Tendências Consultoria Econômica

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Saiba tudo o que rolou na nossa live sobre o que esperar dos programas de estímulo econômico

Diante de um quadro eleitoral cada vez mais apertado e de um ambiente monetário ainda restritivo, o governo brasileiro tem lançado novas medidas de estímulo à economia. Entre elas estão iniciativas voltadas à redução da inadimplência, ampliação dos investimentos na construção civil, reforço da transferência de renda e contenção da alta dos preços dos combustíveis.

Para analisar os possíveis impactos dessas medidas, a Tendências Consultoria realizou uma live exclusiva em 21 de maio de 2026, que contou com as participações de Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de Macroeconomia e Análise Setorial da Tendências, e dos consultores Isabela Tavares e Thiago Xavier.

Confira a seguir os principais pontos discutidos durante o evento.

Taxa das “blusinhas”

O governo isentou o Imposto de Importação (II) de 20% para compras internacionais de até US$ 50, mantendo apenas a incidência do Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços (ICMS). Desde agosto de 2024, essas encomendas estavam sujeitas a dois tributos: o Imposto de Importação de 20% e o ICMS cobrado pelos estados.

Durante a live, foi apresentada uma simulação comparando os preços finais das compras com e sem a cobrança do imposto de importação. Em uma aquisição de R$ 252, por exemplo, o valor final chegaria a R$ 360 com a incidência da taxa. Sem o tributo, o custo cairia para R$ 301, gerando uma economia de aproximadamente R$ 59 e liberando cerca de R$ 60 para novas compras.

É importante destacar, contudo, que as importações de vestuário não sinalizam redução relevante com a medida. O resultado reforça a leitura de que há uma mudança estrutural em curso na indústria nacional e que parte dos bens de consumo importados possui ticket médio inferior ao valor tributário.

Desenrola 2.0

O retorno do programa Desenrola tem como objetivo proporcionar alívio financeiro temporário para famílias e empresas.

O público-alvo contempla:

  • Famílias com renda de até cinco salários mínimos (cerca de R$ 8 mil);
  • Estudantes com contratos do Fies, abrangendo mais de 1 milhão de pessoas;
  • Microempresas, com faturamento anual de até R$ 360 mil;
  • Pequenas empresas, com faturamento de até R$ 4,8 milhões;
  • Agricultores familiares.

O programa está estruturado em diferentes modalidades:

Desenrola Famílias

Prevê a renegociação de dívidas emergenciais com atraso entre 90 dias e 2 anos, prazo de pagamento de até 48 meses, possibilidade de utilização do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e juros de 1,99% ao mês. A renegociação será realizada por meio dos canais das instituições financeiras.

Desenrola Fies

Permite a quitação à vista com desconto sobre multas e abatimento de 12% do valor principal. Débitos vencidos há mais de 360 dias poderão receber descontos de até 99% do valor consolidado da dívida. Em outras situações, os descontos podem chegar a 77%.

Desenrola Empresas

Amplia as condições de crédito para micro e pequenas empresas, com aumento da carência de 12 para 24 meses, extensão do prazo de pagamento de 72 para 96 meses, tolerância de atraso ampliada de 14 para 90 dias e elevação do limite do crédito em relação ao faturamento, de 30% para 50%.

Desenrola Rural

Possibilita a regularização de dívidas com descontos de até 96%. A iniciativa já estava em andamento e foi prorrogada até dezembro de 2026.

O Desenrola 2.0 surge em um contexto em que, apesar da economia e do mercado de trabalho aquecidos, as famílias brasileiras apresentam uma parcela crescente da renda comprometida com o pagamento de dívidas. Em muitos casos, o endividamento já supera a renda total disponível.

O programa atuará principalmente sobre as modalidades de crédito que registraram os maiores avanços da inadimplência nos últimos anos: cartão de crédito rotativo, cheque especial e crédito pessoal.

Em todas as regiões do país observa-se aumento da participação de consumidores inadimplentes na população adulta, com destaque para a região Sul, que apresentou a maior elevação.

Também chama atenção o crescimento da participação das dívidas junto a instituições financeiras, categoria que inclui agentes além dos bancos tradicionais.

Segundo estimativas da Tendências, o Desenrola 2.0 deverá reduzir a inadimplência de pessoas físicas em recursos livres em cerca de 0,5 ponto percentual. A projeção atual indica que a inadimplência alcançará 6,5% ao final de 2026, com os impactos do programa começando a ser percebidos a partir do terceiro trimestre do ano.

