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Reforma Tributária: As dificuldades de adaptação das empresas – Jovem Pan News

Em entrevista ao programa Economia em Foco, da Jovem Pan News, Mário Nazzari Westrup, economista da Tendências Consultoria, analisa a Reforma Tributária e os principais desafios de adaptação enfrentados pelas empresas no cenário econômico atual

Ao ser questionado sobre quais são as principais dificuldades da implementação inicial da Reforma Tributária, que foi vendida como uma coisa bastante simples, escalonada, com longo prazo de adaptação, mas na prática já está exigindo muita coisa, Westrup explica que o grande desafio é a demanda de trabalho para que a transição seja antecipada.

De forma muito estratégica, além da parte operacional, alteração de sistemas, notas fiscais e uma série de outras adequações operacionais, o que Westrup avalia e verifica é que ela muda a lógica dos negócios.

Westrup diz que é preciso avaliar não só a parte burocrática operacional, mas também de posicionamento, porque a nova lógica do sistema tributário altera uma questão de 40 anos de alocação de recursos na economia de uma forma para aproveitar um sistema que acaba. Então acabam os incentivos fiscais, a substituição tributária…

Dentro desse contexto, estamos falando de alterações nas cadeias de suprimento, na realocação espacial de logística e distribuição. E isso tudo demanda muita estratégia, capacidade analítica para entender esses passos para alteração de preço, fluxos de caixa, demonstrativos de resultado e uma série de outras questões que vão tomando conta do dia a dia das companhias durante o período de transição da Reforma Tributária.

Westrup aponta que ter os dois sistemas funcionando juntos acaba atrapalhando as decisões e deixando o sistema um pouco mais confuso.

Como minimizar riscos

Sobre quais recomendações daria hoje para as empresas entrarem nesse sistema e minimizarem os riscos de erros, de serem cobradas mais à frente e de não fazerem a adequação correta, Westrup acredita que, na realidade, é preciso descobrir qual é a nossa carga atual.

Ele explica que não sabemos ainda qual vai ser a alíquota de referência, mas o empresário precisa entender minimamente qual é a carga atual. E ainda existe muita confusão sobre o que é, de fato, a carga tributária das companhias hoje.

O nosso sistema é feito por sistemas cumulativos e não cumulativos, ou seja, tributos em que você paga, tem um desembolso de caixa, mas ele se torna custo, não crédito, e não foi margem embolsada pelo fornecedor. Westrup diz que é o que chamamos de tributos escondidos ou hidden taxes, ou seja, resíduos tributários, como o Ministério da Fazenda chama.

Westrup explica o que é preciso para entender a carga tributária real hoje: “eu pago X de tributo sobre a minha receita, mas quanto de tributo encalhado tem no meu estoque, no meu ativo imobilizado, nos meus custos, nas minhas despesas hoje que eu preciso entender? Porque isso também faz parte da carga tributária da companhia. Ou seja, a empresa paga tributos para frente, mas também sustenta tributos que não dão direito a crédito no sistema antigo. Para fazer uma comparação isonômica com a nova carga, a gente precisa primeiro entender essa carga tributária atual para fazer uma comparação e entender se somos perdedores ou ganhadores em relação à Reforma Tributária.”

“Esse é o primeiro momento. E o segundo é negociar muito bem com seus fornecedores, dentro dessa lógica de contratos. Se o meu fornecedor tiver um certo ganho com a Reforma Tributária, porque os resíduos tributários dele são menores, será que ele vai me repassar esse ganho? Será que nós vamos conseguir negociar e chegar em uma situação dessa?”

O que temos visto historicamente, com Reformas Tributárias como a da Índia, é que o agente econômico racional, no primeiro momento, tenta embolsar essa margem. Ele não repassa automaticamente para o cliente.

Mas Westrup diz que temos que lembrar que, lá na ponta, estamos todos competindo com o orçamento das famílias. Ou seja, se os Serviços na Reforma Tributária terão aumento e se alguns setores, como as Indústrias, terão ganho, mas não quiserem repassar, pode haver um estouro lá na frente. Alguém terá que ceder.

Então a recomendação, segundo Westrup, é que cada empresa precisa entender onde está no seu setor e no elo da cadeia, qual sua exposição a fornecedores e clientes, e, a partir disso, começar a negociar e a se reorganizar estrategicamente para essa transição.

O Setor de Serviços, de acordo com Westrup, é um setor que geralmente, acaba utilizando muitos outros serviços e mão de obra. Logo, se o serviço aumentar estruturalmente, nós também teremos um aumento dos nossos próprios custos. E o fato da mão de obra não ser creditável e ser uma grande parte do custo, temos uma mudança de estrutura no custo das companhias. Isso faz algumas empresas ficarem mais ou menos competitivas.

Neutralidade arrecadatória

Westrup diz que a questão da transição da Reforma Tributária é muito sensível. O ideal seria “dormir agora e acordar só em 2033”. Durante esse processo transitório, teremos dificuldades.

Sobre a questão da neutralidade arrecadatória, em que o governo desenhou um sistema em que não deveria aumentar a arrecadação, Westrup explica que, inevitavelmente, tende a aumentar, porque o sistema força maior formalização. As empresas irão exigir que seus fornecedores estejam regularizados para garantir crédito. Haverá um trabalho grande de adequação de pequenos fornecedores, exigindo compliance mínimo e adequação às regras.

E há outro ponto, de acordo com Westrup: durante a transição, o empresário irá conviver com sistemas antigos e novos ao mesmo tempo. Em 2029, por exemplo, já com CBS implementado, ainda haverá resquícios de ICMS e ISS, incentivos…. Formar preço nesse cenário será extremamente complexo.

Confira o bate-papo na íntegra no vídeo abaixo!