Caso Master, ataques ao Pix e juro a 15%: os destaques do primeiro ano de Galípolo no comando do BC – O Globo
- Na Mídia
- 28/12/2025
- Tendências
Presidente do Banco Central foi indicado por Lula e, apesar da cobrança, teve pulso firme com a Selic, mas tem enfrentado crises maiores à frente da autarquia
Gabriel Galípolo chegou ao comando do Banco Central em janeiro de 2025 com o desafio de convencer o mercado de que não pautaria as decisões sobre juros aos desejos políticos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o indicou ao cargo. Quase um ano depois, a condução da política monetária, embora sempre em evidência, parece ter sido o menor dos problemas em seu primeiro ano como presidente do BC, que teve a liquidação do Banco Master como maior foco de tensão.
As discussões sobre a segurança do sistema financeiro, motivadas por desvios milionários via ataques cibernéticos e por suspeitas de ligações de instituições reguladas com o crime organizado, também mobilizaram o ano de estreia de Galípolo à frente do BC.
O caso Master gerou repercussão do começo ao fim de 2025, e os questionamentos sobre a atuação do BC, em meio às conexões políticas de Daniel Vorcaro, dono da instituição hoje liquidada, devem se manter após a virada do ano.
Embora a situação do Master tenha ganhado os holofotes públicos no dia 28 de março, quando o BRB, banco estatal do governo do Distrito Federal, anunciou sua intenção de comprá-lo, a crise de liquidez da instituição e a estratégia agressiva de distribuição de CDBs já eram assunto no setor financeiro muitos antes.
Hoje, depois de o BC ter rejeitado a operação e liquidado o Master, já se sabe que o regulador vinha monitorando as relações do banco de Vorcaro com o BRB antes do anúncio da intenção de compra, devido a sinais de irregularidades em operações de cessão de carteiras de crédito. As descobertas da fiscalização do órgão foram comunicadas ao Ministério Público para apuração de suspeitas de crime contra o sistema financeiro em função de indícios de fabricação das carteiras, que, por sua vez, subsidiam a investigação da Polícia Federal sobre o caso.
Galípolo faz um contraponto às reclamações de que o órgão deveria ter agido antes. Sem citar a instituição de Vorcaro, o presidente do BC afirmou que a decisão de liquidação não poderia se pautar somente em emissão de CDBs a 140% do CDI, algo que não necessariamente configura infração ou problema. O argumento é que há regras previstas em lei para tratar instituições problemáticas e é preciso se pautar por evidências sólidas para evitar questionamentos futuros — que já começam a aparecer.
Tem que ser no ‘gabarito’
O ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jonathan de Jesus viu indícios de precipitação na decisão de liquidação e pediu explicações ao BC. Além disso, por determinação do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, terá que participar de acareação com Vorcaro e o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, afastado do cargo por suspeitas de conivência com fraudes do Master.
Toffoli avocou o inquérito, que antes estava na 1ª instância, para o Supremo devido ao envolvimento de um deputado federal e colocou sigilo máximo sobre o processo. A colunista do GLOBO Malu Gaspar publicou que Moraes pressionou Galípolo no caso Master. O ministro disse ter tratado da Lei Magnitsky.
— O Banco Central desde o início, pela experiência de outros casos, sabia que esse é um caso que precisa ser absolutamente gabarito (correto). A gente precisa que todo o processo se sustente ao longo do tempo, eles costumam durar 5, 10, 15 anos — disse Galípolo em entrevista à imprensa no último dia 18. — Obviamente, assim como nós tivemos com o MP (Ministério Público) e a PF (Polícia Federal), o BC, mas não só o BC, eu, enquanto presidente, estou à disposição do Supremo para fornecer todos os dados que já passamos para o MP e a PF, o que a gente documentou. Documentamos tudo. Cada uma das ações que foram feitas, das reuniões, das trocas de mensagens.
No primeiro ano, o novo comandante não teve sucesso em questões como a ampliação da autonomia do BC. É tema que deve continuar na agenda para 2026, assim como a ampliação do escopo de regulação para abarcar fundos de investimento. As medidas de segurança vão permanecer no foco do regulador, mas projetos importantes de inovação devem ser retomados, como o Drex (moeda digital). Manejar o ciclo de cortes da Selic em meio ao aumento da tensão eleitoral, que já provoca efeitos no câmbio, será outro desafio, além de acompanhar a “batalha jurídica” e desdobramentos do caso Master.
— A agenda do BC este ano foi muito extensa, e com temas muito difíceis. A discussão do Master criou muito ruído, e a agenda de segurança levantou o debate de fintechs contra bancos tradicionais. Mas o BC tem tido desempenho em uma linha técnica — avalia o economista Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria.
Receio superado
O economista destaca que a desconfiança do mercado financeiro com Galipolo vinha não só de sua proximidade com Lula, crítico frequente dos juros altos, mas de posicionamentos anteriores à chegada ao BC em 2023, como diretor de Política Monetária:
— Havia um receio de que ele assumiria para satisfazer as pressões do governo. Mas não foi nada disso que aconteceu. Galípolo tem sido irretocável em termos de condução da política monetária, com foco total na busca da meta de inflação, em ambiente desafiador.
‘Cheiro de queda de juros’
Ao contrário do esperado — ou temido —, o indicado de Lula não pegou leve com o aumento de juros e elevou a Selic a 15% ao ano, maior nível desde o primeiro governo do petista. O patamar, alcançado em junho, tem sido mantido e mostra efeitos iniciais para esfriar a atividade e controlar a inflação, ainda que lentamente.
— É claro que o BC ainda não chegou ao objetivo de desinflação da inflação corrente e da reancoragem de expectativas nas metas. Mas o avanço foi bastante significativo e surpreendente — avalia Andrea Damico, economista e sócia-fundadora da Buysidebrazil.
Agora, o Comitê de Política Monetária (Copom) mantém postura cautelosa para assegurar o alcance da meta de inflação de 3%, sem dar sinais concretos de quando deve iniciar o ciclo de corte de juros, algo que o mercado espera para janeiro ou março. A postura rendeu críticas do governo, principalmente dos ministros da Fazenda, Fernando Haddad, e da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann.
O temor do Executivo é que a manutenção da Selic por “período bastante prolongado” resulte em desaceleração da economia em 2026, ano em que Lula tenta a reeleição.
Mesmo assim, as reclamações têm tom diferente das cobranças ao antecessor, Roberto Campos Neto, que era visto como adversário pelo presidente. Em comparação, mesmo com juros mais elevados, Lula disse que tem 100% de confiança em Galípolo.
— Todo o mundo está prevendo, da mesma forma que a gente sente o cheiro de chuva, estou sentindo o cheiro de que logo, logo, a taxa de juros vai começar a baixar — disse Lula a jornalistas no fim do ano.
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