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Como a economia brasileira deve se comportar em 2026, ano de disputa eleitoral – Estadão

Provável candidato à reeleição, Lula deve colher o crescimento mais baixo do seu terceiro mandato, mas vai lidar com uma combinação de desemprego baixo, inflação controlada e juros altos, mas em queda

Em 2026, ano eleitoral, o presidente Lula deve colher o crescimento mais baixo de seu terceiro mandato. O desempenho da economia só não será mais fraco por causa dos estímulos vindos de políticas adotadas pelo governo.

Provável candidato à reeleição para um quarto mandato, Lula, apesar de toda a incerteza em relação ao desempenho das contas públicas, também deve lidar com uma combinação de desemprego baixo, inflação controlada, embora acima da meta de 3%, e taxa básica de juros (Selic) num patamar muito alto, mas em queda.

“A economia não deve ser um problema para o governo. Vai haver uma desaceleração, mas ainda vai estar bem ok”, afirma Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia e análise setorial da Tendências Consultoria. “Os juros estarão um pouco mais baixos, e a massa de renda ainda estará crescendo bem.”

Por ora, as projeções dos analistas apontam que o PIB deve crescer entre 1,5% e 2% no ano que vem, o que, se confirmado, vai representar uma desaceleração em relação a 2025, quando se espera que a economia tenha avançado pouco mais de 2% — o número será divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em março. Nos dois primeiros anos da atual gestão petista, a alta do PIB superou os 3%.

O cardápio de medidas adotado pelo governo para evitar a desaceleração no ano de disputa eleitoral é amplo e vem sendo desenhado desde 2025. Envolve isenção do pagamento do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, ampliação do crédito consignado e do Minha Casa, Minha Vida, abertura de linha de crédito direcionada para reformas, desconto de 100% na conta de luz para famílias de baixa renda que consomem até 80 quilowatts-hora (kWh) e gratuidade do botijão de gás para brasileiros em situação de vulnerabilidade, entre outras medidas.

Nos cálculos do banco Itaú, a isenção do Imposto de Renda deve injetar R$ 35 bilhões na economia, por exemplo. “São várias coisas, entre consignado, extensão do Imposto de Renda, Minha Casa, Minha Vida, Luz para Todos, Gás para Todos, compulsório e crédito para reformas. Tudo isso soma 0,7 ponto de contribuição para o PIB”, diz Pedro Schneider, economista do Itaú.

O banco estima que as medidas de estímulo anunciadas até agora devem contribuir para um avanço do PIB de 1,7% em 2026. Sem elas, portanto, o crescimento seria mais próximo de 1%.

Os economistas monitoram de perto as políticas de estímulo que o governo traçou e que eventualmente poderá traçar, dado o cenário fiscal bastante delicado — há um consenso de que o País precisará de um ajuste das contas públicas em 2027. Em 2026, a dívida bruta do Brasil deve alcançar um patamar próximo de 84% do PIB, o que é considerado elevado para uma economia emergente.

Juros em alta e desaceleração econômica

Com o aperto da taxa básica de juros, a desaceleração da economia brasileira já ficou evidente no segundo semestre de 2025. No terceiro trimestre, o PIB cresceu apenas 0,1% na comparação com o segundo trimestre. Nos últimos três meses do ano, o desempenho do PIB deve ser parecido, próximo da estabilidade.

No maior patamar em quase 20 anos, a Selic ajuda a explicar a desaceleração da economia, porque encarece o consumo das famílias e o investimento do setor privado. Em dezembro, na última reunião do Comitê de Política Monetária, a Selic foi mantida em 15% ao ano.

O ciclo de aperto monetário começou no fim de 2024 num momento de elevada incerteza com o rumo da política fiscal do Brasil — dólar chegou a bater em R$ 6,30, e as projeções de inflação ficaram distantes da meta, que é de 3%.

O cenário externo também teve bastante impacto no câmbio este ano. Houve um enfraquecimento mundial do dólar diante das políticas econômicas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“O Banco Central colocou a Selic em 15% em junho (de 2025) e sinalizou estabilidade até agora. Isso está produzindo os seus efeitos por meio de vários canais. E o primeiro canal é o do câmbio. O câmbio saiu de R$ 6,18 e veio para R$ 5,40, principalmente devido à desvalorização do dólar frente às grandes moedas, mas o Banco Central teve um papel de reancorar as expectativas”, afirma Leonardo Porto, economista-chefe do Citi Brasil.

A maior parte dos analistas prevê que o início de corte da taxa básica de juros ocorra em março. No relatório Focus, do Banco Central, os economistas consultados estimam que a Selic vai encerrar o ano que vem em 12,25%.

“Acredito que 2026 vai ser o ano em que o Banco Central vai estar mais isolado no combate à inflação comparado ao que vimos nos últimos anos”, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. Segundo ele, o câmbio não vai ajudar como ajudou, assim como a inflação de alimentos. Vai depender do esforço dele de trazer (a inflação de) serviços para baixo, completa.

“Houve uma apreciação forte do câmbio em 2025 e é difícil isso se repetir em 2026 com o cenário eleitoral”, acrescenta.

Inflação em queda, mas serviços resistem

Ao longo de 2025, as expectativas para a inflação melhoraram diante da dura atuação do Banco Central. A valorização do real e a boa safra agrícola, por exemplo, ajudaram na inflação de alimentos.

No entanto, o índice de preços de serviços segue pressionado por causa do mercado de trabalho bastante aquecido. No trimestre encerrado em outubro, a taxa de desocupação foi de 5,4%, a mais baixa já registrada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), cuja série histórica começa em 2012.

Em 2026, o desemprego médio do Brasil deve ser de 5,9%, de acordo com o Itaú.

No trimestre encerrado em outubro, a massa de salários em circulação na economia também renovou patamar recorde, totalizando R$ 357,265 bilhões, um aumento de R$ 3,292 bilhões em apenas um trimestre.

Em 2026, os analistas esperam que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fique em 4,1% — abaixo dos 4,36% esperados para 2025. Os dois números estão dentro do intervalo da meta de inflação, que vai até 4,5%.

“Estamos vendo uma inflação de serviços que cai pouco. Por isso, o IPCA também cede pouco e fica na casa dos 4%”, diz Alessandra, da Tendências.

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