Alimentos mais baratos e real forte devem pôr IPCA próximo da meta – O Estado de S. Paulo
- Na Mídia
- 20/02/2026
- Tendências
Estimativa é de um IPCA em torno de 3% a partir de março; governo tentará usar dado como trunfo eleitoral, mas peso da economia na decisão do voto tem caído
A inflação acumulada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses deve ficar abaixo de 4% a partir de fevereiro, e se aproximar do centro da meta perseguida pelo Banco Central, de 3%, já a partir de março, segundo economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast. Alguns analistas veem nisso algo que o governo Lula vai tentar vender como trunfo na disputa eleitoral deste ano. Outros ponderam que a questão econômica já não tem o mesmo peso na definição do voto.
A deflação de alimentos e a apreciação cambial – que afeta tanto alimentos quanto bens industriais – devem responder por boa parte do alívio na inflação acumulada em 12 meses.
Caso o cenário de parte relevante do mercado se confirme, será a primeira vez que a inflação ficará consistentemente abaixo de 3,5% na atual série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2021. Desde que a meta de inflação foi definida em 3%, a taxa em 12 meses nunca chegou tão próxima deste número, como deve acontecer em meados deste ano. Pelo que se observa nas pesquisas eleitorais, porém, os bons números da economia não têm sido suficientes para conquistar o eleitorado brasileiro. O cenário atual – inflação sob controle, atividade que cresce mesmo com taxa de juros de 15% ao ano e desemprego no menor nível histórico – implicaria, em tese, maior aprovação e menor rejeição para o presidente. Contudo, segundo o analista político e sócio da Tendências Consultoria, Rafael Cortez, a economia perdeu o protagonismo de definir, só por ela, o resultado das eleições presidenciais.
Para Bruno Serra, ex-diretor de política monetária do BC, a inflação corrente deve atingir 3,2% já em março, em meio ao início previsto do ciclo de cortes da Selic. Segundo ele, a inflação deve permanecer nesse nível, ou abaixo, até o fim de outubro, acelerando entre novembro e dezembro. “Mas essa alta também é questionável. Estamos mais confiantes de que a inflação vai ficar abaixo de 3,2% até outubro do que em relação ao repique no fim do ano.”
O presidente pode ter em mãos um nível baixo da inflação acumulada sobretudo em julho, na visão dos economistas. João Fernandes, da gestora Quantitas, por exemplo, considera que o IPCA deve rodar abaixo dos 3,5% de março a julho, caindo ainda mais, quando espera que atinja 3,07% O IPCA de julho deve ser divulgado em 11 de agosto, a cinco dias do início da campanha eleitoral.
Segundo ele, esse “vale” deve ser atingido justamente por causa do impacto do bônus de Itaipu no preço da energia elétrica. “Em 2025, esse bônus que derrubou as contas de energia entrou em agosto. Então, a janela de 12 meses, em julho de 2026, vai contar com esses dois momentos de queda forte da inflação”, explica. “Em agosto, se tudo ocorrer dentro do esperado, a tarifa de energia volta a subir e o acumulado em 12 meses (do IPCA) pula de 3,07% para 3,82%”.