por fora” conduzem a uma estrutura mais clara, reduzindo as distorções que marcam o regime vigente.
Em suma, compreender e antecipar como a Reforma Tributária afetará os preços relativos é um diferencial competitivo inegável para as empresas dispostas a se reposicionar no mercado. Isso exige medir a carga efetiva ao longo das cadeias, identificar resíduos tributários e estimar, com base em evidência empírica, as elasticidades de demanda e o padrão de repasse de custos em seus mercados específicos.
Com informação de qualidade e atenção à fase de transição – incluindo aspectos operacionais como o split payment –, as empresas estarão melhor posicionadas para orientar decisões de precificação, renegociar contratos e investir de forma mais eficiente, separando impactos temporários de transformações estruturais, fortalecendo sua competitividade e seu posicionamento estratégico.
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