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A parceria que prometia fazer do Flamengo uma potência global – e acabou com a falência de gigante – Estadão

No novo episódio do ‘Entre as Linhas’, Rodrigo Capelo relembra parceria do clube carioca em 1999

O ano é 1999. O Flamengo tinha duas propostas — uma da Hicks & Muse, outra da ISL — para criar uma empresa e modernizar a sua administração. Ambas fariam investimentos altos para os padrões da época, a fim de tornar o clube potência global. Com a construção de um estádio e a contratação de jogadores de ponta.

O flamenguista que viveu a época sabe no que deu o caso. A torcida sonhou com a chegada de craques como Batistuta e Seedorf e acordou, a princípio, com atletas de menos renome. Títulos não foram conquistados. E a parceria, que deveria durar pelo menos 15 anos, renováveis por mais 15, acabou quando a ISL faliu. Em 2001.

A falência da maior agência de marketing esportivo do mundo, e as consequências para o Flamengo, são o assunto do “Entre as Linhas” desta semana. No quadro, o Estadão se baseia em documentos para contar histórias.

O começo

A base para voltar no tempo está em dois documentos: primeiro, o parecer produzido pela Tendências Consultoria Integrada a pedido do Flamengo para analisar as propostas de Hicks & Muse e ISL; segundo, o relatório da Comissão de Sindicância, no qual toda a parceria com a ISL foi depurada por conselheiros do clube.

A consultoria que avaliou as ofertas, inclusive, tinha grande renome na época. Ela era dirigida por Maílson da Nóbrega, ministro da Fazenda entre 1988 e 1990. O economista assina o documento, inclusive, que você pode baixar ao clicar aqui.

No momento em que as propostas estiveram na mesa do Flamengo, o futebol brasileiro estava prestes a migrar da estrutura associativa para a empresarial. Outros clubes já tinham feito tal movimento. O Palmeiras tinha contrato de cogestão com a Parmalat, o Vasco havia fechado com o Bank of America, só para citar dois exemplos.

A diferença daquela época para o que aconteceria mais de 20 anos depois, com o surgimento da SAF, é que os clubes não transfeririam todos os seus ativos para terceiros. Em vez disso, eles abririam empresas para gerir a marca e as receitas decorrentes dela, enquanto o futebol continuava sob comando amador.

Ambas as propostas para o Flamengo iam nessa linha. A Hicks & Muse prometia o aporte de R$ 112 milhões, enquanto a ISL beirava os R$ 138 milhões. Os valores se dividiam entre pagamento de dívidas, compra de jogadores e infraestrutura.

Como eram parcerias, elas teriam começo, meio e fim. Ou seja, um período de existência. A Hicks & Muse pretendia assinar um contrato de dez anos, renovável por mais dez depois que o estádio fosse construído. Já a ISL dizia que queria 15 anos, renovados automaticamente por mais 15, se houvesse lucro na operação.

E de onde viria o retorno? Haveria uma taxa de administração — 2% das receitas no caso da Hicks e 10% das receitas na hipótese da ISL — e a divisão de lucros da empresa que seria gerida em sociedade com o Flamengo. A Hicks ficaria com 75% do lucro, e a ISL com 75% até recuperar seus investimentos. Depois, baixaria para 50%.

Vendas de jogadores também entravam no pacote. O clube da Gávea ainda não tinha a estrutura, profissional e para categorias de base, que seria construída na década de 2010, mas já treinavam nela talentos como Júlio Cesar, Athirson, Adriano e Juan. Tanto Hicks quanto ISL ficariam com 50% de futuras vendas desses atletas da base.

No fim das contas, a consultoria de Mailson da Nóbrega recomendou o acerto com a ISL. O parecer destaca que ambas as propostas elevariam muito a qualidade do negócio rubro-negro, mas a da agência suíça era superior à da concorrente.

O fim

As contratações não foram bem as que a torcida esperava, no primeiro momento. Em vez de Batistuta ou Seedorf, o principal reforço seria do sérvio Petkovic. Depois a diretoria acabaria se soltando um pouco mais no mercado, graças ao dinheiro da ISL, e foi atrás dos direitos de Gamarra, Alex e Edílson. Títulos, mesmo, não houve.

O plano acabou indo por água abaixo por causa da falência da ISL, que pouco tinha a ver com Flamengo ou Grêmio, outro clube com o qual ela havia fechado no Brasil.

O modelo de negócio da ISL era o mesmo em vários ativos do esporte global — da Fifa aos clubes de futebol, passando pelo tênis e outras modalidades. Ela prometia aporte relevante na compra dos direitos, um mínimo garantido, apostando que conseguiria gerar mais dinheiro do que os donos deles, para então lucrar.

O problema é que vários ativos custaram caro demais, não geraram receitas previstas e causaram prejuízos para as contas da agência. Prejuízo demais, ela colapsou em 2001. E os clubes no Brasil, Flamengo e Grêmio, perderam subitamente a parceira.

A Comissão de Sindicância foi aberta pela direção flamenguista em abril de 2001. O 

relatório que resultou da apuração dela, você pode baixar clicando neste link.

Os valores tinham subido em relação à oferta inicial, após negociação. A cotação do real em relação ao dólar estava em cerca de dois para um, e a agência de marketing esportivo aportaria US$ 80 milhões ao longo da parceria, sendo que:

  • US$ 40 milhões para compra de jogadores;
  • US$ 20 milhões para instalações (Fla-Barra e Vargem Grande);
  • US$ 20 milhões para pagamento de dívidas.

O estádio não tinha um valor pré-determinado, mas ficou acertado contratualmente que a ISL teria de adquirir ou arrendar, num prazo de cinco anos, um estádio com capacidade para 50 mil pessoas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Com a quebra da ISL, quase nada disso aconteceu. Os jogadores foram comprados, algumas parcelas foram pagas, e as dívidas sobraram para a associação lidar sozinha.

Só em aquisições de direitos de atletas, havia uma pendência de R$ 7,8 milhões. Ela se dividia em parcelas de Gamarra e Edilson, sendo que Tuta e Petkovic já tinham sido quitados antes do colapso. Pode parecer pouco dinheiro hoje, com o Flamengo próximo de R$ 2 bilhões em faturamento, mas na época as cifras eram muito menores.

No fim das contas, as dívidas em geral aumentaram muito. O Flamengo devia por volta de R$ 75 milhões antes da chegada dos suíços, e esse valor subiu para R$ 136 milhões em junho de 2001, depois da saída deles. Além dos atletas adquiridos, havia pendências com ex-funcionários, governo, entidades esportivas, entre outros.

A parceria que faria do Flamengo uma potência global, com estádio, ídolos e títulos, acabou em pouquíssimo tempo. Sobraram problemas administrativos e financeiros, e acima deles a frustração pela promessa desperdiçada. Desta vez, não por causa dos cartolas brasileiros, e sim por consequências globais de outros negócios do futebol.

Reprodução. Confira o original clicando aqui!