Saiba tudo o que aconteceu na nossa live sobre as eleições de 2026 e o cenário político
- Blog Macroeconomia e política
- 26/06/2026
- Tendências
Em live exclusiva realizada em 24 de junho de 2026 e que contou com as participações de Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de Macroeconomia e Análise Setorial da Tendências, e Rafael Cortez, sócio responsável pela análise de risco político da Tendências, foram analisados os principais movimentos dos candidatos e partidos à luz dos acontecimentos mais recentes e discutidos os possíveis cenários para a disputa presidencial de 2026.
Ao longo da conversa, também foram debatidos os potenciais desdobramentos econômicos de cada cenário eleitoral, os desafios da agenda fiscal, os impactos para o mercado financeiro e as perspectivas para temas como política externa, concessões, privatizações e reformas estruturais.
Lula segue como favorito, mas eleição permanece em aberto
Embora Luiz Inácio Lula da Silva apareça à frente de Flávio Bolsonaro em diversas pesquisas de intenção de voto, Rafael Cortez ressalta que ainda é precipitado considerar a eleição definida.
Na avaliação da Tendências, a disputa tende a ser marcada muito mais pelos níveis de rejeição dos candidatos do que propriamente pelas intenções de voto. Considerando as margens de erro das pesquisas, os dois principais nomes permanecem em situação de relativo equilíbrio.
O favoritismo de Lula decorre, sobretudo, de dois fatores: a recuperação recente da avaliação do governo e a elevada rejeição enfrentada pela principal candidatura da oposição. Ainda assim, esse cenário não elimina a possibilidade de mudanças ao longo da campanha.
Como evoluiu a avaliação do governo Lula
Segundo Cortez, durante a primeira fase do terceiro mandato, Lula apresentou uma trajetória relativamente estável. As avaliações positivas (“ótimo” e “bom”) permaneceram próximas de 40%, sem oscilações significativas.
Esse quadro começou a mudar ao longo de 2025, quando houve um aumento expressivo da avaliação negativa do governo. As respostas “ruim” e “péssimo” passaram a se aproximar dos 40%, indicando um desgaste importante na percepção do eleitorado.
Diante desse cenário, parte das análises passou a considerar que a oposição chegaria fortalecida às eleições presidenciais, apoiando-se no crescimento da insatisfação com o governo.
Na avaliação de Cortez, entretanto, essa leitura desconsiderava dois elementos fundamentais.
O primeiro é que governos costumam apresentar recuperação de popularidade durante o período eleitoral, impulsionados pela maior exposição pública e pelo uso da máquina administrativa.
O segundo é que boa parte da força eleitoral atribuída a Flávio Bolsonaro refletia, naquele momento, o capital político do ex-presidente Jair Bolsonaro, e não necessariamente uma base própria consolidada. Como o senador ainda não havia sido submetido a um teste eleitoral nacional como principal candidato, sua capacidade de converter esse apoio em capital político próprio permanecia uma incógnita.
Além disso, o Caso Master contribuiu para evidenciar a baixa resiliência desse capital político.
Uma disputa marcada pela rejeição
Na avaliação da Tendências, a eleição presidencial de 2026 tende a ser definida por uma dinâmica de rejeição entre os principais candidatos.
Embora Lula e Flávio Bolsonaro apresentem níveis elevados de rejeição, sua natureza é distinta.
A rejeição ao atual presidente tende a ser mais estável, resultado de uma trajetória política amplamente conhecida pelo eleitorado ao longo das últimas décadas.
Já a rejeição a Flávio Bolsonaro ainda pode sofrer oscilações ao longo da campanha, justamente porque sua imagem como liderança nacional ainda está em processo de consolidação.
Outro aspecto destacado por Cortez é a possibilidade de parte do eleitorado demonstrar cansaço diante da polarização política. Caso esse sentimento resulte em aumento da abstenção, o cenário tende a favorecer Lula, uma vez que a oposição teria maior dificuldade para conquistar novos eleitores e ampliar sua base de apoio.
Política externa também amplia os riscos políticos
Além do ambiente doméstico, a Tendências avalia que o cenário internacional representa um fator adicional de risco para as eleições de 2026.
Segundo Cortez, a política externa conduzida pelo governo de Donald Trump e a evolução das relações entre Estados Unidos e Brasil podem influenciar o ambiente político nacional.
Na visão da Tendências, o governo norte-americano enxerga a América Latina como uma área estratégica de influência. Nesse contexto, a conjuntura eleitoral brasileira ganha importância adicional, especialmente diante dos possíveis impactos geopolíticos sobre as relações bilaterais.
