Selic deve subir em março e atingir 4,0% até o final do ano

Por: Sílvio Campos Neto

Foto: Agência O Globo.

Diante das informações disponibilizadas pelo Copom após sua última reunião, a Tendências revisou suas expectativas para a evolução da taxa básica de juros nos próximos meses. O cenário básico passa a contemplar elevação na Selic a partir da reunião de março, na magnitude de 25 bps, com a taxa alcançando 4,0% ao final do ano. A leitura é de que o endurecimento do tom da ata, em um contexto de riscos fiscais elevados e de maior persistência das pressões inflacionárias, torna mais provável o movimento de alta já no próximo encontro do Copom, nos dias 15 e 16 de março.

Trecho da última ata mostra que parte do Comitê já havia defendido na reunião de janeiro uma redução do atual nível “extraordinário” de estímulo monetário, diante de um contexto de “normalização do funcionamento da economia observada nos últimos meses”. Entretanto, com novos impactos da pandemia sobre a atividade sendo esperados e o grau de incerteza acima do usual, na definição do próprio Copom, os membros julgaram apropriado manter “neste momento” a taxa de juros inalterada. Até março, ainda que números da atividade devam apontar arrefecimento, isso não deverá ser suficiente para alterar a assimetria para cima do balanço de riscos para a inflação, o que tende a consumar a intenção de iniciar a redução do grau de estímulo. 

A questão fiscal é um aspecto importante nessa equação, dado que é o motivo apresentado pelo Banco Central para desequilibrar o balanço de riscos para a inflação. Com a piora da pandemia, tem crescido as pressões para a adoção de uma nova rodada do auxílio emergencial, o que tende a ser discutido e definido na retomada dos trabalhos no Congresso, logo na sequência das eleições para o comando das casas. Há dúvidas sobre a capacidade do governo de encaminhar em conjunto medidas estruturais corretivas, capazes de compensar o novo aumento de gastos. Ademais, as preocupações com a dinâmica da dívida devem continuar presentes no curto prazo, mantendo a pressão sobre os prêmios de risco e a taxa de câmbio. De fato, a evolução do câmbio e das expectativas de inflação são variáveis importantes no atual processo decisório da política monetária, de modo que a normalização parcial sugerida pelo Banco Central atuaria para conter a deterioração destes condicionantes.

Em suma, o conteúdo da ata evidencia que o Copom pretende iniciar em breve a redução do grau de estímulo monetário, sendo que o movimento apenas não ocorreu em janeiro em virtude do nível de incertezas acima do usual, conforme definição da própria autoridade monetária. Com base no discurso da ata, avaliamos como mais provável o aumento de 25 bps na Selic na reunião de março, seguido de um ajuste de mesma magnitude em maio e de três altas adicionais de 50 bps, que levariam a taxa básica até 4,0% em setembro, nível que seria mantido até o final do ano. Importante reforçar o cenário marcado por elevadas incertezas fiscais, políticas e econômicas, amplificadas pela piora do quadro pandêmico neste início de ano, algo que se traduz em maior imprevisibilidade de variáveis importantes.

Acesse todos os serviços e produtos

Faça seu login