Endividamento de 80% das famílias acende o alerta em ano eleitoral – G1
- Na Mídia
- 02/04/2026
- Tendências
Em entrevista para o G1, Isabela Tavares, economista da Tendências Consultoria, fala sobre o papel crucial do tema em 2026
O endividamento é um drama na vida de 80% das famílias brasileiras que têm, em média, quase 30% da renda mensal consumida pelo pagamento de débitos. Só os juros respondem por 10% desse total. Um garrote no orçamento doméstico que envenena a percepção sobre a economia e, por isso, acendeu o alerta das autoridades em Brasília no ano eleitoral.
Existe dívida boa e dívida ruim?
Isabela acredita ser possível falar que existem dívidas que ajudam no consumo. Não necessariamente todo o endividamento é uma forma negativa. O crédito, por exemplo, é uma forma de consumir. Então, quando falamos de financiamento imobiliário, de aquisição de veículos, mesmo de um crédito consignado que não tem uma destinação específica, são dívidas boas, porque temos juros baixos, um prazo de pagamento alto, então ela acaba não comprometendo tanto a massa de renda das pessoas.
Quando se trata de dívida ruim, Isabela destaca os juros muito altos, como os de cheque especial, de crédito rotativo e de não consignado, por exemplo.
Endividamento da população
Como pano de fundo desse endividamento, temos a taxa de juros no patamar mais elevado em duas décadas. Ao ser questionada se existe uma espécie de consenso entre os economistas de que o fator principal é esse e se existem outros fatores que temos que levar em conta, Isabela confirma.
Ela explica que a elevação na Selic que ocorreu nos últimos anos é um dos principais fatores, uma vez que esse aumento acaba chegando no juro final. Ela também aponta o aumento no custo de captação nos bancos, que acaba levando aos juros finais mais altos, além de mais dificuldade para as pessoas quitarem dívidas. Isso aumenta o risco de crédito, aumentando de novo os juros.
Isabela diz que esse ciclo de aumento dos juros batendo nessas dívidas bancárias é o motivo principal, mas é possível elencar outros fatores, como o aumento, nos últimos anos, de dívidas mais caras. O aumento de participação no cheque especial e no cartão rotativo acaba piorando a qualidade da carteira e isso leva ao aumento do comprometimento.
Percepção da população à respeito da economia
O governo passou a enxergar no endividamento a causa de ele não colher resultados positivos nessa percepção, mesmo diante de medidas como, por exemplo, a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000.
Ao ser questionada se concorda com essa avaliação e se é esse o veneno, Isabela diz que existem outros venenos, mas acredita que o endividamento é um bem importante, que acaba pressionando bastante a avaliação do governo.
Ela traz como exemplo as pessoas que acabam precisando entrar em algumas dívidas, como o cheque especial e o cartão rotativo, que não são dívidas em que elas querem entrar ou vão buscar, mas acabam tendo que recorrer a isso por uma dificuldade de conseguir pagar as contas.
Isabela também traz os alimentos nos supermercados. No começo do ano passado, vimos os preços pressionando o orçamento das pessoas e nesse ano se repetiu a pressão. Essa volatilidade de aumento na inflação também acaba pressionando o orçamento e as pessoas acabam recorrendo a “dívidas ruins”.
Então, quando as pessoas entram nesse endividamento com juros muito altos, ele vira uma bola de neve. Isabela diz que é muito difícil sair de uma dívida de cartão de crédito e do cheque especial e isso acaba pressionando a avaliação das pessoas sobre o governo e a situação econômica.
Mesmo com o mercado de trabalho resiliente, esses juros muito altos fazem com que as pessoas não consigam pagar dívida e consumir ao mesmo tempo. Então isso acaba afetando, sim, essa avaliação negativa.
O que avaliar antes de tomar uma dívida?
Ao ser questionada se existe um percentual ideal da renda que a pessoa pode comprometer com dívidas ou não é assim que funciona, Isabela diz que existem alguns pontos que as pessoas poderiam avaliar antes de tomar uma dívida.
Para ela, o principal é olhar as parcelas, porque normalmente a gente olha o montante da dívida e não pensa nas taxas de juros que isso vai ter. É preciso olhar a dívida como um todo: qual é o prazo de pagamento, em quanto tempo vai ter que pagar isso, quais vão ser os juros, se as parcelas vão aumentar ou diminuir e ver o quanto isso cabe dentro do seu orçamento, pensando sempre em ter esse outro dinheiro para gastar com itens de primeira necessidade.
“Remédios” para essa situação
Sobre qual a avaliação sobre o efeito imediato e de longo prazo de programas como o Desenrola, Isabela acredita que foi um programa importante, com um número grande de renegociações de dívidas.
Entretanto, o que acabou limitando um pouco o programa foi que ele pegou uma parcela da população e um período específico, entre dívidas de 2019 a 2022 e fez renegociações importantes, com descontos de até 90%. O Desenrola acabou ajudando a diminuir essa inadimplência, mas ele teve um fim e isso acabou virando de novo um aumento nas dívidas.
O crédito está sendo usado para consumir. As pessoas estão cada vez mais entrando no sistema financeiro e utilizando crédito, principalmente o cartão de crédito, como uma forma de renda extra. E aí o Desenrola acabou não trazendo esses efeitos positivos no longo prazo, porque ele fez o efeito esperado no curto prazo e depois parou com as renegociações.
Mas Isabela reforça que essas medidas de renegociação são importantes. As pessoas conseguem jogar o prazo mais para frente, ter uma maior calma e uma maior organização financeira para conseguir quitar as dívidas.
O que fazer no ano eleitoral?
Isabela diz que o governo não tem como limitar o acesso ao crédito, porque o crédito é importante para consumir. Ela traz a própria queda da taxa Selic como um ponto a ser observado. Temos um início recente – ainda é uma queda muito pequena, e demora para ter efeitos nos juros bancários – e devemos ver os efeitos mais para 2027, mas é um processo.
Para Isabela, o primeiro passo é ter uma redução da Selic, um maior equilíbrio macroeconômico, uma inflação controlada, sem pressões extras, para as pessoas terem condições financeiras melhores.
Um outro ponto é pensar nessas renegociações e ter uma retomada delas. O governo também tem pensado em garantias para ajudar os bancos a ofertarem crédito com juros menores.
É um ponto que a gente vimos com o crédito do trabalhador no ano passado: ele veio para tentar pegar uma parcela da população e oferecer juros menores com a garantia de desconto na folha de pagamento. Isabela diz que são medidas importantes que ajudam no curto prazo.
No longo prazo, temos essa redução da Selic que vai ajudar, de forma mais estrutural, na diminuição dos juros. E, além dessa parte econômica, temos também medidas que poderiam ajudar na educação financeira, das pessoas entenderem o quanto faz sentido ter dívida, entenderem quais outros créditos elas podem tomar além do cartão de crédito.
Para Isabela, são medidas estruturais do sistema financeiro que poderiam ser importantes para a população brasileira.
Confira a entrevista na íntegra no vídeo abaixo!
https://www.youtube.com/watch?v=VNAe8NnRbV4