O desafio fiscal continuará no centro da agenda econômica
Na avaliação da Tendências, independentemente do resultado das eleições, a fragilidade fiscal continuará sendo o principal desafio da economia brasileira nos próximos anos.
Segundo Alessandra Ribeiro, o país enfrenta dificuldades para gerar resultados primários positivos capazes de interromper a trajetória de crescimento da dívida pública. Para este ano, a projeção da Tendências aponta uma relação dívida/PIB de 84%.
“A dinâmica fiscal permanece bastante adversa, porque o país ainda não consegue produzir resultados primários suficientemente robustos para conter o avanço da dívida”, explica Ribeiro.
Esse quadro reforça a necessidade de medidas que promovam um ajuste fiscal consistente e contribuam para restabelecer a sustentabilidade das contas públicas.
Como o mercado reage aos diferentes cenários eleitorais
A precificação dos ativos financeiros reflete as expectativas dos investidores em relação à condução da política econômica pelo próximo governo.
Segundo Alessandra Ribeiro, quando Lula aparece à frente nas pesquisas, a reação inicial do mercado tende a ser mais negativa. Já cenários em que Flávio Bolsonaro lidera costumam provocar uma resposta mais favorável dos investidores.
Essa leitura decorre da percepção de que um eventual governo Flávio Bolsonaro teria maior disposição para implementar um ajuste fiscal mais amplo, enquanto uma nova administração Lula manteria, em linhas gerais, a orientação econômica atual.
No entanto, essa não é a avaliação da Tendências.
O cenário fiscal em um eventual novo governo Lula
Na visão da consultoria, as restrições impostas pelo mercado tendem a pressionar qualquer governo a promover algum grau de ajuste fiscal.
Por isso, mesmo no cenário considerado mais provável pela Tendências – a reeleição de Lula -, espera-se uma agenda voltada à contenção gradual do crescimento dos gastos obrigatórios.
Entre as medidas com maior probabilidade de avanço está a revisão dos pisos constitucionais de Saúde e Educação, iniciativa que poderia contribuir para moderar a expansão das despesas obrigatórias.
Por outro lado, a Tendências considera pouco provável que um novo governo Lula avance em propostas de maior impacto político, como a revisão da regra de valorização do salário-mínimo ou a sua desvinculação do de benefícios previdenciários e assistenciais.
Embora um ajuste dessa natureza represente um avanço em relação ao cenário atual, Ribeiro ressalta que seus efeitos ocorreriam de forma gradual.
Na projeção da Tendências, a estabilização da dívida pública ocorreria apenas entre 2032 e 2033, indicando que um ajuste moderado levaria vários anos para produzir resultados consistentes sobre o equilíbrio fiscal.
O cenário fiscal em um eventual governo Flávio Bolsonaro
Embora parte do mercado espere um ajuste fiscal mais profundo sob um eventual governo Flávio Bolsonaro, essa não é a avaliação da Tendências.
Segundo Alessandra Ribeiro, existe uma incompatibilidade entre a proposta de promover uma redução expressiva da carga tributária e as dificuldades políticas para aprovar uma reforma igualmente profunda dos gastos obrigatórios.
Na prática, uma redução relevante dos tributos exigiria uma revisão estrutural das despesas públicas. Sem esse movimento, o espaço fiscal para diminuir a carga tributária permanece bastante limitado.
Além disso, a Tendências avalia que a capacidade de coordenação política de Flávio Bolsonaro com o Congresso tende a representar um desafio adicional para a implementação dessa agenda.
Ainda que exista disposição para promover mudanças mais amplas, a limitação de capital político pode reduzir significativamente a viabilidade de reformas estruturais.
Nesse contexto, a expectativa inicial de parte do mercado pode dar lugar a uma frustração caso as medidas fiscais prometidas encontrem obstáculos para sua implementação.
A reação dos mercados pode mudar ao longo do mandato
Alessandra Ribeiro destaca que a reação dos mercados não depende apenas do resultado das eleições, mas também da capacidade do governo eleito de entregar a agenda econômica esperada.
Em um cenário de reeleição de Lula, a tendência seria uma reação inicial mais negativa, seguida de melhora gradual à medida que fossem apresentados sinais concretos de compromisso com o ajuste fiscal, ainda que em ritmo moderado.
Já em um eventual governo Flávio Bolsonaro, a expectativa seria inversa: uma resposta inicial positiva, impulsionada pelas expectativas de reformas mais profundas, mas com risco de deterioração caso essas medidas encontrem limitações políticas e fiscais.
