Petróleo puxa indústria extrativa, que deve ter a maior alta do PIB – O Estado de S. Paulo
- Na Mídia
- 09/02/2026
- Tendências
Ibre/FGV estima alta de 9,6% no PIB do segmento neste ano; será o segundo ano consecutivo de avanço de mais de 8%; minério de ferro deve ter alta de 4%
Após ver seu Produto Interno Bruto (PIB) crescer próximo de 9% em 2025 – um desempenho inferior apenas ao do agro, cujas estimativas indicam alta de mais de 10% no ano passado –,a indústria extrativa deve repetir o desempenho positivo em 2026. Projeção do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) aponta para uma expansão de 9,6% no PIB do segmento neste ano.
O bom desempenho da indústria extrativa será puxado pelo petróleo, que deve registrar aumento na produção superior a 10%. O minério de ferro, outro componente do segmento, deve avançar cerca de 4%.
A indústria extrativa deverá se contrapor ao agro, que estagnará em 2026 após um 2025 de recordes. Também será o segmento da economia com maior crescimento no ano. O Ibre estima alta de 0,4% no PIB do agro, de 1,6% no de serviços e de 2,3% na indústria (sendo 2,2% na indústria da construção civil e 0,5% na de transformação).
Os números expressivos do petróleo decorrem de decisões de investimento feitas há mais de cinco anos, de acordo com o economista Walter de Vitto, da Tendências Consultoria.
Apesar de a pandemia ter derrubado a cotação do barril em 2020, os preços se recuperaram em 2022 com a guerra na Ucrânia e projetos de investimento em novas plataformas foram confirmados à época.
Novas plataformas
No ano passado, três novas plataformas entraram em operação – duas delas da Petrobras e uma da Equinor –, ampliando a produção do País em 625 mil barris por dia. Outras duas, que somam mais 280 mil barris diários, haviam começado a produzir no fim de 2024.
Também em 2024, houve paralisações de plataformas que operam no País para manutenção, o que diminuiu a produção daquele ano. Com uma base de comparação fraca e com praticamente seis novas plataformas operando, 2025 registrou uma expansão na produção importante (11,4% até outubro). Em 2026, o desempenho deverá continuar avançando.
O resultado da indústria petroleira brasileira surpreende quando se considera que a demanda global tem crescido timidamente, na casa de 1,2%. “Há uma bolha de produção aqui”, diz Vitto.
A tendência ocorre porque a produção brasileira de petróleo é muito competitiva. A exploração nacional é viável até se o preço do barril estiver ao redor de US$ 30 – hoje, a cotação está em cerca de US$ 65. A média de viabilidade financeira no mundo é de US$ 60.
Nas estimativas do economista Bráulio Borges, diretor da LCA Consultores, a produção de petróleo no País deverá aumentar 40% até 2032. Para 2026, ele também estima alta de 10%.
Indústria extrativa responde só por 3,5% da atividade econômica do País
Importância do petróleo para o País está principalmente na arrecadação do setor público e na balança comercial
Apesar do crescimento esperado de mais de 10% na produção em 2026, o petróleo não tem um peso muito significativo no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. A indústria extrativa (composta sobretudo pelos segmentos de petróleo, mineração e madeira) é responsável por cerca de 3,5% da atividade econômica do País.
A importância do petróleo está principalmente na arrecadação do setor público e na balança comercial, afirma a economista Silvia Matos, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV). Ela lembra que, até 2015, o Brasil dependia da importação de combustível. Hoje, ainda que o País tenha dificuldade no refino, virou um exportador na área. “Um quarto do nosso saldo comercial está vindo do petróleo.”
Matos acrescenta ainda que o segmento também tem impulsionado os investimentos. Segundo seus cálculos, do crescimento de 4% nos investimentos no Brasil no ano passado, metade corresponde a plataformas de petróleo.
Levantamento do economista Bráulio Borges, diretor da LCA Consultores, aponta que, de 2011 a 2019, a arrecadação do governo federal com o petróleo foi de 0,9% do PIB. Com o crescimento da produção, essa taxa está agora em 1,7%. “Acho que pode se aproximar de 2,5% na próxima década”, diz.
Assim como Matos, Borges também destaca que o produto ganhou relevância na balança comercial. “Sempre fomos deficitários em petróleo, mas hoje temos superávit. O petróleo passou a ter importância para gerar divisas para o pagamento de dívidas. Isso é relevante para um país com déficit em conta corrente como o Brasil.”
A relevância do petróleo para a economia do País é destacada por Matos diante das críticas atuais à exploração da foz do Rio Amazonas e à necessidade de abandonar o uso de combustíveis fósseis para controlar o aquecimento global. “Ela (a Margem Equatorial) é muito importante para o País.”
Receita
Fundador do Centro de Energia, Finanças e Desenvolvimento (CEFD), o economista Nicolas Lippolis diz, no entanto, que a dependência arrecadatória hoje é localizada em alguns Estados, como o Rio de Janeiro. Ele afirma ser possível abrir mão de forma gradual desses recursos. “A receita do petróleo é mal distribuída e mal aproveitada. Não acho que dependamos tanto dela”, afirma o economista.
Segundo Lippolis, em relação à segurança energética, seria possível deixar o petróleo conforme novos investimentos fossem feitos em fontes renováveis. “Agora, do ponto de vista estratégico, parece difícil abdicar unilateralmente da exploração. É preciso que países busquem um acordo internacional para limitar a produção. Esse é o único caminho para alcançar as metas climáticas”, diz Lippolis.
Produção de minério de ferro também deve registrar expansão
Apesar de não registrar números como os do petróleo, a mineração também deve crescer em 2026, ajudando o PIB da indústria extrativa. Exportado para a China, que o utiliza na produção de aço, o minério de ferro brasileiro deve ter aumento de 4,2% em sua produção em 2026 – depois de uma alta de 3% em 2025, de acordo com dados da consultoria Tendências.
A fabricação de aço chinesa, entretanto, tem recuado. Ainda assim, com sua alta competitividade, o minério de ferro do Brasil tem tido desempenho positivo.
“O minério de ferro daqui é de excelente qualidade”, diz a economista Yasmin Riveli, da Tendências. Segundo ela, a partir de 2027, porém, o segmento pode começar a enfrentar desafios. Isso porque a produção de minério de ferro deve aumentar na Guiné, acirrando a competição no mercado e podendo reduzir os preços.