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Com guerra, comida pode ficar mais cara – O Estado de S. Paulo

Especialistas dizem que fertilizantes mais caros em razão da alta do petróleo e El Niño podem encarecer alimentação em casa em cerca de 1,5 ponto porcentual

Depois da calmaria de 2025, a inflação de alimentos no domicílio volta a ser foco de preocupação neste ano. A guerra no Oriente Médio, que pode afetar o abastecimento de fertilizantes para o plantio da próxima safra de verão, o custo do frete por causa da alta do petróleo e os efeitos climáticos do El Niño previstos pelos meteorologistas para o segundo semestre fizeram alguns economistas especializados em preços elevar em até um ponto meio porcentual a expectativa de inflação da comida preparada dentro de casa.

A alimentação no domicílio é o terceiro grupo mais importante, entre os nove que compõem o Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA), a medida oficial de inflação. No IPCA-15 de março, a prévia da inflação, o peso da alimentação no domicílio foi de 15,2%. Ficou atrás só dos grupos habitação (15,30%) e transportes (20,4%).

Antes do início do conflito no Oriente Médio, a consultoria Logos Economia havia projetado um aumento de 3% no preço dos alimentos no domicílio neste ano. Com a guerra, ajustou a sua projeção para 4,4%, em um primeiro momento, e novamente para 4,6%, depois dos resultados do IPCA-15 de março, que mostraram pressão acima do esperado nos alimentos.

Por conta disso e pelos efeitos diretos do diesel na economia como um todo, elevou pela terceira vez seguida a projeção do IPCA para o ano, que agora é de 4,5%.

O economista Fabio Romão, sócio da consultoria, diz que a elevação da projeção para a inflação de alimentos neste ano ocorreu por causa da alta do preço do petróleo provocada pela guerra.

A cotação da commodity saiu da faixa de US$ 60 para mais de US$ 100 o barril, em poucas semanas. Isso encarece os custos de frete e reduz a oferta e aumenta os preços dos fertilizantes que levam matérias-primas derivadas do petróleo.

Uma influência adicional: o El Niño

“Adicionalmente, o aumento da projeção para a inflação da comida leva em conta as pressões esperadas por conta do El Niño no segundo semestre e as altas de preços dos bovinos ao longo do ano, bem como os desdobramentos nas cotações de outras proteínas, cuja demanda deve aumentar para substituir a carne bovina”, observa Romão.

Marcela Kawauti, economista-chefe da gestora Lifetime, também elevou a projeção da inflação da alimentação no domicílio. Projetava inicialmente alta de 3% e já espera elevação de 4,5%, por causa da guerra e dos efeitos do El Niño.

“O El Niño já estava na conta, mas aumentei a projeção porque parece que ele será mais intenso que o inicialmente previsto. A guerra terá efeito no primeiro semestre e o El Niño no segundo”, diz a economista. Por conta das mudanças, ela também elevou a projeção do IPCA cheio para o ano de 3,95% para 4,35%, ressaltando que o viés é de alta.

Dados do mais recente Boletim Focus do Banco Central mostram que a mediana das projeções da inflação aumentou nas últimas semanas por causa dos desdobramentos do conflito no Oriente Médio. Antes do início do confronto, a expectativa era de que o IPCA deste ano ficasse em 3,91%. No último informe do BC, a projeção do mercado estava em 4,17%, uma alta de 0,26 ponto porcentual em quatro semanas.

Nas alturas

Economistas que não revisaram para cima a projeção da inflação de alimentos e do IPCA como todo para este ano depois que a guerra começou é porque eles já tinham números elevados para os dois indicadores.

A consultoria MB Associados, por exemplo, projetava uma alta de 4,2% para inflação de alimentos e para o IPCA cheio deste ano. Sergio Vale, economista-chefe da consultoria, diz que o viés é de alta para as duas projeções. Isto é, o número final poderá ser maior do que esse, a depender da duração da guerra, que é a grande incógnita.

“Será muito difícil um IPCA abaixo de 4% esse ano, mas o limite superior ainda está em aberto e depende da guerra”, afirma Vale. Segundo o economista, se a guerra continuar nos próximos meses e o preço do barril de petróleo se sustentar em torno de US$ 100, ele acredita que o IPCA cheio e a inflação de alimentos poderá passar de 5% este ano.

No ano passado, a inflação de alimentos no domicílio foi de apenas 1,4% por uma situação excepcional: combinação de boas safras com real valorizado. Levantamento da consultoria Logos mostra que entre 2011 e 2025 a mediana da inflação da alimentação no domicílio foi de alta de 7,8% ao ano.

A consultoria Tendências foi outra que não alterou a projeção da inflação da alimentação no domicílio e do IPCA para o ano por causa da guerra porque tinha números mais conservadores em relação a seus pares. Espera alta de 5% para alimentação no domicílio em 2026 e de 4,1% para o IPCA cheio do ano.

“O risco é, sem dúvida, de alta, mas a revisão vai depender muito da extensão do conflito: se é algo que vai durar mais algumas semanas ou mais um mês ou mais do que isso”, diz Silvio Campos Neto, economista e sócio da consultoria.

No caso dos alimentos, o economista diz que o risco dos efeitos do El Niño na safra é importante, bem como a questão do abastecimento e do encarecimento dos fertilizantes para o plantio da próxima safra de verão. “Boa parte do que a gente importa de fertilizantes vem daquela região (de guerra) e os preços naturalmente também estão subindo. É claro que isso pode pegar, talvez não agora no curtíssimo prazo, mas vai aparecer nos próximos meses.”

Na avaliação da consultora econômica e pesquisadora da FGV-EESP, Tatiana Pinheiro, a inflação de alimentos deve ser monitorada e tem um viés de alta. Por enquanto, ela não alterou a projeção da inflação de alimentos para este ano. Mas ela vê potencial pressão de preços por conta dos fertilizantes e do El Niño no segundo semestre. Mas isso deve ter efeito sobre a inflação de alimentação de 2027.

Também o economista Fabio Silveira, sênior advisor da Volt Partners, vê os efeitos do conflito no Oriente Médio na inflação de alimentos para o consumidor só no final deste ano ou em 2027. Ele ressalta que 85% dos insumos usados na produção de fertilizantes são importados, e boa parte vem das regiões de conflito.

“Mas é sempre bom lembrar que estamos enxergando um dólar enfraquecido”, diz. E a perspectiva é de que esse cenário de enfraquecimento do dólar se mantenha. Isso pode, na sua avaliação, atenuar um impacto maior que a guerra poderia causar na inflação. “Sem falar na desaceleração econômica global.”

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