Desemprego cai, mas gasto com seguro-desemprego sobe: por que isso acontece? – Estadão
- Na Mídia
- 05/02/2026
- Tendências
No ano passado, o Brasil gastou R$ 52,035 bilhões com seguro-desemprego, um crescimento real de 1,8% na comparação com 2024
O mercado de trabalho brasileiro parece lidar com números que se contradizem. Num ano em que a taxa anual de desocupação atingiu a mínima histórica – ficou em 5,1% em dezembro de 2025, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) divulgados nesta sexta-feira, 29 —, o País assistiu a um aumento do gasto com seguro-desemprego.
Em 2025, o Brasil gastou R$ 52,035 bilhões com o seguro-desemprego, mostra um levantamento realizado por João Pedro Leme, analista da consultoria Tendências. Houve um crescimento real — já descontada a inflação — de 1,8% na comparação com 2024.
“Quando a taxa de desemprego diminui e o mercado de trabalho está mais dinâmico no Brasil, há mais pedidos de seguro-desemprego, resultando em um gasto maior (com o benefício)”, afirma Leme.
De fato, chama a atenção que o crescimento do gasto com seguro-desemprego ocorre desde 2022, quando o mercado de trabalho melhorou após os impactos mais severos provocados pela pandemia de covid-19.
Em 2021, a taxa anual de desemprego foi de 14%, segundo dados da Pnad, apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2022, ela recuou para 9,6%. No ano passado, terminou em 5,6%.
“Há uma tendência de crescimento nos últimos anos, o que é muito contraproducente, porque houve uma redução muito grande no desemprego no período”, afirma Daniel Duque, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). “Mas, como temos uma situação de alta rotatividade do emprego, há mais fluxo de entrada de pessoas e também muita gente saindo.”
Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) — que levam em conta o trabalho com carteira assinada — ajudam a dimensionar a elevada rotatividade do mercado de trabalho brasileiro.
No ano passado, o Brasil registrou quase 10,9 milhões de desligamentos sem justa causa. Em 2025, o saldo de empregos formais criados foi positivo em 1.279.498 carteiras assinadas. O resultado decorreu de 26.599.777 admissões e 25.320.279 demissões.
“As pessoas estão encontrando oportunidades melhores muito rápido. De um lado, elas estão com menos medo do desemprego e, por outro lado, elas querem maximizar esse benefício”, afirma Duque.
Há outros fatores que ajudam a explicar o aumento do gasto com seguro-desemprego. O valor do benefício não pode ser inferior ao salário mínimo. No atual governo Lula, a volta da política de ganho real do salário mínimo foi retomada — como parte da promessa de campanha.
Inicialmente, a regra de reajuste do salário mínimo tinha como base a correção pela inflação mais o PIB de dois anos antes. No fim de 2024, numa tentativa de enviar ao mercado uma sinalização de que o governo estava disposto a controlar o gasto, houve mudança na regra do mínimo — e o ganho real foi limitado ao crescimento máximo de 2,5%, seguindo os parâmetros do arcabouço fiscal.
“Houve a volta do aumento do salário mínimo com o crescimento positivo do PIB e uma inflação relativamente controlada, o que significa que vai haver um aumento real nesses gastos”, diz Leme.
Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, lembra ainda de outro fator que ajudou a estimular o aumento dos pedidos de seguro-desemprego: a possibilidade de que os pedidos sejam realizados de forma online. “Em 2019, 100% dos pedidos eram feitos presencialmente. Hoje, 80% são realizados online”, afirma.
Ajuste na política
O aumento do gasto com seguro-desemprego em um momento de força do mercado de trabalho abre um debate em relação ao desempenho e qualidade dessa política.
Em 2015, ainda no segundo governo Dilma Rousseff, houve mudanças na concessão do seguro-desemprego, dificultando o acesso ao benefício, numa tentativa de reduzir os custos do programa — o que ajudaria no ajuste fiscal proposto pelo governo à época
“Uma das discussões que existem e perpassam outros benefícios sociais que são atrelados ao salário mínimo é se vale ou não a pena o País ter essa regra de crescimento real”, diz Leme.
“Temos vários estudos mostrando que o aumento real do salário mínimo foi uma política importante de inclusão social. Mas, por outro lado, quando olhamos para o Orçamento, vemos que outras medidas que o governo poderia adotar para melhorar a qualidade do seu gasto são travadas em função da rigidez excessiva, a partir do momento em que há muitas despesas indexadas”, acrescenta.
Em todo o mundo, políticas como a do seguro-desemprego são difíceis de ser ajustadas e desenhadas de forma eficiente, lembra Duque.
“E o que é desenhar de forma eficiente? É garantir que quem realmente precisa dos recursos consiga acessá-los, sem mudar incentivos para que pessoas que não se enquadram nos critérios tentem obter o benefício”, acrescenta.
Reprodução. Confira o original clicando aqui!