Em ambos os cenários, entretanto, a Tendências avalia que ajustes moderados levariam vários anos para produzir superávits primários consistentes e estabilizar a dívida pública.
Na avaliação da consultoria, um reequilíbrio mais rápido exigiria uma revisão mais abrangente dos gastos obrigatórios, tema que permanece entre os maiores desafios políticos do país.
Concessões e privatizações devem seguir trajetórias distintas
Além da agenda fiscal, Alessandra Ribeiro destacou que outros temas relevantes para o ambiente de negócios também podem representar diferenças entre os cenários eleitorais.
No caso de um eventual novo governo Lula, a Tendências avalia que a agenda de concessões à iniciativa privada deverá permanecer como uma prioridade.
Nos últimos anos, projetos relacionados à infraestrutura, especialmente nos setores de rodovias, saneamento e ferrovias, avançaram acompanhados de mudanças regulatórias e de medidas voltadas à simplificação dos processos de concessão. A expectativa é que essa agenda tenha continuidade em um novo mandato.
Por outro lado, a consultoria considera pouco provável um avanço significativo das privatizações. Na avaliação da Tendências, essa pauta deverá permanecer bastante limitada.
Em um eventual governo Flávio Bolsonaro, o cenário para as concessões tende a ser semelhante, com continuidade dos projetos de parceria com o setor privado.
A principal diferença estaria na agenda de privatizações, que poderia ganhar maior espaço. Ainda assim, sua implementação dependeria da capacidade de articulação política junto ao Congresso.
Reformas estruturais devem continuar avançando de forma gradual
Independentemente do resultado das eleições, a Tendências não projeta um ciclo acelerado de reformas estruturais.
Em um eventual governo Flávio Bolsonaro, o principal desafio estaria relacionado à capacidade de liderança política necessária para construir maioria no Congresso e aprovar mudanças mais profundas.
Já em um novo mandato de Lula, as dificuldades decorreriam de um ambiente de governabilidade marcado por um Congresso que tende a permanecer majoritariamente de centro-direita.
Em ambos os cenários, portanto, a expectativa é de avanços graduais, sem mudanças estruturais de grande magnitude no ambiente econômico.
Política externa pode representar a principal diferença entre os cenários
Na avaliação da Tendências, a política externa é um dos temas em que as diferenças entre os possíveis governos se tornam mais evidentes.
Em um eventual novo mandato de Lula, a expectativa é de continuidade da estratégia atual, baseada na diversificação de parceiros comerciais e na manutenção de relações diplomáticas com diferentes blocos e países, sem alinhamentos automáticos.
Essa postura ganha importância em um contexto internacional marcado pelo aumento das tensões geopolíticas e pelo fortalecimento de políticas mais protecionistas.
Nesse ambiente, o Brasil tem buscado ampliar sua inserção internacional por meio da celebração de acordos comerciais e da diversificação de mercados, reduzindo sua dependência de um número restrito de parceiros.
Segundo Alessandra Ribeiro, essa estratégia tende a permanecer como uma diretriz para um eventual novo governo Lula.
Já em um governo Flávio Bolsonaro, a Tendências projeta uma política externa mais alinhada aos governos conservadores, especialmente os Estados Unidos.
Na avaliação da consultoria, esse reposicionamento poderia gerar tensões com outros parceiros estratégicos do Brasil, em especial a China, atualmente o principal parceiro comercial do país.
Dessa forma, a política externa deixa de ser apenas um componente diplomático e passa a representar um fator com potenciais impactos econômicos relevantes, sobretudo sobre o comércio internacional e o ambiente de negócios.
Conclusão
As análises apresentadas durante a live reforçam que, embora os cenários eleitorais apresentem diferenças importantes em temas como política externa, privatizações e condução da agenda econômica, ambos os candidatos enfrentarão restrições semelhantes para implementar mudanças estruturais.
Na avaliação da Tendências, a necessidade de promover um ajuste fiscal permanece como o principal desafio do próximo governo, independentemente do resultado das eleições.
Ao mesmo tempo, fatores como a capacidade de articulação política, a composição do Congresso e o ambiente internacional continuarão desempenhando papel decisivo tanto na condução da política econômica quanto na percepção dos mercados ao longo do próximo mandato.
Mais do que antecipar vencedores, a análise da Tendências destaca os condicionantes econômicos e políticos que deverão moldar a atuação do futuro governo e seus impactos sobre a economia brasileira.
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