A simulação considera o volume alcançado pela primeira edição do Desenrola e as mudanças regulatórias implementadas entre os dois programas.

Programa Move Brasil – 2ª fase

O programa tem como objetivo financiar a aquisição de caminhões, ônibus, micro-ônibus, implementos rodoviários (reboques e carrocerias), além de veículos nacionais novos com conteúdo local financiável pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e veículos seminovos destinados a autônomos e cooperativas.

A primeira etapa, lançada em janeiro de 2026, disponibilizou R$ 10 bilhões e registrou cerca de 8 mil operações voltadas à compra de caminhões novos em apenas dois meses.

O público-alvo inclui:

  • Transportadores autônomos de cargas;
  • Pessoas físicas associadas a cooperativas de transporte rodoviário de cargas;
  • Empresários individuais e pessoas jurídicas do transporte rodoviário e urbano de cargas e passageiros.

O programa oferece condições diferenciadas de financiamento, incluindo:

  • Redução das taxas de juros;
  • Prazo máximo de pagamento de até 10 anos, ante cinco anos na primeira fase;
  • Carência de até 12 meses, frente aos seis meses anteriormente praticados.

Ao todo, estão disponíveis R$ 21,2 bilhões por meio da linha de Renovação de Frota do BNDES, sendo R$ 14,5 bilhões oriundos do Tesouro Nacional e R$ 6,7 bilhões do próprio banco.

Também está prevista, para junho de 2026, a modalidade voltada a motoristas de aplicativos e taxistas. O programa incentivará a troca de veículos por meio de financiamentos com juros entre 11,5% e 12,6% ao ano e prazo de pagamento de até 72 meses.

O principal objetivo é promover a renovação da frota nacional, reduzindo sua idade média, contribuindo para a diminuição dos acidentes e melhorando os indicadores ambientais relacionados à emissão de poluentes.

Nos últimos anos, a idade média da frota de caminhões aumentou significativamente, alcançando quase 12 anos em 2025, ante 10 anos em 2010.

Apesar disso, as vendas de caminhões novos ainda não sinalizaram aceleração relevante após a primeira fase do programa. Esse resultado pode ser parcialmente explicado pela defasagem entre a concessão do crédito e sua conversão em consumo efetivo, além do aumento das vendas de caminhões seminovos.

Para a segunda fase, a expectativa é de reforço ao cenário de leve recuperação das vendas de caminhões. A projeção atual aponta crescimento de 2,2%, após retração de 8,8% observada em 2025.

Programa Move Brasil Rural

O Move Brasil Rural tem como objetivo financiar a aquisição de máquinas e implementos agrícolas, incluindo tratores, pulverizadores, cultivadores e colheitadeiras.

O público-alvo é composto por produtores rurais e cooperativas agrícolas.

O programa prevê redução das taxas de juros, ampliação dos prazos máximos de pagamento e aumento dos períodos de carência.

Serão disponibilizados R$ 10 bilhões por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), sob administração da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

A iniciativa surge em um contexto de enfraquecimento da atividade do setor. A produção de tratores, máquinas e equipamentos agrícolas recuou 11,1% no acumulado do primeiro trimestre de 2026 em comparação ao mesmo período do ano anterior.

As vendas de máquinas agrícolas registraram avanço de 16% em março de 2026, na série dessazonalizada. Ainda assim, acumulam queda de 16,6% no primeiro trimestre de 2026 frente ao mesmo período do ano anterior, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Condições financeiras incentivam a troca de máquinas

Em março de 2026, os juros bancários para financiamento de bens destinados a pessoas jurídicas estavam em 18,7% ao ano, com prazo médio de pagamento de 41 meses.

No Move Brasil Rural, as condições são mais favoráveis, com prazo de até 60 meses e juros entre 13% e 14% ao ano.

Em exercício realizado pela Tendências, observou-se que:

  • Considerando as condições máximas do programa, com prazo de 60 meses e juros de 14% ao ano, a parcela ficaria cerca de R$ 1 mil abaixo da atualmente praticada;
  • Mantendo o prazo atual e reduzindo apenas a taxa de juros para 14% ao ano, a parcela seria aproximadamente R$ 250 menor.

Programa Minha Casa Minha Vida

O Minha Casa Minha Vida teve seu alcance ampliado. Em maio de 2026, foi criada a Faixa 4, destinada a famílias com renda mensal entre R$ 8,6 mil e R$ 12 mil.

Além disso, em novembro de 2025 foram ampliados os tetos dos imóveis enquadrados nas faixas 1 e 2. Nas grandes metrópoles, o limite passou de R$ 264 mil para R$ 275 mil.

Posteriormente, em abril de 2026, houve novo reajuste das faixas de renda e dos tetos dos imóveis enquadrados nas faixas 3 e 4.

Apesar dessas medidas, o desempenho abaixo do esperado do Índice de Confiança da Construção (ICC) e os impactos do conflito no Oriente Médio sobre os preços dos materiais de construção impuseram viés de baixa às projeções do setor. Atualmente, a expectativa é de crescimento de 2,1% do PIB da construção em 2026.

Após o forte avanço observado entre 2023 e 2024, o número de imóveis financiados com recursos do FGTS vem apresentando forte acomodação.

Caracterização dos beneficiários por faixa de renda

O Sudeste concentra 51% dos beneficiários potenciais da reforma, seguido pelo Sul, com 20,3%.

Já as regiões Norte e Nordeste possuem maior participação de pessoas nas faixas de renda mais baixas, que tendem a ser menos impactadas pelas mudanças por já estarem isentas do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) pela tabela progressiva.

Entre os estados, destacam-se São Paulo (29,5%), Minas Gerais (10,8%) e Rio de Janeiro (8,6%).

Caracterização dos beneficiários por inserção ocupacional

No agregado, a maior parte dos beneficiários é formada por empregados do setor privado, que representam 51% do total. Além disso, 61,6% dos trabalhadores contemplados ocupam posições formais.

Na faixa de renda entre R$ 2.428 e R$ 5 mil, predominam empregados do setor privado, que correspondem a 53,5% do total, sendo 73,5% deles trabalhadores formais.

Já na faixa entre R$ 5 mil e R$ 7.350, observa-se maior participação de servidores públicos (27,3%) e empregadores (8,1%), além de um nível de formalização mais elevado, de 81,7%.

Dessa forma, o perfil mais beneficiado tende a ser o de empregados formais do setor privado, seguido, em menor grau, por servidores públicos e trabalhadores por conta própria.

Alíquota efetiva do IRPF e progressividade

A análise da alíquota efetiva atual do IRPF revela dinâmicas distintas ao longo da distribuição de renda.

A alíquota cresce até o percentil 94 da distribuição — cuja renda média mensal é de R$ 23.229,03 — atingindo aproximadamente 12%.

A partir desse ponto, passa a recuar gradualmente à medida que a renda aumenta. Entre os 0,7% mais ricos da população, a alíquota efetiva média é de 8,54%, enquanto entre os 0,01% mais ricos — cuja renda média mensal alcança R$ 5.251.235,86 —, o percentual cai para 5,67%.

Os grupos situados acima do percentil 99,4% da distribuição de renda, correspondentes aos 0,7% mais ricos, serão os principais afetados pela proposta de imposto mínimo.

Conclusão

As medidas anunciadas pelo governo federal refletem uma estratégia de estímulo à economia baseada em diferentes frentes de atuação, que vão desde a ampliação do crédito e a renegociação de dívidas até incentivos direcionados a setores específicos, como transporte, agronegócio e construção civil.

Embora os programas tenham potencial para aliviar restrições financeiras de famílias e empresas e apoiar determinados segmentos da atividade econômica, seus impactos tendem a ser heterogêneos e dependem de fatores como a evolução das condições macroeconômicas, a trajetória dos juros, o comportamento do mercado de trabalho e a confiança dos agentes econômicos.

As análises apresentadas pela equipe da Tendências mostram que, mais do que observar cada medida de forma isolada, é fundamental compreender como elas se inserem em um contexto mais amplo, marcado pela proximidade do ciclo eleitoral, pela busca de sustentação do crescimento econômico e pelos desafios fiscais enfrentados pelo país.

Nesse cenário, acompanhar a implementação dessas iniciativas e seus efeitos sobre o consumo, o investimento e os diferentes setores da economia será essencial para entender a dinâmica da atividade econômica nos próximos trimestres.

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